Na Campanha Nacional 2020, bancários e bancárias vão lutar por reajuste de 5% mais inflação, defesa do emprego, dos bancos públicos, fim das metas abusivas, regulamentação do home office e saúde e condições de trabalho. A minuta da categoria foi definida em plenária neste sábado, 18, em edição virtual da 22ª Conferência Nacional dos Bancários, que aprovou também como eixos políticos o Fora Bolsonaro e a defesa da democracia.
A proposta de minuta será votada em assembleia convocada pelo Sindicato na próxima terça-feira, 21, com processo de votação digital.
Após a Conferência, o diretor do Sindicato dos Bancários/ES Carlos Pereira de Araújo (Carlão), que integra o Comando Nacional, falou sobre os desafios que estão colocados para Campanha 2020 em meio à pandemia.
“Temos o risco de que os bancos se utilizem da crise sanitária para nos impor um acordo rebaixado, por isso, temos que reinventar nossas formas de mobilização mesmo com o isolamento, envolvendo a todos, seja de forma virtual ou presencial. Há ainda pressão para manter o modelo de teletrabalho no pós-pandemia, e teremos que sustentar nossa forma de contratação. A mesa única, que permitiu avanços históricos no processo de negociação, também está ameaçada. É uma Campanha que acontece num momento único, com muitos complicadores, e requer de nós um esforço ainda maior de engajamento para preservar nossos direitos” salienta.
A preocupação com o home office levou a categoria a incluir na minuta deste ano um eixo específico de reivindicações para regulamentar o teletrabalho. O objetivo é garantir a formalização do contrato de trabalho a distância assegurando a preservação da jornada e outros direitos, como estrutura adequada, prevenção à violência doméstica e o não repasse de custos ao trabalhador.
Dialogando com esses desafios e com a crise sanitária, a Campanha Nacional dos Bancários levará para as ruas e para as redes o lema “Na luta com você, garantir e proteger”. A proposta de mídia faz alusão à unidade da categoria, cujos direitos estão resguardados pela Convenção Coletiva de Trabalho, grande “guarda-chuva” de proteção dos bancários e das bancárias.
Defesa de tese
Os bancários capixabas defenderam a tese da Intersindical – Central da Classe Trabalhadora, com propostas construídas na Conferência Estadual da categoria e aprovadas na Conferência Interestadual do RJ/ES.
A tese da Inter destacou a gravidade do cenário de crise econômica e sanitária e defendeu a unidade da categoria para exigir o fim da política econômica praticada por Guedes e Bolsonaro e a saída do presidente, com a bandeira Fora Bolsonaro/Mourão. Ainda como eixos políticos mais abrangentes, foram defendidas propostas de estatização do Sistema Financeiro; fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS); defesa dos bancos públicos e das empresas públicas; renda mínima para os trabalhadores que perderam a estabilidade econômica na pandemia e a defesa da democracia brasileira e da soberania popular, que estão sendo duramente atacadas.
Em relação à estratégia de organização da categoria, o diretor do Sindicato/ES Idelmar Casagrande referendou o princípio da unidade. “Só vamos sair dessa grave crise com a unidade dos bancários e dos combativos para defender a categoria. Para nós, essa unidade deve se dar em torno do Comando Nacional, apesar de termos posições divergentes em alguns momentos”, disse o dirigente representando a Intersindical.
Ele ainda apontou como eixos centrais a serem defendidos na Campanha Nacional 2020 a promoção da igualdade de oportunidades, a defesa da jornada de 6 horas, o fim das metas, a defesa do emprego, a saúde do trabalhador, o debate sobre o trabalho remoto, a ultratividade dos acordos coletivos e a manutenção das homologações nos sindicatos.
Em relação à pauta econômica, a Inter apresentou proposta de reajuste de 10% mais inflação do período, além de PLR de 25% sobre o lucro líquido dos bancos, distribuídos linearmente – propostas que foram alvo de polêmicas e foram derrotadas pelo campo majoritário do movimento, encabeçado pela Articulação Bancária.
