O Banco do Brasil registrou lucro líquido ajustado de R$ 3,4 bilhões no primeiro trimestre de 2026, retração de 53,5% em relação ao mesmo período de 2025. No comparativo com o último trimestre do ano passado, a queda foi de 40,2%. O resultado do primeiro trimestre mantém a espiral de queda iniciada em 2025, principalmente em razão do calote do agronegócio. Segundo análise do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), o BB recorreu a créditos tributários. Apenas no primeiro trimestre de 2026, o valor chegou a R$ 2,1 bilhões. Sem esse recurso contábil, o lucro teria sido ainda menor, de aproximadamente R$ 1,3 bilhão, evidenciando uma queda ainda mais acentuada.
Além da alta inadimplência da carteira do agro, o banco atribuiu a queda do resultado ao aumento de 85,8% no custo do crédito, que totalizou R$ 18,9 bilhões; a redução das despesas de captação, associada a menores volumes de LCA e ao efeito calendário (três dias úteis a menos); ao crescimento de 5,5% nas despesas administrativas, influenciado pelo reajuste salarial de 2025 e aos investimentos em tecnologia e cibersegurança.
Na avaliação da dirigente do Sindicato dos Bancários/ES, Nathalia Gallini, há outras causas, mas o lucro do BB foi minado principalmente pela inadimplência da carteira do agro. “Estamos nos referindo aos grandes empresários do agro que respondem pela maioria dos empréstimos. Não podemos esquecer que o Plano Safra 2025/2026 anunciou oferta de R$ 230 bilhões em crédito”. O BB é o maior financiador do agronegócio brasileiro, o que o expõe diretamente aos problemas do setor. A inadimplência rural acima de 90 dias subiu de 2,76% para 6,22% em um ano. A carteira rural como um todo pressiona o indicador geral de inadimplência do banco (5,05% acima de 90 dias no 1T26, ante 3,63% no 1T25).
Mais pressão sobre os funcionários
A dirigente afirma que o lucro caiu, mas não em função da queda de produção dos funcionários. Ela diz que os funcionários seguem sendo pressionados pela direção do banco, que impõe metas cada vez mais intangíveis. Nathalia destaca que as receitas seguem em crescimento, mas foram comprometidas com as provisões para perdas. A chamada Provisão para Devedores Duvidosos (PDD) é o dinheiro separado pelo banco para cobrir empréstimos com risco de calote. No primeiro trimestre de 2026, a PPD subiu para R$ 16,8 bilhões em relação ao primeiro trimestre de 2025. Em nota, o banco confirma que o aumento da PDD reflete principalmente a elevação da inadimplência nas operações com produtores rurais.
“O banco tem sustentado sua rentabilidade com base em um modelo de gestão focado em metas descoladas da realidade. Diariamente temos indícios de que a pressão não para nem quando o colega está de férias ou licença. Existe uma cobrança de produção sistemática, mesmo para quem trabalhou apenas alguns dias no mês. É um ritmo que intensifica o trabalho e torna o adoecimento uma consequência desse modelo opressor. O banco ignora que somos seres humanos, não máquinas de bater número. O lucro está sendo construído sobre o esgotamento da nossa categoria”, critica.
“Causa-nos preocupação quando ouvimos a presidenta do banco, Tarciana Medeiros, afirmar que 2026 será um ano de reestruturação ainda mais difícil, admitindo que o calote do agro continuará gerando impactos nos resultados deste ano. Isso nos faz ligar o alerta de que essa pressão do mercado será repassada para os funcionários, que já estão no limite”, afirma Nathalia, fazendo referência à entrevista que a presidenta do BB deu em abril ao site Seu Dinheiro.
A dirigente acrescenta ainda que o banco tem se furtado de cumprir sua verdadeira função social, concorrendo com os bancos privados de igual para igual, ou seja, praticando altas taxas de juros, mantendo seu foco no agronegócio, que têm sido também seu maior gargalo, como se observa no crescimento da inadimplência do setor.
“Estamos em plena construção das nossas reivindicações para a campanha salarial e precisamos acreditar na força que as trabalhadoras e trabalhadores do BB têm e nos unirmos para exigir que os frutos do nosso trabalho sejam revertidos em saúde, bem-estar, salários dignos e não em dividendos para enriquecer ainda mais os acionistas. Precisamos alterar essa lógica do lucro a qualquer custo”, enfatiza Nathalia.

