Aberto nesta sexta-feira (22) em São Paulo, o Encontro Nacional dos Bancários e Bancárias do Itaú destacou o fechamento de postos de trabalho e agências, o adoecimento e os avanços tecnológicos como os principais problemas da categoria. Os bancários capixabas foram representados no Encontro pelos dirigentes do Sindicato dos Bancários/ES Carlos Pereira de Araújo (Carlão) e Marcelo Dalarmelina. 

Depois de um debate sobre a conjuntura política, a economista Catia Uehara, do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), apresentou um estudo técnico sobre os eixos em discussão, com destaque para os avanços da tecnologia e da Inteligência Artificial (IA) nas rotinas diárias do trabalho bancário. Catia apontou que o orçamento global em tecnologia dos bancos cresceu 35% entre 2018 e 2023. No Brasil, esse crescimento foi quase três vezes maior: 97%. O que confirma o interesse dos bancos brasileiros em avançar rapidamente nas inovações tecnológicas. 

A técnica do Dieese mostrou que os avanços tecnológicos reduziram o custo das operações, aumentando as margens de lucro dos bancos. O incremento da IA aumentou, por exemplo, em 74% a velocidade de execução das tarefas rotineiras. “Esse dado explica o adoecimento epidêmico da categoria bancária. O Itaú, na comparação com os outros gigantes do ramo financeiro, tem sido líder absoluto em lucratividade nos últimos anos”, afirma Marcelo Delarmelina, que também é integrante da Comissão de Organização dos Empregados (COE) do Itaú . O dirigente diz que de 2014 a 2024 o lucro médio do Itaú se manteve na casa dos R$ 35 bilhões. “Somente no primeiro semestre deste ano o banco já lucrou mais de R$ 22 bilhões. É recorde em cima de recorde. Os resultados ascendentes confirmam que as inovações tecnológicas têm sido uma aliada do banco, mas uma inimiga do bancário, que está ainda mais pressionada pelas metas”, sublinha Marcelo. 

O coordenador-geral do Sindicato dos Bancários acrescenta que o adoecimento em massa dos bancários do Itaú está diretamente relacionado à cobrança de metas. “A introdução da IA tornou o trabalho ainda mais intenso. Hoje, com a IA, o bancário do Itaú precisa apenas de um clique para acessar o perfil do cliente. Ele é obrigado, a partir desses dados, a oferecer o produto que mais combina com o perfil do cliente. O bancário tem poucos minutos para convencê-lo a comprar o produto. Se por algum motivo a venda não for concretizada, a IA vai avaliar o bancário. Na prática, o bancário está submetido à máquina, que agora também fiscaliza e avalia o trabalho humano”, criticou Carlão. 

Fechamento de postos de trabalho e agências
Segundo o estudo do Dieese, em 2024 o montante de transações bancárias superou 200 bilhões no país, crescimento de 8% em comparação a 2023. O destaque são as operações via celular (mobile banking). Foram 155 milhões de transações somente por esse canal. Ao mesmo tempo em que cresce o número de transações, os grandes bancos vêm fechando postos de trabalho e agências. “Para se ter uma ideia, em março de 2011 o Itaú chegou a ter mais de 104 mil empregados. Em junho deste ano eram pouco mais de 85 mil. Estamos falando de um corte de mais de 18 mil empregados”, exclamou Marcelo, citando os dados do Dieese. 

Se de um lado as demissões em geral escalam no Itaú, a área de Tecnologia da Informação (TI) se mantém blindada dos cortes e segue em franca expansão. O Dieese aponta que hoje 20% dos bancários do Itaú estão na área de TI. Catia Uehara chamou a atenção para a mudança de perfil do trabalhador bancário, com crescimento de 12,5% na área de tecnologia e a redução de 2,2% no quadro geral no Itaú-Brasil em relação ao mesmo período do ano anterior (quarto trimestre de 2024). 

O fechamento de agências é a outra face da reestruturação dos bancos. Em junho de 2014 o Itaú tinha 4.145 agências no Brasil. Em junho do ano passado apenas 2.114 estavam em funcionamento. Nesse intervalo de 11 anos foram fechadas 2.031 agências. Catia aponta que somente no segundo trimestre deste ano o Itaú fechou 63 agências. Ela alertou que os outros grandes bancos privados fecharam mais agências. No mesmo período, o Bradesco fechou 116 agências e o Santander 159. 

Adoecimento
O modelo de negócio adotado pelo Itaú e replicado pelos concorrentes, advertiu Marcelo, tem como único propósito o aumento das margens de lucro. “O inovações tecnológicas com o incremento da IA está tornando o trabalho ainda mais intenso e adoecedor. Não é por acaso que os bancários estão entre as categorias com os maiores índices de adoecimento do país. O Itaú não pode ignorar o problema da saúde do bancário”, ressalta Marcelo. 

Carlão completa: “Embora não seja um ano de campanha salarial, o Encontro Nacional foi importante porque trouxe para o debate questões urgentes que não podemos esperar para discutir na campanha de 2026. As inovações tecnológicas estão acontecendo na velocidade da luz. Essas mudanças, como demonstraram os dados do Dieese, têm impactos diretos na saúde do bancário. Vamos levar os pontos que discutimos aqui para a mesa de negociação e buscar soluções para proteger o emprego e a saúde do bancário. Precisamos lutar por um modelo de trabalho que não seja adoecedor. A vida vale mais que o lucro e o Itaú precisa entender isso de uma vez por todas”, afirmou Carlão.