Pedro Guimarães deixou a presidência da Caixa Econômica Federal no início de julho após virem à tona vários casos de assédio sexual e moral denunciados por empregadas do banco. Guimarães saiu, mas sua herança de abusos segue sendo replicada na instituição. Camila Aichinger, uma das principais aliadas de Pedro Guimarães, foi indicada para assumir a presidência da Caixa Corretora. Na corregedoria do banco há quatro denúncias de assédio moral contra a futura presidente da Corretora. As denúncias foram feitas no período em que Camila Aichinger esteve à frente da Caixa Seguridade, entre junho de 2021 e maio deste ano.
De acordo com reportagem publicada nesta terça-feira, 30, no jornal Folha de S. Paulo, Camila Aichinger teve uma carreira meteórica depois que Guimarães assumiu a Caixa em janeiro de 2019. Ela pulou de gerente regional no Paraná para uma vice-presidência da Caixa em menos de quatro anos. Camila acabou sendo sacada desse último posto logo após a saída de Guimarães e a entrada de Daniella Marques na presidência da instituição.
Guimarães ainda dá as cartas?
Para a diretora do Sindicato dos Bancários/ES Lizandre Borges, a indicação de uma pessoa sob investigação de assédio moral para assumir um cargo de grande relevância na instituição levanta a suspeição de que Guimarães ainda tem ingerência sobre a Caixa. “Faz cerca de dois meses que as graves denúncias contra Guimarães foram reveladas. Um escândalo que continua repercutindo dentro e fora da Caixa. Com os fatos ainda tão vivos e com a apuração em andamento, é uma temeridade para a imagem da instituição indicar outra pessoa com histórico de assédio para comandar uma presidência”, afirma a dirigente.
Segundo a reportagem, a Caixa não comentou sobre o andamento dos casos em investigação ou tampouco deu detalhes sobre o teor das denúncias envolvendo Camila. A instituição comunicou que “por imposição legal, não divulga informações relacionadas a procedimentos correcionais”. A iminente presidência da Caixa Corretora também não respondeu aos questionamentos da reportagem.
Xingamentos, gritos e humilhações
O jornal paulista, no entanto, teve acesso a duas das quatro denúncias e também conversou com outras duas pessoas sob condição de anonimato. Segundo a publicação, os quatro relatos contam histórias semelhantes de xingamentos, abusos verbais e humilhação em público.
“Não eram situações pontuais ou esporádicas. Era um comportamento constante de gritos, xingamentos e ameaças, por qualquer motivo”, afirma o relato de um denunciante. De acordo com os relatos, os gritos eram tão altos que era possível escutar o que era dito de fora da sala mesmo com a porta fechada.
Além do assédio sexual, o moral, lembra Lizandre, também era uma marca de Pedro Guimarães. “É lamentável saber que Guimarães fez o que fez e ainda deixou na Caixa essa cultura de violência. Por isso na campanha específica deste ano, logo na primeira rodada de negociações, exigimos da Caixa a apuração rigorosa das denúncias de assédio sexual envolvendo Guimarães e o combate efetivo a qualquer tipo de assédio na instituição”, pontua Lizandre, que também é integrante da Comissão Executiva de Empregados(CEE-Caixa).
A partir das denúncias, ainda segundo a reportagem da Folha, a corregedoria do banco vai decidir se abre um processo formal contra Camila Aichinger. A punição pode ir da simples advertência até a demissão e a responsabilização civil. Isso significa que qualquer multa que o banco receber por causa dos abusos é em seguida cobrada do ex-funcionário.
Ao longo da gestão de Guimarães, o salário mensal de Camila pulou de cerca de R$ 25 mil para mais de R$ 130 mil, somando os vencimentos na Caixa e as participações em pelo menos sete conselhos.
Caso Guimarães sob investigação
No final de julho, o Ministério Público do Trabalho (MPT) transformou a apuração das denúncias de assédio sexual contra Pedro Guimarães, em inquérito civil. Em sua decisão, o procurador Paulo Neto, determinou: “Considerando que os fatos narrados autorizam a tutela de direitos a cargo do Ministério Público do Trabalho, CONVERTA-SE a notícia de fato em inquérito civil”.
Com a decisão do MPT, as investigações contra Pedro Guimarães serão aprofundadas. O caso também é investigado pelo Ministério Público Federal.

