Quem se propuser a “dar um google” usando as palavras “lucro do Banestes 2021” vai ficar com uma interrogação enorme na cabeça. O resultado da busca (print abaixo) exibirá que o Banestes obteve lucro de R$ 61 milhões no primeiro trimestre de 2021, alta de 35,8% em relação ao mesmo período de 2020, conforme sustenta o banco. A confusão surge quando a manchete do principal jornal de economia e finanças do país, o Valor Econômico, abre divergência no resultado apresentado e afirma que o banco capixaba registrou queda de 26,3% no lucro.

No print do Google, o Valor e o MoneyTimes apontam queda no lucro; já os outros dois jornais, um do ES e outro nacional, apontam alta

Diante da divergência entre os resultados, o Sindibancários/ES questionou o Banestes se havia uma explicação técnica para o banco apresentar lucro de 35,8% e o Valor cravar queda de 26,3%. A assessoria de imprensa informou que o banco, a partir de 2021, passou a usar outro critério para apresentar os resultados. Em vez de usar o lucro líquido total, parâmetro válido até 2020, o Banestes passou a divulgar o lucro líquido recorrente.

“O lucro líquido do primeiro trimestre de 2021 alcançou o valor de R$ 61 milhões. Ao comparar os valores recorrentes do primeiro trimestre de 2021 e o mesmo trimestre de 2020, o resultado cresceu 35,8%, a contraponto do valor contábil que foi menor 26,3%, face a alienação de títulos financeiros públicos ocorrida no primeiro trimestre de 2020 que geraram receitas não recorrentes de R$ 67 milhões”, esclarece o e-mail de resposta da assessoria de imprensa do Banestes.

Para a economista Cátia Uehara, do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o Banestes optou por adotar o lucro líquido recorrente para apresentar seus resultados referentes ao primeiro trimestre de 2021, mas nem no release do banco ou tampouco no canal de Relação com Investidores (RI) do site do Banestes, onde está publicado o resultado com mais detalhes, não há explicação do motivo da mudança.

De outro lado, a economista do Dieese afirma que checou os dados divulgados pelo banco do primeiro trimestre de 2020 e não há menção sobre o lucro líquido recorrente registrado no período. “Assim como os dados do primeiro trimestre de 2021 não trazem o lucro líquido total (não recorrente)”.

Cátia Uehara resume a polêmica: “Se compararmos o lucro líquido recorrente de 2020, como passou a fazer o banco este ano, houve alta de 35,8% (confira quadro abaixo). No entanto, se compararmos o lucro líquido total (não-recorrente), o resultado indicará queda de 26,3%, como apontou o Valor Econômico”. Ela afirma que o mais lógico é comparar os resultados usando o mesmo parâmetro para não gerar confusão e disponibilizar tanto o lucro líquido total como o recorrente no material de divulgação.

Motivos da mudança

O coordenador-geral do Sindicato dos Bancários/ES. Jonas Freire, afirma que a dúvida paira sore os motivos que teriam levado o banco a fazer a mudança. O dirigente chama atenção para o fato de os grandes bancos sempre usarem como referência na divulgação dos resultados o lucro líquido total.

Uehara completa que os grandes bancos, no detalhe, costumam publicar os dois lucros: recorrente e não-recorrente. Ela explica, porém, que o movimento sindical sempre usa como referência o lucro líquido total. E há um motivo importante para isso. “A PLR é calculado normalmente sobre o lucro líquido total, que costuma ser superior ao recorrente”. No caso do Banestes, o líquido total do primeiro trimestre de 2020 foi de R$ 83 milhões contra R$ 61 milhões do recorrente deste ano, uma diferença de R$ 22 milhões.

Impactos na PLR

Cátia Uehara afirma que há casos de alguns bancos menores que têm usado o lucro líquido recorrente como base de cálculo para pagar a PLR, o que acaba provocando queda no valor da participação dos funcionários sobre os lucros do banco. Ela diz ainda que a luta sindical tem sido no sentido de sempre usar o lucro líquido não-recorrente como referência para o cálculo da PLR.

“Essa mudança promovida pelo Banestes nos deixa apreensivos porque há o precedente de bancos que passaram a usar o lucro recorrente para calcular a PLR. E isso nos preocupa porque representa perdas para o trabalhador”, assinala Jonas. Ele diz que o Sindicato luta justamente no sentido oposto. “Sempre estamos reivindicando uma maior participação nos lucros. Mesmo porque, os bancos, com ou sem crise, continuam registrando lucros excepcionais. De outro lado, seguem pressionado os funcionários para o cumprimento de metas desumanas, encolhendo salários e benefícios com o intuito de aumentar ainda mais essas margens”, critica o dirigente.