O Banco do Brasil anunciou lucro líquido de R$ 9,3 bilhões no primeiro trimestre do ano (1T24). O resultado é 8,8% superior ao registrado no mesmo período do ano passado (1T23). O lucro ficou acima das estimativas de mercado, que projetavam R$ 9,1 bilhões e apenas R$ 500 milhões abaixo do resultado do Itaú, que fechou o trimestre com R$ 9,8 bilhões. BB e Itaú vêm disputando palmo a palmo a liderança do lucro entre os grandes bancos brasileiros. Os dois bancos fecharam os balanços do ano passado com lucro (recorde) idêntico: R$ 35,6 bilhões.
“A disputa do ranking do lucro com o maior banco privado do país diz muito sobre a guinada do BB para o mercado. A cada resultado recorde, o BB fica com mais cara de banco privado e se distancia do seu papel social que caracterizou a trajetória do banco nesses mais de dois séculos de existência”, diz a dirigente do Sindibancários/ES Bethânia Emerick. Ela acrescenta que essa política de banco privado também se reflete internamente.
“Durante a Conferência Estadual das Bancárias e dos Bancários do Espírito Santo, no início de maio, um dos temas em destaque foi o adoecimento mental da categoria. As metas são sem dúvida a grande vilã desse adoecimento em massa das bancárias e dos bancários, e no BB não tem sido diferente. Para bater recorde atrás de recorde, o BB tem usado rigorosamente as mesmas estratégias dos concorrentes: fechamento de postos de trabalho e agências, metas cada vez mais abusivas, sobrecarga de trabalho e, consequentemente, mais adoecimentos”, critica Bethânia.
Em 2021, durante o governo Bolsonaro, o BB iniciou um processo de reestruturação. Nos primeiros três meses de 2022, desligou 1.410 funcionários e fechou 108 agências tradicionais no intervalo de um ano. No primeiro trimestre de 2022 o banco empregava 86.466. Hoje são 87.067. “No comparativo, o saldo é positivo de 601 funcionários. Mas esse número está muito aquém do ideal”. Bethânia aponta que o governo Bolsonaro impôs um teto de funcionários para todas as empresas públicas. “Até 2020, o BB poderia contratar até 105 mil empregados. Esse teto foi reduzido para 102 mil. Mas, mesmo com o teto rebaixado, considerando o quadro atual de 87 mil, estamos falando de um déficit de 15 mil empregados. Faz muita diferença. Esse reforço de pessoal poderia reduzir a sobrecarga de trabalho e o adoecimento. O banco precisa garantir aos seus funcionários um ambiente de trabalho saudável. Estamos muito distantes disso hoje”, afirma a dirigente do Sindibancários.
Atualmente, o valor que o BB arrecada somente com prestação de serviços e tarifas bancárias cobre em 123,92% o total das despesas do banco com pessoal, incluindo o pagamento da PLR.
Mais mercado, menos social
Nos últimos anos, os veículos especializados em finanças têm enaltecido os resultados do BB, os acionistas festejam os resultados recordes trimestre a trimestre e os analistas recomendam a compra de ações. A análise do BTG sobre o lucro do primeiro trimestre cravou: “O Banco do Brasil está no caminho certo para entregar os R$ 37-40 bilhões de guidance [projeção da empresa] para o ano”. O BTG também recomendou compra para os papéis do BB, com preço-alvo de R$ 36.
Para Bethânia, a forma como o mercado vê o BB é a maior evidência de que o papel público do banco está se esmaecendo a cada novo balanço trimestral. “No ano passado o BB registrou lucro recorde histórico de R$ 35,6 bilhões. Agora os analistas, empolgados, já projetam marcas ainda mais ousadas, na casa dos R$ 40 bilhões. Não é possível conciliar essa política de banco privado com uma agenda de compromissos sociais. Não é esse o Banco do Brasil que a sociedade brasileira deseja e precisa. Quando a prioridade do banco passa a ser a remuneração dos acionistas, o cumprimento de uma agenda voltada para o social fica prejudicado. Todos nós queremos um Banco do Brasil forte e com resultados positivos, mas há um limite ético que não está sendo respeitado para dentro e para fora do banco. O lucro não pode estar acima do propósito social do Banco do Brasil”, assinala Bethânia.
Confira outros resultados do BB (1T24)


