Na semana passada, Bradesco e Santander divulgaram os resultados do segundo trimestre, justificando que os lucros encolheram devido à crise sanitária. Solidária, a imprensa corporativa tratou a redução dos lucros como perdas. Alguns jornais foram mais longe, afirmaram que os bancos são “as mais novas vítimas da pandemia do novo coronavírus”. Nessa segunda, 03, foi a vez do maior banco privado do país divulgar seus resultados. Como os concorrentes, o Itaú também exaltou a queda nos lucros. Informou que apurou lucro de R$ 3,4 bilhões, resultado 49,8% menor em relação ao segundo trimestre de 2019.
“Com um Provisionamento de Devedores Duvidosos (PDD) de R$ 7,6 bilhões, podemos dizer que o lucro do Itaú ‘caiu’ para cima”, afirma Carlos Pereira de Araújo (Carlão). O membro do Comando Nacional dos Bancários ressalta que o Itaú repetiu a estratégia do Bradesco e Santander de reforçar o PDD. “Ao aumentar o valor da reserva, consequentemente, o lucro reduz. É preciso destacar que esse valor de R$ 7,6 bilhões é quase o dobro do montante provisionado em 2019. Os bancos estão recorrendo a essa estratégia para tentar se credenciar como vítimas da pandemia. Eles apostam que essa narrativa pode sensibilizar a opinião pública. A sociedade precisa saber que os bancos brasileiros, com ou sem crise, desconhecem o que é prejuízo. Longe disso. Os bancos continuam lucrando e muito”.
Carlão aponta que o Itaú, em 2019, apurou lucro recorde de R$ 26,583 bilhões, um crescimento de 6,4% na comparação com 2018 (R$ 24,977 bilhões). “A retrospectiva dos ganhos do Itaú confirma que não há crise para os bancos”. (Veja resultados abaixo).
O dirigente chama atenção para o fato dessa reserva reforçada reduzir o valor sobre a PLR. “Quem perde com essa jogada dos bancos é mais uma vez o trabalhador, que vai sentir no bolso. O trabalhador sim terá prejuízos”. Ele afirma que a reserva continuará com os bancos, uma vez que as projeções de perdas com os supostos calotes causados pelos efeitos da pandemia sobre a economia estão superestimadas.
“Apesar das projeções pessimistas dos bancos, prevendo perdas com a pandemia, o que os dados mostram é a queda do índice de inadimplência”. No período analisado (segundo trimestre de 2020), continua Carlão, o índice de atraso acima de 90 dias ficou em 2,7%, ou seja, o banco registrou queda da inadimplência. “Ignorando os fatos, o Itaú tenta justificar que o número não reflete o cenário adverso”.
À imprensa, o banco alegou que “seu esforço para ajudar os clientes”, celebrando acordos com os devedores, levou os índices de inadimplência a patamares que não eram registrados desde a fusão com o Unibanco, em novembro de 2008.
“A frieza dos números contesta essa narrativa catastrófica de perdas projetadas pelos bancos. A queda da inadimplência não justifica o aumento do PDD. Fica patente a estratégia dos bancos de se aproveitarem da pandemia para tentar melhorar a imagem junto à sociedade de empresas que estão pondo o lucro na frente das vidas”, critica.
Nessa estratégia desvelada por Carlão, o Itaú doou R$ 1 bilhão para o projeto “Todos pela Saúde” – campanha de auxílio à pandemia. Do montante, R$ 834 milhões foram deduzidos do resultado trimestral do banco. O valor foi desconsiderado, porém, no lucro recorrente do banco (que descarta despesas extraordinárias, como as doações). Com essa medida, o Itaú lucrou na verdade R$ 4,2 bilhões no segundo trimestre.


