É notório que a pandemia escancarou as desigualdades socioeconômicas no Brasil. Umas das maneiras de comprovar essa desigualdade é seguindo o rastro do dinheiro que sai das instituições financeiras em forma de crédito. Um estudo do Dieese (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos) sobre o desempenho dos cinco maiores bancos em 2020 (Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e Caixa Econômica) apontou, entre outras análises, o caminho do crédito no país em meio à mais grave crise sanitária dos últimos cem anos.

Logo no início da pandemia, ainda em março de 2020, o Conselho Monetário Nacional (CMN) e o Banco Central (BC) foram incumbidos pelo Governo Bolsonaro – indiferente com as vidas mais preocupado com a economia – de lançar medidas que garantissem a liquidez do sistema financeiro e do mercado de dívidas de empresas. A injeção de liquidez foi de R$ 1,2 trilhão. Segundo o BC, o maior valor da história. A injeção de R$ 1,2 trilhão, somadas a outras medidas do BC, chegou ao montante impressionante de R$ 2 trilhões.

Elite serve a elite

No calor do anúncio, recorda a coordenadora-geral do Sindicato dos Bancários/ES, Rita Lima, a promessa do BC era de que os bancos (públicos e privados) se comprometeriam a irrigar indiscriminadamente todos os setores da economia, mas não foi isso que aconteceu na prática.

“Analisando os dados de 2020, com base no estudo do Dieese, o rastro do dinheiro mostra que os maiores bancos privados, que tiveram acesso à maior fatia desse bolo trilionário, concederam crédito seletivamente, ou seja, emprestaram para as grandes empresas, com faturamento anual acima de R$ 500 milhões, porque uma questão bastante óbvio: emprestando para os grandes, em tese, o risco seria menor. A elite financeira serve a elite empresarial”, critica.

Ela acrescenta que o mesmo filtro elitista foi aplicado para conceder crédito às pessoas físicas. “Resultado, os setores mais frágeis da economia, as micro e pequenas empresas, assim como os autônomos e a população mais vulnerável, foram excluídos pelos grandes bancos. Justamente quem mais precisava, se fosse depender exclusivamente do crédito dos bancos privados, ficaria à míngua”.

Rita Lima afirma que, graças aos bancos públicos, o crédito chegou a esses segmentos mais vulneráveis da economia. “Com mais de 14 milhões de desempregados, quase 20 milhões de brasileiros e brasileiras na miséria, sem têm ter o que comer, sabemos muito bem a extensão desta crise econômica, resultado desta política necroliberal imposta por Bolsonaro e Guedes. Mas temos que lembrar que a situação estaria muito pior se os bancos públicos não existissem para socorrer os mais vulneráveis. Os números confirmam que os bancos públicos assumiram o risco de levar crédito a esses segmentos excluídos pelas elites financeiras”.

O estudo do Dieese observou-se que, entre março e dezembro de 2020, segundo o relatório do BC, houve aumento do crédito para pessoas jurídicas em diversos segmentos. O volume de novas contratações atingiu o montante de pouco mais de R$ 2,0 trilhões e as renovações totalizaram R$ 556,7 bilhões. A tabela abaixo mostra o rastro do dinheiro, que fiocu concentrado no andar de cima da pirâmide.

A tabela a seguir aponta que grande parte dessas operações (mais de 65% dos recursos das novas contratações e 86% das renovações) ocorreu nos grandes bancos (Segmento S1). Observando a distribuição do crédito por segmento, 37,9% das novas contratações e 27,6% das renovações foram no segmento Corporate (empresas com faturamento anual acima de R$ 500 milhões), sendo que a maior parte desses recursos se concentrou nos bancos privados. No segmento Pessoa Física (PF), 35,4% das novas contratações e 65,3% das renovações concentraram-se nos bancos públicos, ao contrário do anterior.

