
Em audiência pública na Comissão de Trabalho da Câmara dos Deputados realizada nesta semana para tratar das condições precárias de trabalho no Banco do Brasil, a deputada federal Érika Kokay (PT/DF) propôs a formação de uma comissão de deputados que integram a Frente Parlamentar em Defesa dos Bancos Públicos para buscar a direção BB a fim de debater as questões apresentadas, que revelam a grave situação no banco federal. Também foi sugerida a realização de reuniões com a Associação Nacional dos Magistrados do Trabalho (Anamatra) e com a Associação Nacional dos Procuradores do Trabalho para tratar do adoecimento dos funcionários do banco.
A audiência foi presidida pela deputada Kokay, autora do pedido, que destacou a importância da discussão tendo em vista as condições precárias enfrentadas pelo corpo funcional do BB. Além da deputada, os parlamentares Reimont (PT-RJ) e Bohn Gass (PT-RS) ressaltaram a importância da defesa da categoria bancária e do Banco do Brasil.
Ausências
Os diretores de Varejo e de Tecnologia do BB foram convidados para a audiência, mas não compareceram e apenas enviaram carta dizendo que não poderiam estar presentes e renovaram suas considerações ao trabalho da Comissão. “Eu penso que se o banco estivesse realmente à disposição [para dialogar] estaria aqui; o fato de não estar aqui significa que não quer escutar e não quer trabalhar na perspectiva de construirmos soluções para os problemas que aqui estamos enfrentando”, afirmou Kokay.
Inova no ES

Gleide Pereira falou do Inova no ES – Foto: Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados
Durante a audiência, os prejuízos para clientes e bancários do Inova Varejo, projeto-piloto de reestruturação do BB implantado em 2024 no Espírito Santo, foram apresentados pela diretora do Sindicato dos Bancários de Brasília Gleide Oliveira. No final do ano passado, ela esteve em Vitória, a convite do Sindibancários/ES e acompanhada por outros dirigentes sindicais que são funcionários do BB, para analisar o que estava acontecendo aqui a partir do piloto do que o banco chamou de projeto de inovação de operações e atendimento ao cliente.
“Fizemos diversas visitas às agências, à Superintendência e a outros locais de trabalho, conversamos com funcionários, clientes e público externo. Com relação aos clientes, eles relataram que se sentiam excluídos, porque tinham contato diretamente com o gerente da conta, de forma presencial, ou seja, a pessoalidade do atendimento foi mudada. Chegavam à agência e eram orientados a procurar o aplicativo do banco. E muitos clientes não são digitais. Então foi um processo de exclusão de clientes no nosso banco que é público, de economia mista, não uma empresa privada. Temos que defender o atendimento à nossa sociedade que ainda é muito carente”, afirmou Gleide.
Ela também falou da situação dos funcionários do BB: “Verificamos o estresse dos bancários, porque aqueles clientes que eram gerenciados nas agências passaram para uma plataforma digital e os bancários tinham que contatar os clientes por telefone e WhatsApp. Muita gente nem aceita ligação telefônica ou mensagem por conta dos golpes, causando estresse nos bancários para o atingimento de metas. Nosso corpo funcional está doente e estressado no seu trabalho”.
Tecnologias
Professora da Universidade de Brasília (UNB), a convidada Ana Magnólia Mendes apresentou resultados de pesquisas realizadas no Departamento de Psicologia Social e do Trabalho da UNB que revelam no BB “uma gestão que se impõe pelo medo”. Magnólia destacou que está em curso o desmonte da gestão de pessoal no Banco do Brasil e que a direção do banco tem feito uso de tecnologias como inteligência artificial para seleção, gestão e treinamento de pessoal, buscando extrair o máximo da força de trabalho dos funcionários. Ela usou o conceito de tecnofeudalismo (criado por teóricos para explicar o monopólio dos conglomerados digitais e sua capacidade de controlar as atividades sociais) para falar do momento atual, em que a tecnologia está gerindo metas e sofrimento. “O medo da exclusão e de perder comissionamentos tem provocado grandes riscos psicossociais, levando a uma degradação do ambiente de trabalho”, disse a pesquisadora.
Ao longo da audiência, dirigentes sindicais bancários apresentaram pontos importantes que revelam como o BB tornou-se um local de trabalho adoecedor e está cada vez mais se distanciando do seu papel social. Todos foram unânimes em afirmar que o adoecimento psicossocial tem crescido de maneira assustadora, com a atual direção do Banco do Brasil impondo as mesmas condições de um banco privado. A estratégia do banco tem sido favorecer os acionistas, não os interesses da instituição que deve servir ao povo brasileiro.
A diretora do Sindibancários/ES Bethania Emerick, que acompanhou a transmissão da audiência, destacou alguns momentos do evento, como a discussão sobre a mudança de estratégia corporativa do BB a partir de 2016, após o impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Segundo Bethania, os documentos do banco passaram a definir a instituição como um “banco de mercado com espírito público”. Ao longo do tempo, diz a dirigente sindical, “a lógica privatista foi se arraigando e hoje nem aparece essa menção ao espírito público nos documentos, ou seja, a direção do BB abandonou de vez a missão social do nosso banco, o banco dos brasileiros e brasileiras”.
Outro ponto importante foi sobre o que o corpo funcional esperava a partir da terceira eleição de Lula como presidente do Brasil. “A expectativa era de retomada do BB público e humanizado, isso não aconteceu. Os funcionários sentem muito as exigências de metas inalcançáveis e a pressão que leva ao medo e ao adoecimento”. Igor Chagas, também diretor do Sindicato, complementa: “As metas vão sempre dobrar para atender ao mercado, e o BB vai deixando sua função pública”.
Na avaliação de Bethania, a realização da audiência foi fundamental, pois o adoecimento de bancários resultante de gestões assediadoras é um problema generalizado na categoria. “Há tempo estamos buscando soluções. A partir dessa audiência, com a proposta de articulação da Frente Parlamentar em Defesa dos Bancos Públicos, abre-se a possibilidade de construção de uma ponte para a melhoria das condições de trabalho no BB, o que pode repercutir em outros bancos”.

