O historiador e militante do Movimento Negro Gilberto Campos (Gilbertinho), integrante do Círculo Palmarino e da Convergência Negra, falou ao Correio Bancário sobre a dimensão do racismo estrutural no Brasil e sobre os desafios para a superação da discriminação racial. Confira!

“A matança de pessoas negras é incentivada pelo próprio governo”
A expressão racismo estrutural vem ganhando espaço na sociedade e é reivindicada por vários movimentos que debatem a questão racial. O que é racismo estrutural?
Falamos que o racismo é estrutural porque ele está incorporado na construção do Estado brasileiro. Ele é necessário para o controle sobre a maioria da população, através do poder de mando, poder político, religioso, militar e, principalmente, financeiro. O racismo estrutural está conectado à lógica capitalista, ou seja, é preciso um sistema onde uns exploram o trabalho do outro, trabalho que produz riqueza. Mas quando o racismo é incorporado, além de explorar para gerar lucro a uma certa elite, há o direcionamento da exploração e da opressão para um segmento da
população, que é a população negra, no caso do Brasil. É um mecanismo construído e mantido pelos que têm o poder. Nas leis brasileiras não está escrita a exclusão da população negra, mas a aplicação da lei atinge de modo diferente brancos e negros
O governo Bolsonaro está fazendo profundas reformas neoliberais. Como elas aprofundam o racismo estrutural?
Qualquer decisão política de arrocho ou redirecionamento na economia atinge com mais intensidade a população negra, porque ela não tem mecanismos de defesa para ultrapassar uma crise financeira, como formação técnica profissional ou acadêmica ou Previdência. É uma população que vive do subemprego ou da informalidade.
No governo Bolsonaro há ainda o ataque a mulheres, negros, indígenas e povos tradicionais de matriz africana. A forma de excluir pode ser pela via da miséria absoluta, com essas reformas que atingem a população negra, ou pela via da violência. O Estado sob o governo Bolsonaro é racista, assassino, e a política dele é a necropolítica. A matança de pessoas negras continua e hoje é incentivada pelo próprio governo.
O racismo estrutural está conectado à lógica capitalista, ou seja, é preciso um sistema onde uns exploram o trabalho do outro
A PEC 32 traz nefastas mudanças para os serviços públicos. Qual a relação entre a luta em defesa dos serviços públicos e dos direitos trabalhistas com a luta contra o racismo no Brasil?
Pelo sistema tributário que temos no Brasil, onde é cobrado imposto tanto na produção como na circulação de bens, serviços e mercadorias, a população negra se coloca como a maior pagadora de impostos. Tanto o rico quanto o pobre pagam o mesmo imposto ao comprar o arroz, por exemplo. Mas o retorno em forma de políticas públicas não se dá na mesma proporção para negros. A população negra é a mais dependente do serviço público, seja na
saúde, na educação, na segurança.
Quando é construída uma política afirmativa, como o sistema de cotas, ela chega pelo poder público, já que a iniciativa privada, em sua maioria, não tem ações que considerem a questão racial. Uma política de redução do Estado, de seletividade no atendimento das políticas públicas, obviamente vai atingir a população negra.
Quais as principais barreiras a serem derrubadas para que a sociedade brasileira caminhe para a superação do racismo?
São diversas. Algumas trabalhadas dentro do movimento negro e outras em conjunto com demais segmentos, como a luta contra a PEC 32, a reforma do Estado, a luta contra o Bolsonaro. Mas tem pontos específicos que cabem à população negra reivindicar.
A questão da fome, que coloca a população negra bastante vulnerável, essa onda de insegurança alimentar que se agravou com a pandemia. São 57% da população brasileira voltando à condição de miséria.
Em 2022 encerra-se a validade das cotas raciais e elas serão rediscutidas em um governo racista. Tudo o que foi construído em prol da população negra está sendo desconstruído e enfrentaremos dificuldades para manter essa política. Em 2022 teremos eleições e a questão racial entrará na pauta. A população negra está se preparando para garantir o maior número possível de representantes no parlamento. Mas o maior desafio, imediatamente, é derrotar Bolsonaro nas ruas e nas urnas.

