Não faz uma semana que o Brasil ganhou um importante aliado contra a propagação de fake news e conteúdos duvidosos. O Sleeping Giants Brasil é uma iniciativa inspirada no homônimo norte-americana idealizado por Matt Revitz, que passou a alertar as empresas que tinham seus anúncios veiculados em site de fake news durante as eleições de 2016 que elegeram Donald Trump. A primeira grande “intervenção” da versão brasileira vem dando o que falar. Campanhas publicitárias do Banco do Brasil estavam sendo veiculadas num dos sites prediletos da extrema direita: o Jornal da Cidade, “especializado” em fake news e conteúdos que combinam ódio e intolerância.
A ação do Sleeping Giants Brasil, toda feita no Twitter, começa com uma abordagem amistosa, mas direta à empresa que está financiando conteúdo falso. No caso do BB, o perfil do Giants cobrou: “Oi @BancodoBrasil, tudo bem? Realmente é bom ter a facilidade de usar um app em tempo de pandemia, mas precisava anuncia-lo em um site conhecido por espalhar Fake News e que é contra o isolamento social. Pls considere bloquear” (imagem abaixo).
Após o alerta, feito nessa terça-feira, 19, o perfil oficial do BB reagiu em menos 24 horas com a seguinte resposta: “Agradecemos o envio da informação, comunicamos que os anúncios de comunicação automática foram retirados e o referido site bloqueado. Repudiamos qualquer disseminação de FakeNews”. Logo em seguida, o Giants e seus seguidores, que já passam de 200 mil, comemoraram a iniciativa do Banco do Brasil em não apoiar um site difusor de informação falsa.
Quem não gostou da decisão do BB foi o filho do presidente Jair Bolsonaro. O vereador Carlos Bolsonaro, indignado com a decisão do banco, postou a seguinte mensagem: “Marketing do @BancodoBrasil pisoteia em mídia alternativa que traz verdades omitidas. Não falarei nada pois dirão que estou atrapalhando….. agora é você ligar os pontinhos mais uma vez e eu apanhar de novo, com muito orgulho! Obs: não conheço ninguém do @JornalDaCidadeO” (imagem abaixo).
Nessa quinta-feira, 21, o BB sentiu o peso da bronca de Carlos Bolsonaro e recuou, liberando novamente a veiculação das publicidades da empresa pública no Jornal da Cidade. O presidente do Banco do Brasil, Rubem Novaes, deu razão à queixa do vereador. Ele declarou ao Estadão que não concordou com a restrição e que o site não deveria ser punido. O gerente de Marketing e Comunicação do BB, Antônio Hamilton Mourão, filho do vice-presidente Hamilton Mourão, foi solidário ao filho do presidente. Ele afirmou que a restrição ao site foi exagerada e ordenou o imediato restabelecimento da publicidade no Jornal da Cidade, que tem uma longa coleção de fake news denunciada por sites especializados em checagem de informação falsa, como a Agência Lupa, Aos Fatos e Estadão Verifica.
A diretor do Sindicato dos Bancários/ES, Goretti Barone, destaca a importância do trabalho do Sleeping Giants Brasil em denunciar site de conteúdos de extrema direita que foram concebidos com o propósito de prestar desserviço à sociedade. “A iniciativa, ainda incipiente no Brasil, mas sinaliza que vai dar muito o que falar, porque se pauta em um dos principais pilares da democracia: a transparência. Cutucar a empresa e alertá-la que ela está compactuando com um site mal-intencionado, que divulga fake news, causa uma saia-justa danada ao anunciante. Nenhuma empresa quer associar sua marca a um conteúdo no mínimo suspeito ou mesmo falso”, diz a dirigente. De fato, a maioria das empresas que está sendo provocada tem reagido positivamente à iniciativa. Incomodadas com a associação negativa das suas marcas, a maioria das empresas tem prometido retirar imediatamente a publicidade de sites que disseminam a desinformação e o ódio.
Pressão continua
O perfil do Sleeping Giants Brasil no Twitter fica o tempo todo atualizando sua as respostas das empresas que acolhem o alerta e avisam que estão retirando a publicidade dos sites que produzem fake news. Cada empresa que confirma que bloqueou as veiculações nesses sites são parabenizadas pelo perfil e aplaudidas efusivamente pelos seguidores do Giants. De outro lado, as que ignoram o alerta ou recuam são cobradas novamente.
Foi o que aconteceu com o Banco do Brasil. Após ceder à pressão do filho do presidente Bolsonaro e retomar a publicidade no site, o perfil do Sleeping Giants postou: “Galera temos muitas empresas para cobrar ainda, mas acreditamos que sofremos nossa primeira derrota para a máquina de Fake News. O @BancodoBrasil sofreu uma intervenção estatal e voltou a usar dinheiro público para financiar o site que atenta constantemente a democracia”.
Outro banco público federal, a Caixa Econômica (anúncio abaixo) também está na lista das empresas que financiam fake news, mas até a publicação desta reportagem não havia se manifestado ante o alerta do Giants.
“No caso do BB, ficou patente, mais uma vez, que os filhos do presidente mandam e desmandam neste governo. Bastou uma bronca do Carlos Bolsonaro para a direção do banco interferir na decisão de retirar o anúncio que fora inicialmente acertada. Isso é muito grave porque estamos falando de dinheiro público financiando conteúdos de extrema direita que distorcem informações e geram ódio. Além de ser também uma contradição”. Goretti se refere à situação dos empregados da Caixa, que estão na linha de frente vulneráveis à covid-19. “Imaginem o empregado da Caixa que está todos os dias enfrentando filas gigantescas debaixo de sol e chuva saber que o banco financia a produção de conteúdos falsos contrários ao isolamento social. Precisamos pressionar as empresas públicas e privadas a retirarem urgentemente as publicidades desses veículos. Nós sabemos a quem interessa essa fábrica de informação falsa, ideologizada no ódio e na intolerância”, afirma a dirigente.




