Na quarta-feira, 27, aconteceu a terceira rodada de negociações da Campanha Nacional 2022 específica com a Caixa. A rodada teve como foco o adoecimento em massa dos bancários. Os representantes da Comissão Executiva dos Empregados (CEE-Caixa) enfatizaram que o atual modelo de gestão do banco é responsável pelo aumento do adoecimento dos trabalhadores. Em razão desse gravíssimo cenário, as propostas levadas à mesa pela Comissão estavam todas relacionadas à saúde do trabalhador.
“Sabemos que a raiz dos adoecimentos, sobretudo os mentais, está na questão das metas impostas por esse modelo de gestão adotado pela Caixa a partir da gestão do agora ex-presidente Pedro Guimarães”, afirma a diretora do Sindicato dos Bancários/ES e integrante da CEE Lizandre Borges, que acrescenta: “Por isso o Sindibancários/ES tem posição definida pelo fim das metas. Dito isso, no geral, podemos dizer que tivemos algumas perspectivas positivas relacionadas à saúde do trabalhador nas tratativas dessa quarta”, analisa a dirigente.
Retomada do GT
Um dos pontos defendidos pela CEE nessa rodada foi a retomada do GT Saúde do Trabalhador. Lizandre afirma que a suspensão do GT foi responsável direto pelo aumento dos adoecimentos na Caixa. A CEE reivindicou a volta do GT e informou à Caixa que o movimento sindical está disposto a colaborar com a reestruturação do grupo de trabalho. “As entidades sindicais e as associações de empregados podem compartilhar experiência e conhecimento sobre esse tema com o banco”. A dirigente recorda que quando houve um grande aumento dos casos de LER/Dort (Lesões por Esforço Repetitivo e Distúrbios Osteomusculares Relacionados ao Trabalho) na Caixa, a integração entre as entidades que representam os empregados e a instituição foi fundamental para a redução dos casos.
Os representantes da CEE pediram também a retomada dos programas de saúde do trabalhador, que foram suspensos desde que a pandemia foi decretada, em março de 2020. Os interlocutores da Caixa responderam que os programas já estão ativos novamente, o que causou surpresa aos integrantes da Comissão. “Programas como a ginástica laboral e a massagem terapêutica, por exemplo, são importantes para prevenir doenças como LER/Dort. Se realmente os programas foram retomados, solicitamos à Caixa para que faça uma ampla divulgação e nos informe para que possamos replicar as informações para a base”, enfatiza Lizandre.
Saúde mental
Atualmente, os programas de saúde do trabalhador, que a Caixa garante ter retomado, são direcionados apenas para doenças físicas. Outra reivindicação da CEE foi a criação de programas voltados para a saúde mental.
Durante a reunião, para sensibilizar os representantes da Caixa sobre a dimensão do problema, a CEE apresentou dados da pesquisa de Saúde da Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa (Fenae). De acordo com o estudo, o adoecimento mental é o principal motivo de afastamento dos trabalhadores da ativa. Depressão (33%), ansiedade (26%), síndrome de burnout (13%) e síndrome do pânico (11%), segundo a pesquisa, são as doenças que mais afetam os trabalhadores da Caixa hoje.
“É urgente que a Caixa ofereça programas específicos para a saúde mental, porque é essa hoje, infelizmente, a realidade do empregado e da empregada da instituição. É um trabalhador adoecido em função da cobrança desumana por metas. Não bastasse, estamos ainda estarrecidos e indignados com os recentes casos de assédio moral e sexual envolvendo o ex-presidente da Caixa Pedro Guimarães. O caso Guimarães tem trazido à tona uma avalanche de denúncias de assédio moral e sexual. Dentro desse ambiente tóxico, é quase impossível o trabalhador não adoecer”, adverte Lizandre.
As condições de saúde dos empregados da Caixa têm piorado de 2018 para cá, ocasião em que a Fenae realizou a primeira pesquisa sobre o tema. A pesquisa mais recente apontou que 66% já testemunharam assédio moral no trabalho; outros 56% já sofreram assédio moral; 62% sentem muita pressão no trabalho; 51% se dizem ansiosos no trabalho; 47% afirmam que o trabalho afeta negativamente a saúde; e 65% revelam conhecer colegas que estão passando por depressão, angústia ou pânico causados no ambiente de trabalho.
