Defender o Banco do Brasil público, os direitos conquistados pelos trabalhadores, a Cassi para todos e sustentabilidade da Previ são prioridades da luta dos bancários e das bancárias do BB. Reunidos no encerramento do 32º Congresso Nacional da categoria, no último domingo, 08, os bancários aprovaram um plano de atuação para resistir às diversas tentativas de retirada de direitos e de destruição do BB como patrimônio dos brasileiros.
Dentre as ações previstas está a realização de seminários sobre a Caixa de Assistência dos funcionários (Cassi) e sobre previdência. “Apesar do congresso ter deixado a desejar no quesito interação, uma vez que não foi aberto o debate, foi muito importante a aprovação dessas ações e resoluções. Os funcionários precisam se envolver nos debates sobre a Cassi e a Previ, que estão sob ataque do governo Bolsonaro e ainda serão duramente afetados pelas resoluções 23 e 25 da CGPAR (Comissão Interministerial de Governança Corporativa e de Administração de Participações Societárias da União). Nesse sentido, os seminários serão importantes espaços para discutirmos a situação dos nossos planos de saúde e de previdência e para fortalecer a nossa luta”, destaca a diretora do Sindibancários/ES, Goretti Barone.
Unidade na defesa das empresas públicas
Os delegados representantes dos funcionários também aprovaram a unidade dos bancários na defesa do BB e dos demais bancos e empresas públicas, que estão sob ataque do governo Bolsonaro. A primeira ação que os bancários do BB são convocados a participarem é o Dia Nacional de Luta e Paralisações contra a PEC 32, no próximo dia 18, que ataca os direitos dos funcionários públicos e prejudica a oferta de serviços públicos à população brasileira.
Debates
Com o tema “Construindo juntos o futuro do Banco do Brasil”, o 32º CNFBB teve início na noite de sexta-feira, 06, com debate sobre a defesa dos bancos públicos em abertura conjunta com os congressos de bancários de outros bancos públicos, como a Caixa. Já no domingo, 08, os funcionários do BB participaram de três mesas de debates: “Retrato do Banco do Brasil nos últimos anos”; “O BB que queremos para o futuro do Brasil” e “Diversidade para construir um banco realmente do Brasil”.
Diversidade em debate
O jornalista, professor universitário e ex-deputado federal Jean Wyllys (PT-RJ) abriu a exposição da mesa sobre diversidade e destacou: “Espero que os funcionários do BB resistam a esse panorama de ataque às políticas de diversidade e inclusão de pessoas LGBT, indígenas e quilombolas. São setores afetados por coisas muito maiores, que envolvem disputas políticas e também de comunicação”.
O professor doutor José Vicente, fundador e reitor da Universidade Zumbi dos Palmares, fechou o debate e falou sobre racismo estrutural. “Permanece colocado a todos nós o desafio de superar essa agenda. Nós progredimos, saímos de um patamar no qual o tema não estava na agenda para colocá-lo na letra da Lei. As cotas e as políticas afirmativas estão dentro de uma lei. Agora, isso precisa efetivamente ser cumprido. Para fazer mudança a gente precisa estar junto na mesma direção. A mudança que necessitamos para um futuro muito breve é um ambiente corporativo, um ambiente empresarial, é uma sociedade em que as oportunidades sejam disponibilizadas de forma igualitária para todos aqueles que cumpram os requisitos estabelecidos e que se constitua num acesso que nem a cor e nem a raça sejam um elemento limitador e seja um elemento impeditivo, para a gente fazer com que a igualdade e a justiça se manifestem e se tornem uma rotina na gestão das empresas e da sociedade”, enfatizou.
O debate sobre diversidade também foi marcado pelos relatos de funcionárias do BB sobre a trajetória de vida e vínculos no quadro funcional do BB, como mulheres e negras. A funcionária aposentada do Banco do Brasil, Izabela Campos Alcântara Lemos, uma das primeiras diretoras mulheres do Banco falou sobre o início da implantação da política de diversidade no BB e os resultados que podem ser vistos ainda hoje.
“Participei de um momento muito importante e desafiador, que preparou o terreno para coisas que aconteceram posteriormente. Em 1987, não víamos mulheres como diretoras do banco. O que víamos eram mulheres em cargos administrativos, mais próximos aos trabalhos realizados nas agências”, lembrou.
No início de 2003, o banco nomeou a primeira mulher como diretora, a Rosa Said e, em 2004, Izabela Lemos foi nomeada como diretora. “Precisamos realizar um grande esforço para inserir a sustentabilidade nas práticas do banco, repensar o meio ambiente, os direitos humanos, já entrando na questão da diversidade, com compromissos assumidos em âmbito internacional. O banco aderiu ao programa de equidade de gênero do Governo Federal, e como o banco já estava inserido nesta questão, nos organizamos para a realização dos programas”, disse.
