No dia 25 de março, o governador Renato Casagrande estava convicto de que o isolamento social era a medida mais eficaz para evitar a propagação do até então desconhecido coronavírus. Naquela ocasião, o Espírito Santo registrava 40 casos confirmados da covid-19 e estava zerado em mortes. Dez dias após o Estado adotar a quarentena, Casagrande ganhou destaque na imprensa nacional ao criticar o presidente Bolsonaro, que defendia a flexibilização do isolamento, criticava os governadores e prefeitos que adotaram a medida e tratava a pandemia como uma “gripezinha”.

Pouco mais de dois meses depois dessas declarações de Casagrande, os números da pandemia no Estado mudaram assustadoramente: são quase 17 mil casos de covid confirmados e 738 óbitos (dados de 05/06/20). Mudou bastante também a posição do governador sobre a pandemia. No dia 19 de abril, menos de um mês após chamar Bolsonaro de irresponsável por insistir na flexibilização do isolamento, Casagrande passou a relaxar as medidas, liberando a abertura do comércio a partir de uma matriz de risco imposta pela Secretaria de Estado da Saúde (SESA), que classificou os municípios em risco baixo, moderados e alto. Pela regra da SESA, quanto menor o risco, maior a flexibilização.

“Acho que há uma grande interrogação na cabeça das pessoas de bom senso para tentar entender como funcionam os critérios do governo do Estado para flexibilizar as medidas de isolamento. Não precisa ser especialista em saúde pública para notar que as curvas de novos casos e de óbitos estão em franca ascensão. Estamos vendo a rede de saúde entrando em colapso e todo o comércio voltando a funcionar. É contraditório. Até os shoppings e as academias de ginástica já reabriram. Não há outra interpretação a fazer sobre essa mudança radical de posicionamento: o governador cedeu à pressão das elites empresariais. Entre salvar as vidas ou a economia, ele escolheu a economia”, critica o coordenador geral do Sindicato dos Bancários/ES, Jonas Freire.

Jonas acrescenta que além do colapso iminente das ofertas de leitos de UTI, a qualidade das equipes dos profissionais de saúde também acaba sendo outro fator preocupante. Ele destaca que há um índice muito alto de profissionais infectados que precisaram ser afastados. “O resultado é que muitos médicos e enfermeiros que estão substituindo os que adoeceram não tem experiência para lidar com uma pandemia dessa complexidade. Desde o início da pandemia os especialistas ensinaram que para reduzir as mortes era preciso ter a curva da doença sob controle para não colapsar o sistema; ter recursos técnicos, como respiradores, por exemplo, e equipe bem treinadas. No nosso caso, estamos padecendo nesses três parâmetros”, opina o dirigente.

Dados da própria SESA apontam que 3.803 profissionais de saúde se infectaram no Espírito Santo. O número representa 22,5% do total de casos de covid registrado: 16.894 (05/06/20). Dos 78 municípios capixabas, 71 têm casos de profissionais de saúde infectados por covid. Desde o início da pandemia, a covid já matou sete profissionais de saúde.

Relaxamento X aumento de casos

Com o aumento impressionante de casos e mortes, o Brasil se tornou nas últimas semanas o epicentro da covid no mundo. São mais de 613 mil casos confirmados e 33.606 mortos (05/06/20), resultado que confere ao Brasil a vice-liderança mundial em casos e a terceira em óbitos. Dentro desse contexto caótico, o Espírito Santo é um dos seis estados do país que decidiram acelerar as medidas de reabertura do comércio. No início desta semana, o governador autorizou a reabertura dos shoppings, único setor comercial que permanecia fechado.

Os estados que cederam à pressão dos empresários e flexibilizaram as medidas viram o número de casos crescer e as vendas seguirem estagnadas. Uma reportagem do jornal Folha de S. Paulo ouviu os representantes das federações do comércio desses seis estados. Eles disseram, em linhas gerais, que as vendas estão abaixo da metade da média registrada antes da pandemia, ou seja, até 11 de março.

O presidente da Fecomércio-ES, José Lino Sepulcri, disse à reportagem da Folha que a grande maioria não passa de 40%. O Sindicato dos Comerciários criticou a decisão do governo e dos empresários de reabrirem o comércio.

O gráfico acima relaciona o relaxamento das medidas de isolamento com o aumento dos casos de covid. O Espírito Santo, entre os seis estados analisados, é o que aponta maior inclinação da curva da doença desde a abertura do comércio. No dia 02 de junho, quando foi feito o comparativo, o ES registrava 15.151 casos; contra 9.919 de SC; 9.332 do RS; 4.377 de GO; 2.709 do MT e 1/568 do MS.

“Os números não deixam dúvida de que a reabertura antecipada do comércio foi um erro, uma decisão irresponsável do governador e dos empresários”. Jonas recorda que no dia 19 de abril, quando o governo Casagrande iniciou o relaxamento das medidas, o Espírito Santo tinha 1.099 casos. “A reabertura fez o número de casos se multiplicar por 15. Casagrande deveria fazer como o prefeito de Milão, pedir desculpas à população capixaba, reconhecer que errou e adotar o trancamento total. Essa é alternativa que resta ao governo para evitar novos s casos de contaminação e mais mortes”, alerta o coordenador geral do Sindicato.