
Maria Maeno, médica e pesquisadora da área de Saúde do Trabalhador
Médica e pesquisadora em Saúde do Trabalhador da Fundacentro, com mestrado e doutorado pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP), Drª Maria Maeno fala sobre as sequelas da covid-19 e a importância da vacinação para controlar a pandemia.
Qual situação enfrentamos hoje em relação à covid-19? A pandemia está terminando?
Nas últimas semanas observou-se uma queda da média móvel diária de mortes por covid, o que fez com que houvesse uma falsa sensação de que a situação está controlada. Continua não sendo aceitável que tenhamos aproximadamente 700 mortes em um único dia por apenas uma doença, como ocorreu em 31 de agosto. Mas há alguns aspectos que nos fazem pensar que essa tendência à queda não será mantida:
a) Continuamos sem comando nacional para termos ações coordenadas em todo o país para decidir sobre como conter uma nova ascensão de casos e de mortes.
b) As atividades econômicas voltaram quase que na totalidade e, infelizmente, temos notícias de que as aglomerações têm aumentado, seja no transporte coletivo ou nos locais fechados das empresas. A maioria das empresas não fez obras de engenharia para aumentar a ventilação e renovação do ar. Seria preciso também que aquelas que utilizam ar condicionado tivessem tomado providências para que o ar fosse renovado várias vezes por dia. Máscaras mais protetoras teriam que ser distribuídas pelas empresas para quem trabalha
em locais fechados ou tenham contato com muitas pessoas.
c) Tudo indica que a variante delta será dominante no Brasil, apesar de não termos testagem massiva, e ela é muito mais transmissível. A vacinação plena seria fundamental. Mirando o que aconteceu em outros países, essa variante ainda não causou o impacto que deve causar no próximo período.
d) Os adolescentes apenas começaram a ser vacinados. Infelizmente, a pandemia continua e deverá nos trazer muitas tristezas ainda.
O que já sabemos sobre o tempo de duração das sequelas da covid-19?
Observam-se casos de covid longa em pacientes que tiveram que ser internados, mas também em pacientes com quadros clínicos leves e moderados, que não requereram internação. Há estudos publicados que constatam sintomas por até quatro meses. Mas
esse número não é definitivo. Não sabemos se alguns quadros são totalmente reversíveis.
Além dos pulmões, a covid acomete diferentes órgãos, como rins, sistema cardiovascular, cérebro e sistema nervoso. Os pacientes relatam
cansaço e fadiga muscular, alteração do olfato e paladar, dificuldade para respirar, dor de cabeça, problemas de memória, dificuldade para raciocinar.
Quais são as orientações sobre o cuidado com a saúde para as pessoas que já tiveram covid-19?
Hoje se sabe que o fato de uma pessoa ter tido covid não a imuniza, pelo menos totalmente e permanentemente. Portanto, uma pessoa que teve covid corre o risco de ter novamente, ainda mais com as novas variantes, como a delta, que vem avançando no país, embora não se tenha o mapeamento nacional pela falta de testagem. Sabe-se que no Rio a variante delta já é predominante.
Assim, todas as pessoas devem tomar os mesmos cuidados: evitar aglomerações, permanecer em ambientes bem ventilados e com renovação do ar várias vezes por hora, usar máscara sempre que sair de casa ou for encontrar pessoas, a mais protetiva possível.
As empresas devem realizar obras de engenharia para que se aumente a ventilação, rever sistemas de ar condicionado para garantir a renovação e a umidade relativa do ar alta, fornecer máscaras PFF2 ou N95 para quem for trabalhar em espaços fechados ou
tenha contato com outras pessoas.
Ainda há quem resista à vacinação. Há motivo para temer qualquer uma das vacinas contra a covid-19? Quais os benefícios individuais e coletivos de se vacinar?
As vacinas são seguras, sem dúvida alguma, e oferecem proteção individual (não totalmente) para que a doença não evolua para casos graves e óbitos. Usa-se muito a história de que se alguém oferecer um paraquedas para uma pessoa que está despencando de um avião,
o mais sábio é aceitá-lo, mesmo que haja uma possibilidade de o paraquedas não funcionar. Mas a vacina em massa oferece uma proteção coletiva fundamental.
Vacine-se!










