CNFBB: adoecimento mental ganha destaque na mesa sobre saúde e condições de trabalho

06/06/2024 18:27

Contraf trouxe os resultados da pesquisa “Avaliação dos Modelos de Gestão e das Patologias do Trabalho Bancário”. A dirigente do Sindibancários/ES Bethania Emerick apresentou os dados (ainda parciais) sobre a pesquisa que está sendo feita em parceria com o Departamento de Psicologia da Ufes

Saúde e condições de trabalho foi um dos temas que mais envolveram as bancárias e bancários do BB (Foto: Contraf)

“Saúde e condições de trabalho” foi o tema da mesa dessa quarta-feira (05) do 34º Congresso Nacional dos Funcionários do Banco do Brasil (CNFBB). O secretário de Saúde da Contraf Mauro Sales apresentou os resultados da pesquisa “Avaliação dos Modelos de Gestão e das Patologias do Trabalho Bancário”, encomendada pela categoria ao Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (UNB) e que revela que o “adoecimento mental é uma verdadeira pandemia na categoria”, completou.

Antes de apresentar os dados da pesquisa, respondida por cerca de 5 mil bancários e bancárias, Mauro Sales falou do mecanismo do adoecimento hoje em voga nas empresas. “É um ciclo que envolve a busca por lucro, portanto induz à competição acirrada, com aumento do ritmo de trabalho e mais pressão por resultados e metas”. Mauro ressaltou ainda que existem estudos que mostram que mulheres e negros são os mais pressionados por esse ciclo de adoecimento.  

A maior parte (86,7%) dos respondentes da pesquisa Instituto de Psicologia da UnB declarou estar trabalhando no momento da pesquisa. E os principais dados revelados pelo trabalho são:

– 40,4% declararam já ter ido trabalhar mesmo com atestado médico recomendando afastamento do trabalho para tratamento;

– O principal motivo declarado para buscar tratamento médico foi o trabalho (54,5%), indicando uma medicalização do sofrimento no trabalho, o que pode causar graves danos à saúde;

– Quase metade dos respondentes (40,2%) declarou estar em acompanhamento psiquiátrico;

– Entre  os que estão em acompanhamento psiquiátrico, 91,5% estão utilizando medicações prescritas pelo psiquiatra;

– 76,5% declararam ter tido pelo menos um problema de saúde que considera relacionado ao trabalho no último ano;

– Mais da metade declarou estar em acompanhamento médico com outras especialidades (59,7%).

Bethania trouxe dados preliminares da pesquisa sobre saúde mental que está sendo concluída entre o Sindibancários e a Ufes no ES

Pesquisa no Espírito Santo
A dirigente Bethania Emerick apresentou dados sobre a pesquisa “Nossa Saúde Importa” – uma iniciativa do Sindicato dos Bancários/ES e do Departamento de Psicologia Social e do Desenvolvimento da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) . A pesquisa tem como objetivo identificar as situações de adoecimento mental das bancárias e dos bancários da base capixaba. 

Bethania afirmou, a partir de dados preliminares da pesquisa, que se encerra no próximo dia 16, que as metas e a sobrecarga de trabalho são as principais causas do adoecimento mental. Ela informou que no Espírito Santo, quase 40% dos respondentes já foram trabalhar com atestado médico; 68% fazem tratamento psicológico ou psiquiátrico; mais de 30% usam medicamentos controlados. Ansiedade em nível grave, depressão e estresse são os males mais citados pelas bancárias e pelos bancários. 

“Ansiedade, depressão e estresse são marcas indeléveis nos funcionários do BB causadas por esta gestão massacrante e adoecedora, que suga nossas forças físicas e mentais. Isso precisa mudar. A Cassi precisa nos apresentar os dados sobre adoecimento e nós precisamos ter essas informações para cuidarmos das nossas companheiras e companheiros”, sublinhou Bethania. 

Patologia da violência
Outro ponto ressaltado pela pesquisa da Contraf/UNB foi a chamada “patologia da violência”, caracterizada pela condição de desmotivação, falta de liberdade de expressão e de opções no trabalho, com indiferença entre colegas e a desconfiança entre chefia e subordinados: 54,8% dos entrevistados responderam que existe a presença intensa da patologia da violência em seus trabalhos; outros 13,4% afirmaram que a presença é modesta e 31,8% que há presença.

