
Psiquiatra Mario Enrique Giulietti falou sobre o aumento do adoecimento psíquico vinculado ao estresse e ao esgotamento do trabalho. Fotos: Sérgio Cardoso
O aumento do adoecimento psíquico em função das transformações do mundo do trabalho foi pauta do Congresso Estadual da categoria na tarde deste sábado, 13. O médico argentino Mario Enrique Giulietti, especialista em neurologia, psiquiatria e em saúde pública, debateu os principais fatores que levam ao adoecimento. Segundo ele, estima-se que 80% dos casos de depressão e ansiedade tem origem na atividade laboral.
Giulietti aponta que registros de esgotamento na história da humanidade são antigos, aparecendo inclusive em textos bíblicos. Mas ao contrário de nossos antepassados, para quem o estresse tinha causas sobretudo físicas, o estresse do século 21 é principalmente mental ou emocional, o que pode chegar ao ponto de o trabalhador já não se sentir parte do mundo em que vive.
Mudanças do mundo do trabalho
Apesar do adoecimento psíquico ter um aspecto individual, que está relacionado, por exemplo, à trajetória pessoal, ao grau de escolaridade, gênero, etnia, experiência de vida, papéis desenvolvidos e grau de comprometimento com o trabalho, para compreendermos a relação desses adoecimentos com o mundo do trabalho é preciso observar aspectos macros, como as tendências globais e as influências recebidas pela humanidade desde a Revolução Industrial até os dias atuais, com a inovação da tecnologia da informação.
“O mercado está se tornando mais complexo, competitivo e dinâmico, aumentando-se a exigência dos níveis de desempenho competitivo dos trabalhadores. Na política econômica globalizada, nota-se a presença marcante da exigência competitiva, com a constante marca de reduzir custos com enxugamento, principalmente com a diminuição do número de empregados”, explica.
A fala do médico é bastante elucidativa quando olhamos para o contexto de reestruturação nos bancos, acelerado pelo uso massivo de novas tecnologias. Ele também observa que a busca pela lucratividade, a competitividade e a produção em massa, próprias do modelo econômico atual, descaracterizam o trabalho do homem.

Personalidades
Tais mudanças na sociedade vão também moldando a personalidade do conjunto dos trabalhadores, de modo que é característico de um dos tipos de personalidade atual a tendência para tentar atingir metas muito altas, a impulsão por competir, o desejo contínuo por reconhecimento ou para progredir, o envolvimento em múltiplas funções e a incapacidade de relaxamento satisfatório mesmo em períodos de folga. Mas o médico explica também que são identificadas personalidades opostas a essa, mais seguras e tranquilas, que estão relacionadas com o suporte “social-família-amigos-trabalho”, que vai colaborar na proteção emocional contra um desequilíbrio emocional ou mesmo doença física.
Burnout
O especialista alerta que o esgotamento vital ou emocional causado pelo acúmulo de situações emocionais negativas e agravado pela falta de apoio dos superiores e dos colegas pode levar a várias perturbações mentais e psicossomáticas, além da perda de confiança, da motivação para o trabalho e da autoestima. Um delas é a chamada síndrome de Exaustão Profissional (SEP), também conhecida como síndrome de burnout, que é uma resposta prolongada aos estressores emocionais e interpessoais crônicos no trabalho, com interação entre trabalhador e cliente, intensa e ou prolongada.
Ele explica que tal síndrome não aparece repentinamente como resposta a um estressor determinado, mas após um tempo de exposição aos fatores causadores de estresse, de maneira crônica. Por isso, alerta, “é importante ficar atentos aos sinais de natureza emocional e a outros sintomas que podem indicar o desenvolvimento da doença”.
Os primeiros deles, segundo médico, podem ser ansiedade, tédio, apatia e fadiga emocional, que podem ser seguidos de distúrbios do sono, dores musculares, problemas gástricos, fadiga física, irritabilidade, isolamento e depressão.
Já a fase de consolidação da síndrome de burnout pode ser marcada pela sensação de esgotamento físico e emocional, atitudes negativas, ausência no trabalho, agressividade e isolamento, mudanças bruscas de humor, irritabilidade constante, dificuldade de concentração, lapsos de memória, depressão, pessimismo e baixa autoestima – sintomas que ainda podem se agravar aumentando o risco de cardiopatias, crises de pânico, diabetes e doenças autoimunes, levando a um esgotamento total da pessoa.

Bancários participaram do debate trazendo perguntas e situações cotidianas da categoria
Apoio legal
A legislação brasileira reconhece desde 1999 a síndrome de Burnout (SEP) como acidente de trabalho, o que pode garantir aos trabalhadores proteções legais junto à Previdência Social. No entanto, o CID da doença ainda não está contemplado no Sistema de Administração de Benefícios por Incapacidade (Sabi). Ainda assim, se confirmada na avaliação pericial do INSS o diagnóstico de Burnout, o trabalhador terá o direito de receber o auxílio-doença como sendo de origem acidentária, tendo direito a estabilidade provisória no emprego pelo prazo de doze meses após o fim do auxílio.
Questionado sobre a dificuldade comum em caracterizar as doenças emocionais como doenças do trabalho, Giulietti fala da importância de que o empregado se posicione durante o acompanhamento médico. “É importante deixar perfeitamente claro ao médico que o atende que a situação está se agravando por situação laboral. Vale lembrar que a noção generalizada sobre o trabalho é a de que trabalhar é algo que faz bem, que gera saúde. No entanto, muitas situações de estresse, por exemplo, só acontecem em função do trabalho. Antes não havia uma concepção globalizada sobre essas patologias, mas hoje não se pode pensar em patologias únicas e separadas”, esclarece.