“Em relação à pauta econômica, o campo majoritário manteve a mesma estratégia, com proposta de índice e PLR que não refletem a lucratividade dos bancos e que são insuficientes. O setor bancário é o que mais lucra no país, mesmo em cenário de crise. Não temos que ter vergonha de reivindicar um índice maior, ao contrário, deveríamos ter a coragem de levar isso à mesa de negociação”, criticou Carlão.

Diretor do Sindicato Carlos Pereira de Araújo (Carlão), no canto esquerdo da tela, durante intervenção da Conferência Nacional
A disputa sobre o modelo de PLR, segundo Carlão, ultrapassa o debate do valor a ser recebido, e reflete a estratégia adotada pelo movimento na disputa pela distribuição dos lucros. Enquanto o Sindicato e a Intersindical defenderam proposta de 25% do lucro líquido distribuído linearmente, o campo majoritário pautou a manutenção do texto da minuta, com reivindicação de três salários mais valor fixo de R$ 9.369,75, proposta que saiu vitoriosa.
“O resultado dos bancos é construído coletivamente, por todos os empregados. Defender a PLR linear é uma forma de enfrentar a meritocracia, que é um discurso manipulador e ideológico do patrão. O banco busca valorizar as altas chefias, mas isso só favorece o assédio moral e o aumento da pressão sobre os empregados, culminando num adoecimento generalizado. Entendemos como pedagógico fazer esse debate e enfrentamento com os bancos”, justificou Carlão.
Outras polêmicas
Metas
Na questão das metas, houve disputa se a reivindicação da categoria seria pelo fim das metas ou o fim das metas abusivas – uma polêmica que se repete há anos nos congressos bancários. A defesa da Inter foi pelo fim de todas as metas.
“Não temos que discutir se o chicote vai bater mais forte ou mais fraco nas nossas contas. Negociar metas com o banco é cair na cantinela dos patrões, e isso fica ainda mais claro na pandemia. Com o atendimento bancário restrito ao essencial, qualquer meta é abusiva. A economia está em frangalhos, ninguém tem dinheiro. Como os bancários vão bater meta de venda? Bancos públicos e privados estão ignorando a pandemia e adotando a mesma forma de pressão que adoece os bancários. Aceitar a negociação das metas é aceitar o chicote nas costas dos bancários”, defendeu o diretor Idelmar Casagrande.
A proposta do campo majoritário, no entanto, saiu novamente vitoriosa.
Contribuição negocial
Os bancários capixabas também propuseram mudança na cláusula de institui a contribuição negocial, defendendo que a decisão sobre o percentual a ser descontado e a forma de contribuição sejam discutidos de maneira autônoma pelos sindicatos em assembleias de base. “Temos que garantir a decisão soberana em assembleias, envolvendo os trabalhadores nesse debate. São os bancários que sustentam as organizações sindicais e precisam participar dessa construção, se sentir responsáveis por ela. Essa decisão não pode ser implementada de cima para baixo, por decisão do Comando”, argumentou Goretti Barone, diretora do Sindicato/ES.
Homenagem
A Conferência Nacional prestou homenagem aos bancários e bancárias que faleceram vítimas da covid-19. Segundo levantamento feito pela Contraf junto aos sindicatos, 30 empregados de bancos públicos e privados já perderam suas vidas para a doença, incluindo dois capixabas, que também foram lembrados. A homenagem, feita em vídeo, ainda prestou condolências pelas mortes de trabalhadores terceirizados do sistema financeiro.
O momento foi de emoção para muitos participantes, e colocou em evidência os riscos cotidianos enfrentados pela categoria, que se mantém na linha de frente entre os serviços essenciais que funcionam durante a pandemia.
Moções
Os delegados da 22ª Conferência Nacional também aprovaram cinco moções. Uma em solidariedade às famílias das vítimas da covid-19; uma contra o racismo estrutural e pelo fim da violência policial; uma de repúdio ao Banco Santander; e uma de apoio ao meio ambiente, aos povos indígenas e aos quilombolas.


