A Brasilcap, subsidiária da Brasil Seguros, do Banco do Brasil, decidiu entrar na ciranda das apostas online. A empresa acabou de lançar o BB da Sorte. Na verdade, mais um “joguinho de azar” que vem embalado como título de capitalização. Com apelo popular, um título pode ser adquirido por apenas R$ 3,00. O produto é direcionado para a fatia da clientela do BB com menor renda, justamente o perfil das famílias brasileiras que estão empobrecendo e adoecendo por causa do boom das apostas que podem ser feitas a qualquer momento no celular.
Para o diretor do Sindicato dos Bancários/ES Igor Chagas, é inaceitável que o Banco do Brasil empreste a credibilidade da sua marca bicentenária para promover mais uma modalidade de jogo de azar. O dirigente explica que o fato de o BB da Sorte ser comercializado como um título de capitalização induz o cliente a acreditar que se trata de um investimento que ele poderá resgatar mais à frente, o que pode parecer à primeira vista vantajoso.
Os títulos de capitalização em geral são corrigidos pela TR (Taxa de Referência), que paga em média 0,17% ao mês, isso se o cliente aguardar 12 meses para retirá-lo. É importante que o consumidor saiba que os títulos de capitalização não pagam uma taxa de juros real como as pagas em investimentos tradicionais como CDB, Tesouro Direto ou poupança. “O BB da Sorte tem vigência de 12 meses, ou seja, só é possível retirar o investimento somente após esse período. O problema é que ele consegue ainda ser pior porque paga menos que outros títulos de capitalização do mercado: apenas 50% do valor ‘apostado’”, afirma o dirigente.
“A jogada do BB da Sorte é usar o apelo dos jogos online, que viraram uma verdadeira febre no Brasil, para convencer o cliente do BB a apostar, ou seja, a contar com a sorte para ser premiado”, afirma Igor. O dirigente adverte que as chamadas bets e outras modalidades de apostas, e o BB da Sorte é uma delas, se tornaram um problema social, por causa do endividamento das famílias, e de saúde pública no Brasil. “Especialmente as empresas públicas, pela sua vocação social, deveriam estar combatendo o problema, não incentivando as apostas”, critica.
Saúde dos brasileiros em jogo
Para comprovar os dados sociais que os jogos têm causado à população brasileira, o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS) divulgou no final de dezembro do ano passado a pesquisa “A Saúde dos brasileiros em jogo”. O estudo apontou como os jogos de azar e apostas online (bets) provocam perdas financeiras e sociais aos brasileiros. As perdas estão estimadas em R$ 38,8 bilhões anuais. Segundo o estudo, esse valor contabiliza os gastos com danos à sociedade, como suicídios, desemprego, saúde e afastamento do trabalho.
A pesquisa informa que foram registrados no Brasil 17,7 milhões apostadores em apenas seis meses. Um levantamento da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) estima que cerca de 12,8 milhões de pessoas envolvidas com apostas estão em situação de risco.
De acordo com o Banco Central (BC), os brasileiros destinaram cerca de R$ 240 bilhões às bets em 2024. Os jogos não desestruturaram até o principal programa de transferência de renda do governo federal. Beneficiários do Bolsa Família gastaram R$ 3 bilhões em bets, por meio de Pix, em agosto de 2024.
“Título de capitalização nunca foi investimento”
A afirmação acima é do presidente da Brasilcap, Antônio Carlos Teixeira, em entrevista ao jornal carioca O Globo, em outubro do ano passado, logo após assumir o comando da subsidiária do BB Seguros. Disse Teixeira: “Durante muito tempo a capitalização foi vendida equivocadamente como investimento. Capitalização nunca foi investimento. E acho que isso é o que gerou o grande ranço no mercado financeiro, principalmente nos analistas especializados”.
“Apesar de admitir que as empresas de capitalização vendiam gato por lebre, Teixeira agora recorre ao apelo dos jogos online para vender título de capitalização que, como ele mesmo reconhece, não é investimento. Aliás, importante deixar claro que não pode ser comparado a investimentos porque não há aplicação no mercado que ofereça uma taxa tão baixa, se comparado a outros papéis. O ganho prometido com o título de capitalização não vem de juros, mas da possibilidade estatisticamente quase nula do cliente contar com a sorte para ganhar um dos prêmios”, aponta Igor. O dirigente afirma ainda que, além dos danos sociais do BB da Sorte, só faltava a direção do Banco do Brasil considerar incluir a venda do produto nas metas impostas aos funcionários e às funcionárias do banco.
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Se você ou alguém que você conhece está perdendo o controle com jogos ou bets, procure ajuda especializada. O vício em apostas é uma doença reconhecida.
Jogadores Anônimos: https://jogadoresanonimos.com.br/
CAPS (Centro de Atenção Psicossocial): Procure a unidade mais próxima em sua cidade.
Rede Abraço (ES/Nacional): Atendimento especializado em vício online.