A trajetória do BB
A segunda mesa de debates do 27º Congresso Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil tratou do “Retrato do Banco do Brasil nos últimos anos”, com a participação do ex-gerente de Soluções do Banco do Brasil, de Jean Moreira Rodrigues, e da economista Nádia Vieira de Souza, do Departamento Intersindical e Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).
O ex-gerente de Soluções do Banco do Brasil, Jean Moreira Rodrigues, falou sobre as transformações na indústria financeira e como o desenvolvimento tecnológico afeta o setor. Jean destacou que como para acompanhar as mudanças os bancos investem muito em tecnologia e um dos efeitos é a redução do número de agências.
“Isso tem produzido impactos nas economias locais, mas também afeta o emprego bancário”, observou. Entre as décadas de 1930 e 1980, lembrou Jean, o Estado brasileiro promoveu o processo de industrialização com os bancos públicos e destacou as mudanças no BB que ocorreram a partir de 2016. “O banco nunca deixou de buscar a rentabilidade. Mas, até 2015, além do foco na rentabilidade, também tinha um foco muito grande no desenvolvimento do país. A partir de 2016, o governo Temer começou a fazer mudanças. O foco passou a ser mais a rentabilidade compatível com bancos privados. O Banco do Brasil deixa de ter papel de fomento da economia brasileira, que justifique a sua manutenção como uma empresa pública”, concluiu.
A economista do Departamento Intersindical e Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) apresentou dados do balanço do Banco do Brasil no 1º semestre de 2021 e destacou o fechamento de 6.956 postos de trabalho em um ano. Somente neste segundo trimestre, no escopo do Programa de Adequação de Quadros (PAQ) e do Programa de Desligamento Extraordinário (PDE), o banco reduziu seu quadro de pessoal em 2.358 funcionários.
“Esse foi um importante debate para compreendermos as mudanças pelas quais o BB passou e como hoje o banco e seus funcionários estão ameaçados por esse projeto privatista do governo Bolsonaro. Entender a conjuntura é importante para embasar nossas ações em defesa do BB público, a serviço do Brasil e que respeite os direitos dos seus funcionários”, enfatiza o bancário do BB Silas Venâncio, que representou os funcionários capixabas do BB no Congresso.
Em defesa do BB público
O terceiro painel do 32º CNFBB trouxe importantes reflexões sobre “O BB que queremos para o futuro do Brasil”. O ex-funcionário do Banco do Brasil e ex-dirigente sindical do Sindicato dos Bancários e Financiários de São Paulo, Osasco e Região, Carlos Augusto Vidotto, falou sobre as mudanças estruturais mundiais e sobre os impactos na realidade do trabalhador, como o “open banking”.
“Temos que defender a existência de uma agência bancária em cada município. Isso atende a demanda de diferentes segmentos da sociedade e de linhas políticas, nos dá a possibilidade de, se não determos o processo, podemos atenuar os efeitos da tecnologia sobre o fechamento de agência e de fechamento de postos de trabalho”, apontou Vidotto. Para ele, há ainda outras mediações importantes a serem pensadas na defesa do BB. “Ele tem que ser pensado no conjunto dos bancos públicos federais, como ferramentas do desenvolvimento, sob a orientação de uma dada política econômica”, propôs.
A última mesa de debate também teve a participação da conselheira de Administração do Banco do Brasil eleita pelos funcionários, Débora Fonseca, que destacou a exclusão do papel social do BB no governo Bolsonaro e o enfraquecimento das empresas públicas em prol de um projeto privatista. Débora também falou sobre a falta de direcionamento das inovações tecnológicas para a integração e melhoria do atendimento à população.
“As mudanças tecnológicas são irreversíveis. O que temos que discutir é um modelo em que a tecnologia esteja a favor dos funcionários e da sociedade, para atender as pessoas de forma mais humana, para crescer mais o banco. Não se deve colocar a tecnologia como substituto das pessoas”, afirmou a conselheira.
Juliana Donato, ex-conselheira de Administração do BB eleita pelos funcionários e membro da coordenação da Campanha Nacional Fora Bolsonaro, foi a terceira convidada da mesa e falou sobre o perfil autoritário do governo atual e a necessidade de unificação da categoria para derrotar o governo Bolsonaro.
O encerramento do debate contou com a participação de Sérgio Rosa, ex-presidente da Previ, que destacou a necessidade da participação e envolvimento dos funcionários e das funcionárias do BB na ações em defesa do BB público, colocado no centro do projeto de desenvolvimento nacional.
“Se não voltarmos a costurar uma proposta da necessidade de desenvolvimento do país, ficaremos limitados nesta ação de defesa do BB. Temos que levar esse discurso para setores que tenham sintonia com esse discurso para conseguir vencer esse discurso”, frisou Rosa.
Com informações da Contraf.