Ante a dados tão alarmantes, os representantes da Caixa justificaram que estão sendo realizadas ações para melhorar a qualidade de vida dos empregados. “Se de fato a Caixa já está desenvolvendo essas ações para reduzir as doenças do trabalhador, essas medidas têm sido insuficientes, porque o quadro vem se tornando mais agudo nos últimos anos”, observa a sindicalista.
Falta compromisso
A representante do Sindibancários na CEE diz que a Caixa precisa ter mais comprometimento com a saúde dos seus empregados. Lizandre cita como exemplo a negativa da Caixa em relação ao tempo de suplementação para os empregados afastados por doença pelo INSS. Hoje a Caixa mantém a suplementação da remuneração do trabalhador até por um ano. “Pedimos a extensão do prazo para o tempo em que durar a doença. Há muitos empregados com doenças graves, sobretudo as mentais, que necessitam ficar afastados por mais de um ano. Justamente quando o trabalhador está adoecido e mais vulnerável, a Caixa o desampara cortando a suplementação. O trabalhador passa a ter, além da doença em si, um problema financeiro”, critica Lizandre.
Segundo a dirigente, os interlocutores da Caixa afirmaram que a instituição não tem intenção de alterar a cláusula para estender os prazos de suplementação.
Outra proposta também refutada pela Caixa foi a volta das Gipes (Gestão de Pessoas) em todos os estados. Desde a gestão de Pedro Guimarães a Caixa substituiu as Gipes pelos Centros de Referência em Saúde do Trabalhador (Cerest). Segundo a dirigente do Sinidibancários, a Cerest funciona regionalizada. “A Gipes estava muito mais próxima do empregado de uma determinada base. Com a Cerest, o empregado perdeu a referência. O atendimento é muito impessoal. Essa mudança deixou o trabalhador mais vulnerável”, afrima Lizandre.
Apesar das justificativas apresentadas para a volta das Gipes em todas as bases, a Caixa se mostrou irredutível à demanda. Os representantes do banco público afirmaram que não vão alterar a atual estrutura administrativa da Cerest.
PcDs
Durante o debate sobre saúde do trabalhador, que se estendeu por mais de três horas, a CEE questionou a Caixa sobre as condições de trabalho da Pessoa com Deficiência (PCD). Segundo a Comissão, os mais de quatro mil trabalhadores enfrentam problemas que dificultam sua atuação. Na prática, explica Lizandre, os PcDs são direcionados sem critérios para ocupar suas posições de trabalho.
“Sabemos de caso de PcD cadeirante que foi enviado para uma agência para trabalhar na sobreloja. Detalhe, a agência não possui elevador. Situações como essa constrangem e expõem o empregado. Não é aceitável que o maior banco público da América Latina não tenha uma política efetiva modelada para os PcDs. Não basta empregá-los. A Caixa tem de criar as condições para que esses empregados e essas empregadas possam trabalhar com dignidade”, sublinha a dirigente.
A Caixa concordou em realizar uma mesa à parte, na próxima terça-feira, 2, para aprofundar o debate sobre as questões relacionadas aos PCDs.
Ficou acordado também com a Caixa, que nesta mesma mesa, também serão tratadas questões do Saúde Caixa. Lizandre esclarece que a discussão dessa mesa não será sobre o custeio do Saúde Caixa. “A discussão se refere à queda da qualidade no atendimento e os problemas que os usuários vêm enfrentando por causa do descredenciamento sistemático da rede. Nossa rede está muito ruim”, reclama a dirigente.
No balanço da mesa dessa quarta-feira, a representante do Sindibancário na CEE avalia que os representantes da Caixa foram irredutíveis com algumas propostas , mas, de outro lado, se mostraram mais abertos para discutir outros pontos. “Sabemos que à medida que as negociações avançam, as conversas vão ficando mais duras, a discussão vai se afunilando. É do processo de negociação. Mas, nós da CEE, notamos que há certa disposição dos interlocutores da Caixa em discutir algumas pautas. Vamos seguir entrincheirados na luta. Lembrando que as conquistas dependem do apoio e engajamento de todos e todas. Sem luta não há conquista”, finaliza a sindicalista.
Próximas reuniões de negociação
Terça-feira (2) – PCDs e Saúde Caixa
Quinta-feira (4) – Funcef







