Caixa dobra metas dos empregados em plena pandemia

23/06/2020 21:19

Ignorando a covid-19 que já matou mais de 1.400 pessoas no ES, o banco faz nesta quarta-feira, 24, o Dia “D” para incrementar as vendas de seguros e outros produtos bancários

Nesta quarta-feira, 24, acontece o Dia “D”. Se enganou quem pensou que em tempos de pandemia a ação se refere a uma campanha de vacinação. Nada a ver com a saúde. Ao contrário, o Dia “D” da Caixa Econômica Federal é contra a saúde dos seus empregados, clientes e usuários do banco. Com o Espírito Santo registrando 1.432 mortes e mais de 37 mil casos confirmados de covid-19, a Caixa quer faturar em meio à mais grave crise sanitária dos últimos 100 anos. A ordem do banco é que os empregados no mínimo dobrem suas metas vendendo seguros residenciais e outros produtos bancários.

Denúncias que chegaram ao Sindicato relatam que a cobrança por metas vem aumentando mesmo com a pandemia do novo coronavírus. Nas denúncias fica evidente o constrangimento dos empregados que são obrigados, por exemplo, a liberar um crédito mas exigir a contratação de um seguro de vida para garantir que a dívida seja quitada em caso de morte. “Imagina o constrangimento de fazer essa conversa com o cliente em tempo de pandemia, com as pessoas morrendo. Fica parecendo que o bancário está prevendo a morte do cliente”, diz a diretora do Sindicato dos Bancários/ES, Rita Lima.

“É inaceitável que a Caixa imponha metas aos empregados em meio a uma crise de saúde que já matou mais de 50 mil pessoas no país. Chega a ser cruel. Os empregados estão no limite, exauridos, adoecendo, trabalhando horas e horas sob a pressão da doença; dos usuários que muitas vezes descontam nos bancários suas frustrações por não terem recebido o auxílio emergencial e ainda sofrem pressão interna dos gestores, que exigem o cumprimento de metas absurdas”, critica a também diretora do Sindicato, Lizandre Borges.

Rita Lima afirma que o controle sobre as metas é intenso, às vezes de hora em hora por parte dos superiores que exigem o cumprimento de metas impossíveis de serem alcançadas em tempos de pandemia, onde a prioridade é cumprir a função de banco público no pagamento dos benefícios sociais.

Segundo Rita, os gerentes, em sua maioria, têm sido obrigados a chegar antes das 7h, dar um jeito de desfazer as filas na frente das agências e imediatamente enviar fotos aos superiores para provar que não há aglomerações. “O estresse continua durante todo o dia, com a pressão do trabalho em si, que tem sido pesado demais em função do pagamento do auxílio emergencial. Chega no fim do dia, depois de 10 horas de trabalho, o gestor ainda é obrigado a fazer duas, às vezes três lives seguidas para receber mais cobranças dos superiores. Resultado, o gestor fica tão pressionado que acaba fazendo o papel de feitor e os empregados de escravos. Essa situação é inaceitável”, protesta a dirigente.

Rita Lima afirma que a Caixa está na verdade impondo metas para ranquear as agências. Ela lembra que o que o Acordo Coletivo de Trabalho proíbe essa prática de ranqueamento. Essa cobrança metas além de desumana é ilegal. O Sindicato está estudando ajuizar uma ação contra essa cobrança abusiva que se caracteriza como assédio coletivo”, assevera.

Ordens de Bolsonaro

Lizandre critica o presidente da Caixa, Pedro Guimarães, que está cumprindo à risca às ordens do presidente Bolsonaro que defende a volta das atividades econômicas e quer usar o banco público como exemplo para outras empresas. Ela chama a atenção para o fato de a Caixa estar preocupado em incrementar a venda de seguros não por acaso. “Sabemos que a área de seguros é um dos ativos que o banco pretende vender nesse processo de fatiamento da Caixa. A Caixa chegou a protocolar o IPO da área de Seguridade em fevereiro, mas acabou recuando em março devido à pandemia que já dava sinais de instabilidade no mercado. Agora parece que eles estão dispostos a colocar os produtos na vitrine, mesmo que isso possa custar a vida de empregados, clientes e usuários”, assinala Lizandre.

Rita Lima acrescenta ainda que a Caixa, por ser um banco 100% público, com compromisso social, jamais poderia estar sendo usado pelo governo Bolsonaro como um banco preocupado em fazer negócios num momento tão grave como esse. “A Caixa, cumprindo seu papel social, bateu o recorde de abrir 30 milhões de contas em uma semana e pagar o auxílio emergencial para cerca de 100 milhões de brasileiros e brasileiras que se cadastraram no programa. Quem fez isso não foi Bolsonaro, Guedes ou Guimarães. A façanha é dos empregados da Caixa. Muitos adoeceram ou estão adoecendo de covid ou outras doenças, especialmente causadas pelo estresse desse momento caótico. É desses mesmos trabalhadores e trabalhadoras que a Caixa está exigindo agora o cumprimento de metas absurdas e abusivas. Basta. Não vamos aceitar que este governo ponha o lucro na frente das vidas”.