
Em 2011, ano de estréia de Casagrande no seu primeiro governo, manifestantes foram às ruas contra o reajuste da passagem de ônibus, e atos cresceram após repressão policial comandada por governador. Na foto, uma das manifestações em que a Praça do Pedágio da Terceira Ponte foi tomada por estudantes. (Foto Sérgio Cardoso)
O ano mal começou e a população da Grande Vitória foi surpreendida com o aumento abusivo das tarifas de ônibus do Sistema Transcol e dos ônibus municipais de Vitória e Vila Velha. Desde o último domingo, 13, para terem direito ao transporte coletivo, os trabalhadores têm que desembolsar R$ 3,75 por viagem, um aumento de 10,29%, bem acima da inflação que fechou em 4,19% em 2019.
Quem utiliza os ônibus de Vitória e Vila Velha sente um impacto ainda maior. Ao igualar os valores das tarifas com o Sistema Transcol, o reajuste foi de 11,9% em Vitória e de 17% em Vila Velha.
| Valores antigos | Diferença do reajuste | Diferença em percentual | |
| Sistema Transcol | R$ 3,40 | R$ 0,35 | 10,29% |
| Municipal Vitória | R$ 3,35 | R$ 0,40 | 11,9% |
| Municipal Vila Velha | R$ 3,20 | R$ 0,55 | 17% |
Segundo dados da auditoria contratada pela GVBus, uma das causas para o aumento da passagem é a redução de passageiros provocada pelo o alto índice de desemprego decorrente da crise econômica. Para o Sindicato, o aumento, no entanto, só agravaria a evasão de receitas.
“Ora, é no mínimo contraditório e absurdo que a passagem aumente porque as pessoas não têm condição para pagar. E isso pode virar uma bola de neve: se quem está desempregado não conseguia pagar o valor anterior, imagine agora com a passagem ainda mais cara. Consequentemente o número de passageiros irá cair ainda mais”, enfatiza o diretor do Sindibancários/ES, Alan Sauer.
Lucro?
As empresas também tentam justificar o reajuste com o aumento dos custos com a reposição salarial dos seus empregados, o valor do diesel e os gastos com a manutenção dos ônibus. Outro argumento é a manutenção há quatro anos do mesmo valor do subsídio do governo estadual para o Sistema Transcol, de R$ 0,60 centavos para cada passagem. A dívida do Estado com as empresas de ônibus seria de R$ 360 milhões.
No entanto, as empresas e governos, estadual e municipais, mantêm a sete chaves o valor do lucro dos empresários que têm concessão para explorar o setor de transporte público na Grande Vitória. Queda no lucro não é sinônimo de prejuízo e contas negativas. Afinal, qual o lucro dessas empresas?
Salário mínimo X aumento da passagem
Além de ser superior à inflação, o aumento da passagem também ficou bem acima do índice de reajuste do salário mínimo, que foi de apenas 4,61%. Com a nova tarifa de ônibus, o valor gasto por um trabalhador durante um mês com o transporte público será em média de R$ 195, o equivalente a cerca de 20% do salário mínimo, que é R$ 998.
“O principal financiador do transporte público é o trabalhador, que não tem voz sobre o preço da tarifa. E o que ele recebe em troca? Um transporte de qualidade duvidosa, sem nenhuma segurança e em condições desumanas e humilhantes. A maioria dos trabalhadores recebe um salário mínimo por mês e, com a crise, cresceu o número de trabalhadores informais. Essas pessoas são as mais penalizadas com esse aumento”, destaca Sauer.
Quanto custa seu direito de ir e vir?
Desde 2015, o transporte público passou a ser um direito social garantido na Constituição Federal e crucial para o acesso da população a outros direitos, como a saúde, o trabalho e o lazer: “Art. 6º São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição.”
“Como direito social, o transporte público não deve ser pautado meramente por questões técnicas, mas como responsabilidade política do poder público, que deve proporcionar à população um transporte público de qualidade, que garanta o acesso a todos os outros direitos, para que todos tenham direito à cidade. Afinal, quem financia esse sistema e sustenta as cidades são os trabalhadores e as trabalhadoras”, conclui Sauer.









