Bancos mantêm proposta rebaixada e negociação vira a noite sem acordo

31/08/2024 11:54

A Fenaban recorreu à estratégia de tentar vencer pelo cansaço, pausando e retomando as negociações madrugada adentro. Não funcionou, o Comando recusou novamente a proposta. As negociações serão retomadas neste sábado (31)

A negociação entre a Federação Nacional dos Bancos (Fenaban) e o Comando Nacional dos Bancários para a renovação da Convenção Coletiva de Trabalho (CCT) começou na sexta-feira (30) e atravessou a madrugada deste sábado (31) sem acordo. Os bancos mantiveram a proposta rebaixada e ouviram novamente um não da representação dos trabalhadores. A estratégia dos bancos, segundo Lizandre Borges, dirigente do Sindicato dos Bancários/ES que está na mesa de negociações, era tentar vencer pelo cansaço, retomando e pausando a reunião seguidamente noite adentro. “A Fenaban intensificou a pressão na mesa buscando a assinatura do acordo, usando a data limite de validade da atual CCT que, em tese, vence hoje”, afirma. As negociações devem ser retomadas neste sábado a qualquer momento. As reuniões que aconteciam em um hotel, foram transferidas para a sede do Sindicato dos Bancários de São Paulo. As negociações específicas do Banco do Brasil e da Caixa também serão retomadas neste sábado.

Mais uma proposta rebaixada
Como ocorreu ao longo desta semana de negociações, os bancos se recusam a dar um reajuste real acima da inflação – os bancários reivindicam ganho real de 5% acima do INPC. Ao contrário, abriram a rodada no início da semana oferecendo 90% do INPC, ou seja, até a reposição da inflação, que é obrigação, estava sendo negada. 

A proposta apresentada nesta madrugada, que a Fenaban trata como definitiva, prevê reajuste de 4,15%, que representa correção do INPC mais aumento real ínfimo de 0,23% para todos em 2024, sem divisão da categoria por faixas salariais, como propuseram anteriormente. Para 2025, o reajuste seria de 0,30%. A proposta rebaixada dos bancos não inclui o reajuste dos vales refeição/alimentação (VA, VR) e PLR, que teriam apenas a reposição da inflação, ou seja, sem aumento real.

De acordo com levantamento do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a proposta dos bancos se iguala às piores entre os 9.604 setores que firmaram acordos ou convenções neste ano. Além disso, mais de 85% das categorias tiveram aumento real médio de 1,54%, enquanto os bancos querem impor aumento real de 0,23%. “A proposta econômica rebaixada da Fenaban é incoerente com o lucro extraordinário dos bancos nos últimos anos. O lucro escala sem limites, arrochando metas e aumentando o contingente de trabalhadores adoecidos, sobretudo acometidos por doenças mentais”, assinala Lizandre. Só em 2023 os bancos lucraram R$ 145 bilhões. 

A dirigente acrescenta que para além do impasse nas cláusulas econômicas, as negociações também seguem represadas em outros pontos da pauta. “Com relação à saúde, uma das pautas centrais, não recebemos nenhuma resposta efetiva, tampouco os bancos aceitaram firmar qualquer compromisso para enfrentar o adoecimento epidêmico da categoria. Não andaram também as tratativas para conter o processo de precarização da categoria, que está sendo desmontada com a pejotização e a terceirização em vários modelos. Esse processo de reestruturação que ocorre em todos os bancos quer apagar a identidade do bancário e criar uma outra categoria precarizada. Questões como essa que são importantíssimas para o futuro da categoria bancária não avançaram na mesa”, critica Lizandre. 

Próximos passos
O Sindicato dos Bancários/ES avalia que o Comando não deveria assinar em nenhuma hipótese uma proposta que rebaixa direitos. Carlos Pereira de Araújo (Carlão), dirigente do Sindicato e integrante do Comando, diz que a data limite [31/08] não pode ser interpretada pela categoria como uma instrumento de pressão para a assinatura de um acordo globalmente muito ruim.

“A nossa posição é que os sindicatos e as federações se reúnam na próxima segunda-feira [02] para avaliar a proposta dos bancos e definir os próximos passos da campanha. Estamos também às vésperas das assembleias [marcadas para esta quarta, 04]. Teremos a oportunidade de fazer essa mesma avaliação com a categoria e definir os rumos da campanha. Vamos ouvir a categoria, que é soberana. Temos que enfatizar às bancárias e aos bancários que a greve tem de ser sempre uma alternativa a se considerar quando as negociações não avançam na mesa. Pela posição da Fenaban até aqui, os bancos parecem não estar dispostos a negociar para chegar a uma proposta digna, que respeite e valorize a categoria. Reafirmo, não devemos fechar posição de forma açodada, pressionados pela data limite para assinatura do acordo”, enfatiza Carlão. 

Estado de greve
Durante toda a semana, a categoria em todo o país vem intensificando ações nas ruas e nas redes sociais para pressionar os bancos. Na última segunda (26), os bancários da base capixaba se reuniram em assembleia para avaliar as negociações com a Fenaban. A categoria no Espírito Santo aprovou o estado de greve. Isso significa que a partir de agora, a qualquer momento, a categoria está pronta para deflagrar uma greve geral.

Os bancários capixabas aprovaram também a estratégia de venda zero. A orientação é suspender a venda de todos os produtos bancários até que a Fenaban apresente uma proposta que valorize a categoria. Outro encaminhamento da assembleia foi cobrar do Comando Nacional um calendário com indicativo de greve nacional para a categoria.