Os bancários e bancárias do Rio de Janeiro e Espírito Santo, reunidos na 26ª Conferência Interestadual dos Trabalhadores do Ramo Financeiro neste sábado, 18, no SESC de Guarapari/ES, definiram levar para a 26ª Conferência Nacional dos Bancários, de 7 a 9 de junho, em São Paulo, todas as reivindicações apresentadas pelos sindicatos filiados à Fetraf RJ/ES. Dentre as reivindicações estão temas da área de saúde e a valorização do trabalho bancário, com mais contratações, a reposição da inflação do período e um aumento real de 10% e aumento dos percentuais de participação nos lucros e resultados (PLR) de acordo com produtividade e lucratividade do sistema financeiro, com pagamento linear da PLR.
A pauta da saúde inclui o fim das metas, a jornada de quatro dias semanais como forma de dar qualidade de vida aos trabalhadores, melhores condições de trabalho nos locais de trabalho e em home office, dentre outros pontos. Outras reivindicações e eixos de lutas aprovados na conferência são: promoção de igualdade de oportunidades; defesa da jornada de 6 horas; defesa do emprego bancário; mais segurança nos bancos; a defesa dos bancos públicos; construção do ramo financeiro; isonomia salarial entre homens e mulheres; respeito à identidade visual/cultural; isonomia de tratamento para homoafetivos; ausência do trabalho em período menstrual; combate ao assédio moral e sexual no trabalho; proteção à empregada gestante e lactante em caso de trabalho insalubre ou perigoso e garantia de proteção às mulheres vítimas de violência doméstica com possibilidade de trabalho à distância mediante solicitação expressa pela bancária.
Conferência
A 26ª Conferência teve a participação de 180 delegados representando as bases sindicais do Espírito Santo, Angra dos Reis, Baixada Fluminense, Itaperuna, Macaé, Nova Friburgo e Três Rios.
A mesa de abertura foi composta por Nilton Damião, presidente da Federação dos Bancários do Rio de Janeiro e Espírito Santo (Fetraf RJ/ES); Claudio Vieira, secretário-geral da Fetraf RJ/ES e Rita Lima, coordenadora-geral do Sindicato dos Bancários/ES. Em seguida houve saudação aos presentes por Gustavo Tabatinga, representando a Contraf/CUT; Elizabeth Paradela, falando pela CUT e Carlos Pereira Araújo (Carlão), pela Intersindical.
“É importante levarmos para a Conferência Nacional as reivindicações da categoria. O fechamento de agências e as demissões têm provocado o adoecimento dos trabalhadores bancários, que estão sobrecarregados pela falta de funcionários e pressionados para cumprir metas”, falou Damião.
Rita Lima afirmou receber com alegria a conferência no Espírito Santo onze anos após o último evento realizado no estado. Ela destacou a importância de fortalecer a representatividade do Rio e Espírito Santo na construção da minuta geral. A coordenadora-geral do Sindicato lembrou que a conferência acontece num momento difícil no Brasil. “O rentismo e a especulação continuam prevalecendo independente da miséria do povo. O que vamos fazer para que o presidente tenha lastro popular para abrir caminho em favor dos nossos direitos? Temos responsabilidade como categoria e classe trabalhadora. O espaço da conferência é importante para que possamos fazer bons debates e nos fortalecermos para a luta”, afirmou.
Integrante do Comando Nacional e representante da Intersindical, Carlão afirmou: “Na Conferência Nacional é importante a categoria bancária colocar nos eixos políticos a luta pela redução dos juros, pela saída de Campos Neto [do Banco Central], que sabota políticas do governo com juros alto; apoiar a luta camponesa e dos quilombolas. O desafio enquanto central da classe trabalhadora é unificar as lutas para fazer enfrentamento de massa, para enfrentar o capital, lutar pelas políticas públicas e discutir o papel do sistema financeiro”, afirmou.
Debates
A economista do Dieese Cátia Uehara, que falou na primeira mesa da conferência, mostrou em números o cenário de endividamento das famílias, juros altos, redução do emprego bancário e precarização do emprego no ramo financeiro. Segundo ela, a pandemia da covid-19 gerou ambiente propício para que as instituições financeiras dobrassem a aposta na reestruturação, a fim de reduzir custos e retomar a rentabilidade pré-pandemia.
Essa reestruturação aponta uma maior utilização de tecnologias, redução e externalização do atendimento físico com fechamento de agências e postos de trabalho internos, ao mesmo tempo que ampliam-se estruturas externas de atendimento, como correspondentes ou fintechs. Há um aumento do emprego no ramo financeiro não bancário, inclusive em segmentos não assalariados, como pessoas jurídicas e microempreendedores individuais (MEI).
