
Vista aérea parcial do parque. Área de 100 mil metros quadrados fica dentro do município, às margens da Rua Bernardino Monteiro (Reprodução)
No próximo dia 30 de junho, a partir das 18 horas, ativistas do Movimento Salve Parque e a população de Santa Teresa participam da segunda audiência pública envolvendo o Parque Ecológico Augusto Ruschi. Na audiência desta quinta-feira, que acontece no Auditório do Instituto Nacional da Mata Atlântica (INMA) – Museu Mello Leitão, os teresenses poderão finalmente se manifestar sobre o destino da área verde de 100 mil metros quadrados: se querem ganhar um parque municipal ou deixar o oásis ecológico se transformar em um mega complexo hoteleiro com 280 apartamentos, parque aquático, estacionamento para 2 mil veículos e centro de convenções para 1,5 mil pessoas – esse é o projeto que o Sesc planejou para o local.

Em maio, durante a audiência pública na Assembleia, Carmem destacou que não foi feita uma avaliação do impacto ambiental, social e econômico para a construção de um vultoso empreendimento hoteleiro no lugar do parque (Foto: Ales)
Na primeira audiência pública, em 12 de maio último, na Assembleia Legislativa, a Frente Parlamentar de Conservação da Biodiversidade Capixaba, pediu informações ao próprio Legislativo Estadual, ao governo do Estado e à prefeitura de Santa Teresa sobre o processo de doação da área pública para o Sesc (Serviço Social do Comércio).
A Frente Parlamentar comandada pelo deputado Fabrício Gandini, quando der início a audiência desta quinta, já deverá ter em mãos as informações que explicam o imbróglio sobre a doação da área pública à iniciativa privada. À frente do Movimento Salve o Parque, a ativista Carmem Barcellos adianta detalhes da história que deve ser contada aos teresenses na audiência. Mas antes de entender a polêmica envolvendo o parque é preciso saber por que uma bancária decidiu entrar na luta para evitar que uma área ambiental pública se transforme em um grande complexo hoteleiro.
Metas que adoecem

A bancária e ativista ambiental defende a anulação da doação e a devolução da área à população (Foto: Ales)
De acordo com dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), entre os anos de 2009 a 2018, mais de 56% dos afastamentos de bancários e bancárias foram reconhecidos como doença do trabalho, sendo as mais comuns: depressão, ansiedade e estresse. Desde 2013, os chamados transtornos mentais foram escalando ano a ano e hoje já superam as conhecidas lesões por esforço repetitivo e os distúrbios osteomusculares (LER/DORT).
No Banco do Brasil desde 2010, Carmem Barcellos acabou sendo vítima das doenças emocionais. “Em 2014, eu trabalhava na área de autoatendimento da agência Pio XII, setor que sempre teve uma alta demanda de trabalho. Mas naquele ano, a agência, pressionada a entregar metas cada vez mais inatingíveis, passou a realocar funcionários do autoatendimento para outras áreas, o que sobrecarregou ainda mais quem continuou ali”, relata. A bancária diz que quando se deu conta já estava doente. “Por causa da carga de trabalho excessiva, entrei num grave quadro de depressão. Passei a depender de medicamentos controlados. Entretanto, mesmo com os remédios e sob acompanhamento médico, não apresentava melhoras. Preocupada, minha mãe sugeriu que eu me mudasse para Santa Teresa para ficar perto dela. Ela queria ajudar na minha recuperação”.
No final de 2014, Carmem conseguiu uma transferência para a agência do BB, em Santa Teresa. “Só de mudar de ares, já notei uma melhora”. A forte presença dos biomas preservados de Mata Atlântica que cercam a cidade estimularam Carmem a buscar estabelecer uma relação com a natureza além da contemplação. O primeiro passo para enveredar com outro olhar neste mundo verde foi matricular-se no curso de Técnico de Meio Ambiente do Ifes. No curso, tomou conhecimento sobre o imbróglio envolvendo o Parque Ecológico Augusto Ruschi. “Queria entender melhor o que houve com o parque. Descobri que o processo de doação do parque para o Sesc fora irregular. Minha cabeça estava cheia de interrogações e eu queria encontrar as respostas”.
Doador idealizava o parque
Em 1967, Aurélio Gramlich doou uma fazenda localizada na entrada de Santa Teresa ao governo do Estado. A fazenda Caminho da Penha, de 100 mil metros quadrados (equivalente a 10 campos de futebol), narram os moradores mais antigos, sempre foi considerada uma das mais belas propriedades rurais de Santa Teresa. Amigo do naturalista mundialmente reconhecido Augusto Ruschi (1915 – 1986), Gramlich também queria deixar um legado ambiental aos teresenses.

