Lockdown, que na tradução livre para o português seria algo próximo a fechamento ou confinamento total, é palavra proibida no vocabulário das equipes do Governo do Estado envolvidas na gestão da pandemia. Ao anunciar o primeiro pacote de medidas mais brandas, que vigorou entre os dias 18 e 27 de março, o governador Renato Casagrande fez questão de enfatizar que se tratava de uma “quarentena”, não de um lockdown. Na semana seguinte, após anunciar uma versão mais restritiva, que teve início no último dia 28 e que se encerrou nesse domingo, 04, o chefe do Executivo estadual, mais uma vez, reafirmou que o conjunto de medidas mais dura era uma quarentena.
Na mesma linha dos principais cientistas brasileiros e estrangeiros, o Sindicato dos Bancários/ES vem fazendo a defesa pública, em campanhas nas redes sociais, rádios e TVs, do lockdown porque entende que apenas medidas mais duras conseguirão reduzir a circulação do vírus, aliviar a pressão sobre o sistema de saúde e evitar mais mortes. “Os modelos matemáticos, cada vez mais sofisticados, têm sustentado as teses desses cientistas, que repetem exaustivamente que o colapso generalizado do sistema de saúde, em praticamente todo o país, exige a adoção de um lockdown nacional. Como sabemos que hoje essa coordenação central do Governo Federal não existe, estados e municípios têm adotados medidas mais ou menos restritivas, mas foram raras as experiências de lockdown ou semi-lockdown, como alguns preferem classificar ”, assinala a diretora do Sindicato dos Bancários/ES Lizandre Borges.
Mortes evitáveis
De acordo com as projeções do GeoCovid – MapBiomas, se o Governo do Estado adotasse imediatamente o lockdown, poderia evitar 370 mortes até o final de abril, chegando ao total de 8.411 óbitos contra 8.781, que é a estimativa de mortes com base nas atuais taxas e medidas que estão sendo adotadas. Caso o governador optasse por suspender hoje todas as medidas de restrição, o modelo projeta 9.291 mortes até 31 de abril.
As projeções do quadro abaixo partem do total de 7.672 mortes e 388.600 casos acumulados em 05/04/21.

Adoção do lockdown como medida efetiva para reduzir a circulação do vírus tem se comprovado em vários países e até mesmo no Brasil, ainda em experiências isoladas, é verdade. Talvez Araraquara, no interior de São Paulo, tenha sido um dos poucos municípios brasileiros a adotar o lockdown no sentido estrito da palavra. “Os resultados do lockdown de ‘verdade’ foram colhidos no município paulista, que zerou as mortes nos últimos dias e reduziu a pressão sore o sistema de saúde, que entrou em colapso no final de fevereiro. É orientado pela comunidade científica, pelas experiências exitosas e observando os modelos de projeção, que o Sindicato defende o lockdown como única medida neste momento capaz de reduzir as mortes. Para o Sindicato, evitar mortes deveria ser uma obsessão das autoridades, da classe empresarial e de toda a sociedade de maneira geral”.
Quarentena falhou
Se avaliarmos que a quarentena do Governo Estado tinha como meta conter as curvas de novos casos para reduzir a pressão sobre o sistema de saúde e evitar mortes, aponta Lizandre, “podemos dizer que as medidas não funcionaram até agora”. De acordo com a dirigente, com base nos dados do GeoCovid-MapBiomas, no dia 18 de março, quando teve início a quarentena na sua versão mais flexível, o Espírito Santo registrava média móvel de 27 mortes; esse número quase dobrou ao final da primeira fase da quarentena (27/03); chegando a 50 no dia 28 de março, início da fase mais restritiva; e fechou a quarentena com 56 óbitos de média móvel.

“Os dados são inequívocos. Apontam que as medidas, pelos menos em relação ao número de mortes, ainda não tiveram efeito. Se analisarmos nos mesmos intervalos temporais as médias móveis de novos casos, constataremos que também houve aumento”. No dia 18 de março, eram 1.777 casos de média móvel; no dia 4 de abril, 2.095” .
Sistema colapsado
Em live em março, logo após o Governo do Estado anunciar a quarentena, a epidemiologista Ethel Maciel afirmou que o sistema de saúde já estava colapsado após ultrapassar 90% de ocupação. “É preciso dizer que o sistema de saúde já colapsou”, enfatizou à ocasião a professora da Ufes.
Do dia 18 para cá, essa taxa se mantém em alta. Nesta segunda, 05, estava em 95%. “Essa taxa só não rompeu 100% porque o Governo antecipou a abertura de leitos, inicialmente prevista para abril”. O governador Renato Casagrande abriu quase 100 leitos de UTI nas últimas semanas, saltando para 958 vagas. “O problema é que hoje não ha nem 50 leitos disponíveis em todo o Estado. Casagrande promete criar mais 200 leitos até o final de abril, mas ele mesmo admitiu que a falta de profissionais de saúde e de insumos podem ser um entrave para pôr esses novos leitos para funcionar”, adverte a dirigente.
Caso o governador não tivesse antecipado a abertura de novos leitos, o Estado estaria com ocupação acima de 100% há alguns dias. “Os números são incontestáveis. O sistema só não estourou de vez em função desses novos leitos, mas isso também tem um limite. Como o próprio governador admitiu, vão faltar profissionais especializados em UTIs e insumos. Aliás, governadores e prefeitos Brasil afora estão atrás desses mesmos recursos, que se tornaram raros por causa do colapso generalizado do sistema”.
Para além dos modelos matemáticos, prossegue Lizandre, a realidade nos mostra que o lockdown é uma medida urgente e necessária neste momento mais agudo da crise sanitária. “Hoje mesmo [05] o Espírito Santo bateu novo recorde: são 95 mortes em 24 horas, ou uma morte a cada 15 minutos. Não podemos aceitar a adoção de medidas que não são suficientemente efetivas para evitarmos mais mortes. Até qunado vamos continuar batendo recordes? Como nos ensina mais uma vez a ciência, cada morte que pudermos evitar é muito importante. Essa tem de ser nossa obsessão sempre”, finaliza.
Imagem capa: reprodução TV Gazeta