A dirigente diz que os dados levantados pelo Dieese são inequívocos. Segundo ela, os bancos privados não têm compromisso social algum com a população, mas estão apenas preocupados em aumentar seus lucros e distribuir dividendos para seus acionistas.

“É muito importante que a população olhe atentamente para esses dados e entenda a seletividade do crédito, perceba que sem os bancos públicos haveria a exclusão de setores inteiros da cadeia econômica, sobretudo os mais frágeis. De outro lado, os segmentos mais vulneráveis da população não teriam acesso ao crédito. Por isso seria estratégico em um país com desigualdades sociais tão gritantes, a estatização do crédito. Especialmente em épocas de crise, como a que estamos atravessando agora. Nesses momentos caóticos, os bancos públicos devem assumir o papel de credores para evitar a recessão e garantir o desenvolvimento econômico e o consumo, sobretudo dos gêneros de primeira necessidade, como alimentos”, assinala Rita Lima.

Caixa sob ataque

Desde o início da pandemia, a Caixa vem mostrando ao povo brasileiro a importância de um banco 100% público, que tem a responsabilidade social como propósito prioritário. Apesar do toda trabalho que já fez e continua fazendo para mitigar os efeitos das crises sanitária e econômica, a Caixa está sob ataque cruzado do Governo Bolsonaro. Agora em abril a direção do banco consumou a oferta pública de ações da Caixa Seguridade, pavimentando o “atalho” para vender a empresa pública em fatias, sem passar pelo Congresso Nacional. “Ao privatizar os principais ativos, a Caixa perde sua capacidade de financiar programas como habitação, saneamento, educação, entre outros”, adverte Rita Lima.

Mesmo sob ataque da política ultraliberal de Bolsonaro e Guedes, afirma Rita Lima, a Caixa vem mostrando por que é imprescindível para a população brasileira. Ela lembra que em 2020 a Caixa pagou o auxílio emergencial a quase 70 milhões e bancarizou cerca de 100 milhões de pessoas, que passaram a ter conta digital para receber o auxílio emergencial.

Cara a cara com a covid e sem vacina

A dirigente destaca que os empregados e as empregadas da Caixa, nestes quase 15 meses de pandemia, seguem na linha de frente, encarando diariamente o vírus da covid, sem vacina, com o compromisso de cumprir o papel social do banco público. Ela aponta que hoje esse trabalho gigantesco vêm sendo feito por 81 mil empregados, 20 mil a menos do que o banco tinha em 2014. “À medida que encolhe o número de empregados, sobe o de clientes”.

A Caixa registrou incremento de aproximadamente 42 milhões de novos clientes. Em 2007, havia uma média 575 correntistas por empregado. No primeiro trimestre deste ano, a média mais que triplicou: agora são 1.780 clientes por empregado, um aumento de mais de 300%.

De acordo com os dados do Dieese, a Caixa encerrou o 1º trimestre de 2021 com 81.876 empregados, com fechamento de 2.943 postos de trabalho em 12 meses, influenciado pelo Programa de Desligamento Voluntário (PDV).

“Essa é uma conta que não fecha. Não tem como aumentar exponencialmente o número de clientes e cortar mais de 20 mil empregados. O resultado dessa matemática perversa é o adoecimento em massa dos empregados, que sofrem intenso assédio para atingir metas cada vez mais desumanas”, critica a coordenador do Sindicato, que completa: “As contratações dos concursados e abertura de novos concursos são medidas urgentíssimas para aliviar a pressão sob os empregados e mitigar o adoecimento das equipes. Não adianta o presidente da Caixa anunciar novas contratações e abrir mais agências. Desta maneira, a conta nunca vai fechar. Os empregados não aguentam mais fazer o trabalho de duas ou três pessoas. Lembremos, tudo isso em plena pandemia e sem vacina. A propósito, a vacinação da categoria é outra demanda urgentíssima cujo presidente da Caixa, Pedro Guimarães, segue ignorando solenemente”, finaliza Rita Lima.