Para Fabiana Proscholdt, conselheira de Administração da Caixa eleita pelos empregados, nesse contexto, a defesa das estatais é importante, pois significa o investimento na nação e o controle da concorrência. “Nosso papel é discutir o sistema financeiro que sangra a sociedade. O que nós defendemos é um sistema que dá subsídios para uma sociedade melhor. Temos que ter pessoas na alta administração [dos bancos] para mudar o atual viés. Defender as estatais, fora a questão do emprego, é defender o patrimônio que nós construímos ao longo do tempo”, afirmou.
Ela citou o exemplo da Caixa, reafirmando a posição contrária do movimento contra a transferência das loterias para uma subsidiária. Na sua avaliação, essa medida enfraquece a empresa, pois os investimentos em tecnologia e pessoal não irão mais para a empresa-mãe. Além disso, a subsidiária pode ser privatizada “numa canetada”. Ela também citou o prejuízo para a sociedade, dado que parte do que é arrecadado (cerca de 40%) vai para políticas públicas do governo.
Saúde
A Conferência também contou com a participação dos professores do Departamento de Psicologia Social e do Desenvolvimento da Universidade Federal do Espírito Santo Roberta Belizário e Thiago Drumond. Eles atuam na área de saúde do trabalhador e integram a equipe que está desenvolvendo a pesquisa Nossa Saúde Importa, sobre saúde mental dos bancários do Espírito Santo.
Belizário falou dos sentidos social, psicológico e subjetivo da atividade de trabalho e como, no mundo contemporâneo, o processo de trabalho tem se tornado motivo de adoecimento. “O trabalho implica numa relação de criação, mas a relação que vem se estabelecendo com o trabalho vem se modificando, com intensa subordinação e alienação”, afirma. Ao se transformar em algo operacional, vira atividade a ser cumprida sem relação com aquilo que importa aos trabalhadores, perdendo o sentido. A partir daí o indivíduo vai perdendo o sentido do trabalho, abrindo caminho para o sofrimento psíquico.
Drumond apresentou alguns dados preliminares da pesquisa Nossa Saúde Importa, que está sendo desenvolvida pelo Sindicato em parceria com a Ufes. Segundo ele, quase 40% dos respondentes já foram trabalhar com atestado médico, 68% fazem tratamento psicológico ou psiquiátrico, mais de 30% usam medicamento psiquiátrico. “É uma população bastante afetada sob o ponto de vista da saúde mental”. Ansiedade em nível grave, depressão e estresse são os males mais citados.
O professor destacou que as ferramentas institucionais de gestão desenvolvidas ao longo dos anos fazem o trabalhador internalizar a “submissão voluntária”, de forma que o trabalhador fique disponível para esse tipo de gestão, “dormindo e acordando pensando no trabalho”.
Para a professora Belizário, o grande desafio é pensar como o trabalho pode voltar a fazer sentido e tornar-se significativo para o trabalhador. “O trabalho é possibilidade de saúde. É preciso produzir uma ética do coletivo, ter sensibilidade ao sentimento do outro, compreender que é [sofrimento] de toda uma categoria, que é um sintoma coletivo, não ignorar o adoecimento e não normalizá-lo”, afirmou.
Delegação
Ao final da conferência foram eleitos os delegados para a Conferência Nacional. Confira.
- Ayres Carlos Alves de Oliveira (Andra dos Reis)
- Pedro Batista (Baixada Fluminense)
- Renata Soeiro (Baixada Fluminense)
- Solange Viana (Baixada Fluminense)
- Ricardo Sá (Baixada Fluminense)
- Rita Lima (ES)
- Ronan Vieira (ES)
- Bethania Emerick (ES)
- Igor Chagas Silva (ES)
- Vanessa Espindula (ES)
- Marcelo Giacomin (ES)
- Fabrício Passos Coelho (ES)
- Cláudio Merçon (ES)
- Priscilla Gomes Pereira (ES)
- Carlos Pereira de Araújo (ES)
- Hudson José Lpes Bretas (Itaperuna)
- Paulo Alves Júnior (Macaé)
- José renato Riscado de Carvalho (Macaé)
- Luiz Gabriel Almeida Velloso (Nova Frigurgo)
- Marcos Vinícius da Silva Oliveira (Três Rios)
- Nilton Damião Esperança (Três Rios)
Fotos: Sérgio Cardoso