Sobre a “patologia da sobrecarga”, caracterizada pelo cansaço, desgaste, sobrecarga e frustração: 80,5% afirmaram haver presença intensa; 4,1% presença modesta e 15,4% presença dessa patologia.

Sobre os sintomas do adoecimento exposto na pesquisa, como sentimentos de tensão, incapacidade de relaxar, fadiga, agitação e irritabilidade: 55,5% afirmaram haver presença intensa; 12,9% presença modesta e 31,6% presença. 

“Não é normal esse nível de violência e pressão nos bancos. Precisamos elevar essa consciência entre nossos colegas, sobre esse modelo de gestão que é inaceitável. Em segundo lugar, precisamos dar visibilidade dessa situação não só entre os trabalhadores, mas entre a sociedade”, pontuou Mauro. “Esse tema tem que ser, de fato, prioridade em nossa campanha nacional”, reforçou.

Previdência
No período da manhã dessa quarta-feira (05) as funcionárias e os funcionários do BB acompanharam os debates sobre Previdência. A mesa abordou os desafios na proteção de recursos geridos para o futuro da classe trabalhadora e também para o desenvolvimento do país. 

O presidente da Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil (Previ), João Fukunaga, fez um balanço da conjuntura para os fundos de pensão fechados, sob ataque de setores privados, por meio de entidades reguladoras e do Congresso Nacional. “Há um forte interesse, das entidades financeiras privadas, em gerir os recursos acumulados pelos trabalhadores nos fundos de pensão fechados”, explicou. Atualmente, a Previ gerencia R$ 272 bilhões em recursos dos 200 mil associados e associadas, que são trabalhadores da ativa e aposentados do Banco do Brasil.

Previ e Cassi
O presidente da Previ ressaltou que a entidade está desenvolvendo discussões com a Caixa de Assistência dos Funcionários do Banco do Brasil (Cassi). “Essa é uma parceria fundamental, para olhar a integralidade dos nossos associados, não apenas o pagamento de benefícios, mas todas as suas necessidades. Por isso, estamos buscando uma solução conjunta, com a nossa caixa de assistência, visando, inclusive, uma coisa que o movimento sindical nunca abandonou, que é a estratégia de saúde da família”, concluiu.

Mais mulheres nos altos cargos
Paula Goto, diretora de Planejamento da Previ, comentou sobre a importância da presença feminina nos cargos mais altos do fundo. “A Previ vem aumentando consideravelmente a indicação de mulheres. Em 2015, elas eram apenas 12% das indicações. No último processo seletivo, a proporção chegou a cerca de 30%. Vale destacar que não apenas a diversidade de gênero é levada em consideração, mas também a de raça, de origem, idade e experiências.”

Delegação capixaba: (da esq./dir.): Bethânia, Nathália, Goretti e Igor

Repercussão
Membros da delegação capixaba que está acompanhando os debates do CNFBB, avaliaram os dois primeiros dias do evento que se encerra nesta quinta (06). Para a delegada Nathália Gallini, o Congresso apresentou mesas com assuntos importantes para a categoria. Ela elogiou a análise do ex-ministro José Dirceu sobre os desafios da sociedade e dos trabalhadores. “As mesas sobre Previdência, papel dos bancos públicos e saúde e condições de trabalho trouxeram informações importantes mostrando a necessidade de cuidado e atenção ao futuro e saúde dos funcionários e o quão importante é a presença de bancos públicos em locais onde os bancos privados lançam seu total desinteresse, bem como sua importância em situações de calamidades”. Ela ponderou que seria muito mais proveitoso se houvesse mais tempo para o debate e defesa de ideias e propostas para enriquecimento do Congresso.

Na avaliação do delegado Igor Chagas Silva os temas foram importantes, “mas poderiam ser melhor aproveitados se os painéis expositivos fossem a menor parte”. Para ele, a maior parte do Congresso deveria ser preenchida por grupos de trabalho e de discussão para democratizar as pautas e desenvolver uma proposta ainda mais abrangente.

“Os temas foram provocativos, além de contribuírem para o nosso enriquecimento, nos apontaram desafios e que para atuar precisamos considerar o processo histórico e a conjuntura”, resumiu Goretti Barone, dirigente do Sindbancários e membra da delegação.

Bethania Emerick. afirmou que sua análise estava alinhada à dos colegas. “Os temas foram relevantes para a categoria. Porém, o formato de condução das mesas abriu pouco espaço para manifestação e discussão entre os delegados e delegadas”, apontou. 

(Com informações da Contraf)