Bancários negros ganham 24% menos do que brancos e ocupam apenas 1/4 das vagas nos bancos

23/11/2022 08:56

O estudo Dieese, com base na RAIS (2019), aponta que trabalhadores e trabalhadoras negras, em sua maioria, ocupam cargos operacionais. Quando se compara os salários médios de brancos com os de bancários negras, o fosso da desigualdade racial e de gênero é ainda mais profundo: 59%

O racismo estrutural está nas entranhas do sistema financeiro brasileiro. Com base nos dados da RAIS (Relação Anual de Informações Sociais) e do Ministério do Trabalho da Previdência Social (2019), o Departamento Intersindical de Análise Estatística e Estudos Econômicas (Dieese) apontou que o bancário negro, em média, ganha 24% menos do que o branco. Quando se compara o salário médio dos brancos com o das bancárias negras, esse degrau é ainda mais acentuado, chegando a impressionantes 59%. Nos cinco maiores bancos do país (Itaú, Santander, Bradesco, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal), os bancários e as bancárias negras representam apenas 26% dos trabalhadores (Confira tabela abaixo. Dados de 2021).

“Da Constituição de 1988 para cá, a chamada Constituição Cidadã, a igualdade racial, lamentavelmente, avançou a passos lentos no mercado de trabalho. Não bastasse essa morosidade, os dois anos do golpista Michel Temer e os quatro de Bolsonaro resultaram em mais retrocessos para a classe trabalhadora. As reformas trabalhista e previdenciária são dois exemplos do desmonte dos direitos trabalhistas, sem contar a avalanche de medidas provisórias, que retiraram direitos e garantias dos trabalhadores. Se para o trabalhador em geral houve perdas, elas se tornaram ainda mais agudas para negros e negras”, afirma a coordenadora-geral do Sindicato dos Bancários/ES, Rita Lima.

Dados com recortes raciais fornecidos pelo Santander (2021) apontam que as vagas ocupadas por trabalhadores e trabalhadoras negras se concentram em cargos operacionais. Embora o Santander garanta que a diversidade é um dos cincos princípios do Código de Conduta Ética do banco, 93,2% dos cargos de direção são ocupados por funcionários brancos contra 3,6% de negros.

Segundo os dados de sustentabilidade do Itaú, 25,6% dos trabalhadores se autodeclaram negros, mas apenas 15,4% ocupam cargos de gestão. “Os dados fornecidos pelos próprios bancos são incontestáveis. O racismo estrutural faz parte do sistema capitalista, que segue reproduzindo a cultura escravocrata que perdurou aqui por mais de 350 anos . Esse racismo é ainda mais assustador quando recortamos os dados das bancárias negras”, adverte Rita Lima. A dirigente afirma que o combate ao racismo deveria partir dos bancos públicos, que têm a obrigação de abrir concursos que contemplem as cotas raciais.

“Além dos concursos com cotas, o racismo precisa ser combatido nas estruturas dos bancos e do sistema financeiros em geral. Não podemos aceitar que trabalhadores negros, sobretudo as mulheres, ganhem menos que os brancos e não recebam as mesmas oportunidades para ascender nas carreiras. O combate ao racismo deve ser uma pauta urgente e permanente dos movimentos sindicais”, assinala a dirigente.

Entre os cinco maiores bancos que atuam no país, apenas Itaú e Santander divulgam os dados de sustentabilidade com recorte racial. Os demais omitem esses dados. “A transparência e o acesso à informação são pilares da democracia e deveriam fazer parte dos valores de gestão de qualquer empresa decente. Como não poderia ser diferente num governo que decreta sigilo de 100 anos sobre informações de interesse público, o governo Bolsonaro segue na contramão da transparência e não abre os dados de sustentabilidade com recorte racial da Caixa e do Banco do Brasil, justamente os dois bancos públicos que deveriam dar o exemplo. Mas deste governo de orientação fascista não podemos esperar outra postura. Vamos cobrar do próximo governo o acesso aos dados para termos uma dimensão do racismo nesses dois bancos públicos”, diz Rita Lima.

Negros no mercado de trabalho
Outro levantamento do Dieese analisou a participação da população negra no mercado de trabalho. Dados do 2º trimestre de 2022 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), do IBGE, revelam que a população negra corresponde a 55,8% dos brasileiros. Em números absolutos, de 99,2 milhões de ocupados no Brasil, 53,3 milhões são negros e 44,9 milhões não negros. Mulheres negras representam 21,9 milhões e as brancas 20,1 milhões. Homens negros são 31,3 milhões ante 24,8 milhões de brancos. Os negros prevalecem (de acordo com o padrão do IBGE, que incluem pretos e pardos) porque são maioria da população: 55,8%.

Os dados nacionais apontam, reprodizindo a realidade dos bancos, que os trabalhadores negros são minoria nos cargos de direção e gerência. Homens não negros ocupam, em média, 5,1% desses cargos contra 1,7% dos negros. A discrepância se repete entre as mulheres. A não negras são 4,6% nesses cargos de direção e as negras 2,2%.

No recorte salarial a desigualdade se repete. Trabalhadores negros ganham em média R$ 1.893 contra R$ 3.077 de homens não negros. As trabalhadoras não negras recebem em média R$ 2.419 ante R$ 1.680 das negras.

Espírito Santo
Segundo a Pnad Contínua, a população negra no Espírito Santo representa 63,6%, superando em quase 10 pontos percentuais a média nacional (55,8%). Nos recortes que consideram ocupação de cargos de direção e salários, a Região Sudeste reproduz as desigualdades nacionais entre negros e não negros.

Os dados sobre trabalho desprotegido (trabalhadores que não têm carteira assinada) apontam que o Espírito Santo detém os piores índices em comparação aos três estados do Sudeste: Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. As trabalhadoras negras capixabas, por exemplo, em trabalho desprotegido, são 43%. Em São Paulo esse índice é de 36,4%. Na comparação entre trabalhadores negros capixabas e paulistas, esses índices são, respectivamente, de 41,1% e 33,8% (veja tabela abaixo).

Com informações do Dieese e Bancários SP