Anayr, filha de Gramlich, ao lado de Carmem, visita a área doada pelo pai ao Estado (Foto: arquivo pessoal)
A filha do fazendeiro, Anayr Gramlich, que todos os dias levava leite na casa de Ruschi, confirma a amizade estreita que o pai mantinha com o naturalista. Ela também ratifica que o desejo do pai sempre foi garantir que a área se convertesse em um parque. O projeto também previa que a antiga fazenda abrigasse uma residência de veraneio do governo do Estado.
Em entrevista recente à imprensa, Anayr lamentou o destino que estão querendo dar à área. “Meu pai morreria de desgosto se visse isso. Não foi esse o acordo, a vontade dos homens da época, inclusive Ruschi. O acordo era que esse belo lugar fosse preservado para a posteridade, para ser a casa de veraneio do governador e patrimônio público”, declarou ao site Convergente News.
No apagar das luzes
O então governador Paulo Hartung, em 27 de dezembro de 2010, ou seja, a exatos cinco dias do final do seu segundo mandato, operou uma manobra na Assembleia e conseguiu, no apagar das luzes, aprovar a Lei nº 9.606. A lei autorizou o governo a doar a área de 100 mil metros quadrados ao Sesc. O então prefeito Gilson Amaro, morto em 2021, deu o aval da prefeitura para que a doação fosse consolidada.
Carmem afirma que a doação, do ponto de vista dos verdadeiros donos, o povo teresense, foi ilegal. “A Câmara não foi consultada ou tampouco a população. Não houve uma audiência pública para saber qual era a posição dos moradores de Santa Teresa sobre o destino da área. Estamos tendo oportunidade de fazer essa audiência agora, mais de duas décadas depois”, diz a ativista.

No curto período em que o parque ficou aberto ao público, estudantes faziam visitas monitoradas (Foto: Movimento Salve o Parque)
Hartung atropelou a legislação porque o governo do Estado havia cedido a área ao município em 2005 por um período de 25 anos. Para dar destinação correta à área, a prefeitura, com recursos do governo federal, investiu mais de R$ 1 milhão para construir um portal e uma guarita na entrada, um anfiteatro e estufas para espécies de plantas. Carmem conta que o parque chegou a ser aberto ao público em 2012, ou seja, dois anos após o governo doar a área ao Sesc, mas não chegou a funcionar plenamente.
No ano seguinte, Carmem diz que um grupo de ambientalistas entrou com uma ação popular na Justiça contestando a doação da área para o Sesc e pedindo a responsabilização criminal do ex-governador Paulo Hartung e do ex-prefeito Gilson Amaro. Em 2017, finalmente, a Justiça se manifestou. Em sua decisão, o juiz Alcemir dos Santos Pimentel não condenou Hartung e Amaro e manteve a doação para o Sesc. O magistrado permitiu ainda que o Sesc construa o empreendimento hoteleiro, desde que também mantenha o parque aberto à população. O processo segue em fase de recurso. Nem os ambientalistas aceitam a construção do hotel no local, nem o Sesc tem interesse de conciliar o empreendimento hoteleiro com um parque público.

Imagem do portal de entrada confirma que o Sesc negligencia a conservação do parque (Foto: Movimento Salve o Parque)
A ambientalista lembra que o Sesc, após receber a doação do parque, nunca teve interesse em preservá-lo. “Responsável pela área, o Sesc deixou que as melhorias como portal, guarita, estufas e o anfiteatro fossem se deteriorando. O Sesc não cumpriu a determinação judicial, que exige a abertura do parque ao público. Suponho que o Sesc tenha feito isso de caso pensado. Se a população passasse a usar o parque antes de o hotel ser construído, dificultaria a instalação futura do empreendimento. Ficaríamos acostumados a usar o parque e não aceitaríamos a construção do hotel. O Sesc deixou a área abandonada e colocou um caseiro no local para impedir o acesso da população ao parque”.
Carmem diz que, de maneira estratégica, para fora, até para não afrontar a decisão da Justiça, o Sesc afirma que aceita a proposta do juiz de manter o parque aberto à população. “Mas que parque o Sesc quer oferecer à população? Não queremos um parque urbano com um mega hotel. Queremos um parque natural”, pontua a militante.
Áreas verdes urbanas
Carmem destaca a importância de se garantir uma área verde dentro de Santa Teresa. “A população de Santa Teresa terá mais qualidade de vida com o Parque Temático Augusto Ruschi. Áreas verdes urbanas são uma tendência mundial. Temos muitas áreas verdes em volta de Santa Teresa, mas nenhuma dentro do município. Manter o parque significa garantir à população lazer, saúde e convívio social”, sublinha.
Além dos impactos ambientais negativos, Carmem afirma que a conversão da área do parque em complexo hoteleiro vai comprometer também a sustentabilidade comercial do município. Ela diz que algumas avaliações estimam que a área de 100 mil metros quadrados chegaria fácil a R$ 50 milhões. “É uma concorrência desigual doar uma valiosa área como essa ao bilionário Sistema S. O mega empreendimento irá pôr em risco a sustentabilidade dos hotéis e pousadas que servem hoje o município”.
Por tudo que está em jogo, Carmem destaca a importância dos moradores e das moradoras de Santa Teresa participarem em peso da audiência pública desta quinta-feira. “Vamos precisar de todos nessa luta. A população terá pela primeira vez a chance de se manifestar se concorda que a área de parque seja transformada em um complexo hoteleiro. A palavra, desta vez, está com os moradores de Santa Teresa”, ressalta a bancária-ambientalista.






