Bancárias e bancários diretores do Sindicato percorreram agências do Centro de Vitória nesta terça-feira, 17, entregando a edição comemorativa dos 26 anos do jornal Mulher 24 Horas. Em pouco mais de um quarto de século, a publicação é um “espaço de fala para aquelas a quem a sociedade tenta muitas vezes silenciar”, afirma o editorial. Junto com o jornal, foram entregues flores e um cartão com os seguintes dizeres da escritora Simone de Beauvoir: “Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja nossa própria substância”.
“Comemorar 26 anos do jornal é comemorar mais de duas décadas de luta contra o machismo, contra a opressão que se expressam de diversas formas, principalmente no ambiente de trabalho. Esse ato vem para fortalecer as mulheres e reforçar a importância desse debate que permeia as bancárias e vai além da categoria”, afirma a diretora do Sindicato Lindalva Firme. Segundo ela, a receptividade por parte das bancárias foi “calorosa e revigorante”. “A maioria trouxe uma experiência com o jornal, o que nos dá mais certeza que estamos no caminho certo”, afirmou.
Entre os temas que estamparam as páginas do jornal ao longo desses 26 anos destacam-se maternidade, sexualidade e saúde, igualdade de oportunidades, violência obstétrica, formas de organização das mulheres, a luta das trabalhadoras urbanas, camponesas, indígenas e quilombolas, o combate à violência, os direitos sexuais e reprodutivos e a divisão sexual do trabalho, debates que permanecem atuais porque ainda não conseguimos superar o machismo e a opressão da sociedade capitalista.
História
O primeiro jornal foi produzido como um informativo especial em preparação ao I Encontro da Mulher Bancária, realizado pelo Sindicato em 1993. O nome Mulher Bancária batizava a publicação. “Como uma deliberação do Encontro de Mulheres, decidimos dar continuidade ao jornal”, conta a ex-diretora do Sindicato Lucimar Barbosa, que acompanhou a publicação por mais de 20 anos. Foi apenas na terceira edição (oficialmente a de nº 02, já que a contagem começa com a edição zero), que o jornal tornou-se o Mulher 24 Horas.
O nome veio da necessidade de se discutir a dupla jornada de trabalho feminina, que vai além do expediente formal, trabalho este que sempre foi invisibilizado pela sociedade. “Após a jornada no banco, há ainda o trabalho em casa, o cuidado com os filhos, com a escola, com a família de modo geral. Às vezes cuidamos tanto dos outros que esquecemos até da gente. E era isso que queríamos mostrar”, relata Lucimar.
O nome também fazia um trocadilho com o caixa 24 horas, máquina que se popularizava nas cidades no início da década de 1990 como símbolo do processo de automação bancária. Mais de duas décadas depois, a digitalização nos bancos avançou tanto que o caixa 24h já pode ser considerado uma tecnologia obsoleta. Mas, infelizmente, a invisibilidade do trabalho feminino continua sendo uma realidade, assim como outras formas de violência que atingem as mulheres.
Em que o jornal impactou a sua vida?
Nos seus 26 anos de vida, o Mulher 24 Horas chegou a muitas mulheres, levando informações e promovendo debates, não apenas nos bancos, mas em outros espaços como associações de mulheres e diversos movimentos sociais. E cada uma estava num momento individual. Fomos ouvir algumas bancárias para saber em que o jornal impactou a sua vida. Confira os depoimentos .
“O M24H nos conecta com as demais mulheres, da categoria ou não. Uma edição que me tocou logo que entrei na Caixa foi sobre assédio sexual, porque me lembrou de uma situação que eu havia vivido em outro emprego, ainda muito jovem, como estagiária, aos 18 anos. Eu não tinha consciência de que o assédio estava ligado à questão de gênero, ao machismo. Tocou-me bastante, me deu conforto e força para não permitir que isso voltasse a acontecer. Não podemos relativizar essas abordagens, minimizar, tratar como simples brincadeira ou paquera. O respeito tem que vir em primeiro lugar. As matérias sobre violência contra a mulher também chamam a minha atenção, especialmente por ser um assunto em pauta há tantos anos, e o nosso Estado é campeão nas estatísticas, sem horizonte de mudança. Triste!”- Emannuelly Segatto Valladares, CEF / Findes
“O M24H veio trazer um olhar mais humano e solidário entre as bancárias. Mostrou o compromisso do Sindicato com outras questões, além das salariais, com abordagem humanista, trouxe voz a tantas mulheres que nunca se manifestavam, contribuindo para a reflexão sobre o seu papel na família, no trabalho e na sociedade; e sobre a necessidade de união e organização para lutar contra preconceitos, desigualdades e violência. A minha experiência de vida e trabalho na Caixa sempre foi pautada pelo compromisso, amizade, respeito e defesa dos direitos humanos. Nesse sentido, houve uma grande afinidade com o M24H quando tive, inclusive, a honra de participar de seu lançamento. Posteriormente, tive a oportunidade de fazer parte da implementação de campanhas voltadas para os empregados da empresa e, uma em especial, no Dia Das Mães, cujo tema era “Toda Mãe tem mais de um coração batendo no peito”. Me fez pensar no coração da mulher, com seu poder de transformação, com toda sua complexidade e pluralidade, trazendo ao ambiente de trabalho relações mais ternas e respeitosas entre colegas e com clientes.” – Alice Martins, CEF / aposentada
“Ter um jornal voltado para mulheres no Sindicato é fundamental para a luta contra as desigualdades de gênero. Acesso à informação é sempre a melhor maneira para mostrar a uma minoria os direitos que ela tem. Uma reportagem que me marcou foi a respeito da aposentadoria para mulheres. Eu nunca entendi porque as mulheres se aposentam mais cedo. Na reportagem quebrei um tabu interno, entendendo que não atuamos apenas em nosso local de trabalho, mas que sempre trabalhamos mais do que os homens porque a atividade doméstica ainda é, para muitas mulheres, obrigação e, para os homens, uma opção, uma ‘ajuda’.” – Natália Vieira da Silva, Bradesco / Cariacica
“Sempre li o jornal, sou fã do M24H e das mulheres que estão no Sindicato lutando por nossos direitos. Isso nos fortalece. Durante muito tempo fomos minoria nos cargos de chefia; era difícil ter voz em reuniões. Hoje há mais mulheres, nossa gerente regional é mulher. Agora eu estou pedindo desligamento do banco, quero um trabalho com mais tranquilidade e cuidar do meu filho, que está só com quatro meses.” – Letícia Nascimento, Itaú / Reta da Penha
“Nosso Sindicato colocou-se mais uma vez na vanguarda ao criar, há 26 anos, um jornal com material específico sobre o empoderamento e a luta contra desigualdades sofridas pelas mulheres. Ocupou um espaço nas agências de valorização das bancárias e conscientização sobre as barreiras que o mercado de trabalho ainda impõe, em pleno século XXI. Lembro-me de dois temas tratados no jornal que me marcaram. Uma matéria, já tem uns três anos, que abordou a divisão sexual do trabalho. A outra, mais recente, falou sobre os avanços da luta das mulheres nos espaços sociais.” – Vanessa Vilarinho, CEF / Cachoeiro de Itapemirim








