Há alguns anos, os bancões privados – Itaú, Bradesco e Santander – disputavam a liderança do ranking de lucro. Banco do Brasil e Caixa, instituições de caráter social, ficavam sempre na lanterna. Afinal, lucro a qualquer custo não era o propósito primordial dos bancos públicos. De anos para cá, no entanto, o BB tem mostrado que seu modelo de negócio mudou, e a instituição passou a se comportar como um banco privado. O lucro acumulado pelo BB nos nove primeiros meses do ano confirma essa tendência: R$ 28,3 bilhões. O resultado é 8,4% superior ao do mesmo período de 2023 (R$ 26,1 bilhões), que já fora estrondoso. Somente no 3º trimestre deste ano o banco lucro R$ 9,5 bilhões. Valor idêntico ao do 2º trimestre e 8,3% maior na comparação com o mesmo período de 2023.
“Não é preciso ser analista financeiro para afirmar, sem medo de errar. que o Banco do Brasil hoje é o maior rival do Itaú quando o assunto é lucro. Não por acaso, ambos fecharam 2023 rigorosamente empatados com R$ 35,6 bilhões de lucro. Este ano, os dois disputam novamente palmo a palmo o topo do ranking de lucro”, afirma a dirigente do Sindicato dos Bancários/ES Goretti Barone.
Na corrida pelo lucro este ano, o Itaú leva ligeira vantagem sobre o BB: R$ 30,5 bilhões contra R$ 28,3 bilhões – uma diferença de R$ 2,2 bilhões, nada tão expressivo que o BB não tente buscar neste 4º trimestre. “Os números são inequívocos. Não tem como o BB ser um banco voltado para o social e ao mesmo disputar a liderança do lucro com o maior banco privado da América Latina. Essa equação não fecha. Tem muita coisa errada aí”, aponta Goretti.
A dirigente tem razão. Em 2019, ou seja, em menos de cinco anos, o BB comemorava o lucro recorde de R$ 18,1 bilhões. No comparativo com o resultado de 2023 (R$ 35,6 bi), o lucro praticamente dobrou. Se o recorte considerar somente os primeiros nove meses do ano, o salto é ainda mais elástico. Por exemplo, em 2019 o BB acumulou R$ 12,4 bilhões em nove meses; em 2024, o resultado somou R$ 28,3 bilhões, ou seja, um aumento de 128%.
“Os números são perturbadores. Percebam que o banco precisou de apenas um semestre em 2024 para atingir o lucro de um ano inteiro [2019]. É importante considerar que de 2019 para cá o banco vem fechando postos de trabalho e agências, uma das características do processo de reestruturação em curso no BB. Imaginem que hoje há um número reduzido de funcionários e agências em relação a 2019, mas o banco está lucrando o dobro. Não tem milagre. Esse lucro em dobro vem com metas abusivas e trabalho cada vez mais intenso. Não bastasse, algumas agências estão funcionando com o quadro de funcionários pela metade, o que causa sobrecarga de trabalho. O resultado desse modelo de gestão é o adoecimento epidêmico da categoria, especialmente o mental. Não tem como o funcionário entregar em dobro sem adoecer. Esse modelo de gestão dos bancos é desumano e deixa sequelas: um contingente enorme de adoecidos. O lucro jamais pode estar acima da vida”, sublinha Goretti.
Apesar do lucro estrondoso, continua a dirigente, o BB também tem sido negligente com a manutenção da infraestrutura de algumas agências. No Espírito Santo, por exemplo, temos atualmente problemas de infraestrutura nas agências de Santa Leopoldina, Aracruz e Jaguaré”, aponta.
Resultados BB 3º trimestre de 2024 (3T24)


