
Mesa de análise de conjuntura
Com um viva à classe trabalhadora, a coordenadora-geral do Sindicato dos Bancários, Rita Lima, declarou aberta a Conferência Estadual dos Bancários e das Bancárias do Espírito Santo na noite desta sexta-feira, 3, no Hotel Flamboyant, em Guarapari. O evento vai até domingo, 5, reunindo trabalhadores de bancos públicos e privados.
Na mesa de abertura, Rita Lima lembrou que no evento do ano passado estávamos na expectativa de derrotar Bolsonaro nas urnas. “Conseguimos derrotá-lo, mas não derrotamos o bolsonarismo. Nossa campanha vai se dar nesse ambiente em que a extrema-direita ainda nos ameaça e ataca os direitos dos trabalhadores”, afirmou
Para a coordenadora do Sindicato, nessa Campanha Salarial os bancários têm a responsabilidade de pressionar banqueiros e governo para garantir direitos, avançar nas conquistas: “vamos cobrar dos governos federal e estadual os compromissos assumidos com os trabalhadores e com a categoria bancária. Tenho certeza que os bancários e bancárias vão honrar sua história de luta. Entendemos que é fundamental derrotar a reforma trabalhista e da Previdência e lutar contra a carestia. Não podemos ser cúmplices dessa tragédia que são milhões de trabalhadores passando fome. Hoje e amanhã estaremos discutindo, debatendo, nos capacitando para ir para a luta”, afirmou.
Representando a Intersindical, o diretor do Sindicato Carlos Pereira de Araújo falou da expectativa de um calendário de lutas, organização e mobilização para construir nossos caminhos na perspectiva de vitória. “Só a luta nos garante”, disse.
O diretor da Federação Interestadual dos Bancários do Rio de Janeiro e Espírito Santo (Fetraf) Nilton Damião falou do orgulho de ter os bancários do Espírito Santo na base da Federação e destacou a participação da categoria no evento.
Após a abertura, que contou também com a presença do vereador do PSOL de Vitória, André Moreira, aconteceu a leitura do Regimento Interno e a mesa de conjuntura internacional, nacional e estadual.
Conjuntura internacional
A crise estrutural do capitalismo é o pano de fundo dos acontecimentos da atualidade marcada pela bipolarização interimperialista, com as potências mais tradicionais lideradas por EUA, Japão e União Europeia, de um lado, e China e Rússia, de outro. A avaliação é do escritor e professor da Universidade Federal da Bahia Jorge Almeida, que falou na mesa de conjuntura da Conferência.
A bipolarização, afirma Almeida, seja de ordem militar ou de ordem econômica, tem dois elementos fundamentais na disputa pela hegemonia do capitalismo. Um deles envolve a vanguarda tecnológica, especialmente a produção de microchips, o que tem provocado uma disputa entre as grandes potências. Está também em disputa a moeda que vai prevalecer para as reservas monetárias e o comércio entre países. “Do ponto de vista da moeda, a China está bem atrás nesse processo de disputa, enquanto na área tecnológica, nós temos duas forças com capacidade de disputa muito semelhantes”, afirma Almeida.
Ele destaca que a polarização não é uma disputa por modos de produção diferentes. “Não é um projeto socialista da China versus um projeto capitalista dos Estados Unidos; os próprios chineses chamam de socialismo de mercado ou socialismo com as características chinesas. No fundamental, o modelo chinês tem todas as características de um modo de produção do capitalismo”, fala.
O professor afirma que a crise ambiental que atinge todo o mundo está articulada a essas questões, pois o capital se torna mais agressivo ao meio ambiente. “Não haverá respostas à crise ambiental nem à crise econômica dentro do capitalismo”. Ele também destaca os conflitos regionais, como a guerra na Ucrânia, como consequência da disputa imperialista entre Rússia e EUA. “Dentro disso também situa-se o genocídio dos palestinos na Faixa de Gaza. É uma guerra de longo prazo, mas se incorpora aos interesses da crise atual do capitalismo”.
Conjuntura nacional
A crise capitalista tem reflexos também no Brasil. “Somos um país dependente, com uma economia mais primarizada, que mantém a desigualdade social. Para não ir muito atrás no ponto de vista histórico, desde o fim do regime militar todos os governos que nós tivemos não conseguiram enfrentar essa tendência de desnacionalização da economia, de privatização da economia e, nesse sentido, de reforço da hegemonia burguesa do nosso país”, afirma o professor.
Por outro lado, as forças liberais e o PT não conseguiram responder às demandas populares, o que acabou criando as condições para que uma extrema-direita se colocasse como uma força política, governou o país por quatro anos e, apesar de ter perdido as últimas eleições, ainda continua com força significativa na sociedade. “E essa força se alimenta de quê? Ela se alimenta do fracasso da direita liberal clássica, ela se alimenta do fracasso que vem do governo neoliberal de responder às demandas populares, e ela se alimenta de um discurso antissistema altamente demagógico da extrema-direita apesar de nós sabermos que é a extrema-direita que está mais profundamente, digamos, visceralmente vinculada àquilo que é o sistema político tradicional brasileiro”, pondera.
Enfrentar a direita e a extrema-direita não será com conciliação nem temendo a polarização, mas com a mobilização popular, conlui o professor.
Conjuntura estadual
A deputada estadual pelo PSOL, Camila Valadão, refletiu sobre a situação no Espírito Santo, lembrando que os eventos extremos que vitimaram a população de Mimoso do Sul são resultado da crise ambiental inserida na crise estrutural do capitalismo. “O Estado do Espírito Santo tem uma parte considerável de seu território, principalmente na região norte, composto basicamente de eucalipto. 30% da vegetação capixaba são eucalipto. Eucalipto não contribui para os processos de equilíbrios climáticos. O que contribui para isso? Vegetação nativa. Não é por acaso o que aconteceu em Mimoso do Sul, na região sul do nosso Estado. E não será por acaso o que acontecerá cada vez mais na região norte”.
Camila ressaltou o modelo político-econômico há mais de vinte anos em vigor no Espírito Santo pautado no extrativismo, inclusive sobre territórios quilombola e indígena. “Áreas que deveriam ser da agricultura familiar, porque produzir alimentos deveria ser fundamental, mas está lá o extrativismo da celulose, o petróleo, o gás. A gente está falando de um estado que do ponto de vista econômico, cada vez investe mais em uma vocação exportadora, e não por acaso Estados Unidos e China são os principais parceiros econômicos internacionais do Espírito Santo. A meta é ter aproximadamente 26 portos ao longo da nossa costa. Vai sobrar o que do nosso mar? o que da pesca? O que das populações que vivem e retiram do mar o seu alimento?”, questionou.
Do ponto de vista político, a deputada lembrou o conservadorismo presente em terras capixabas, com a vitória de Bolsonaro aqui com mais de 60% dos votos na última eleição, de uma Assembleia Legislativa também conservadora e de um governador do Estado que quer privatizar parques estaduais.
Para enfrentar esse cenário e a extrema-direita a deputada afirma: “eu tenho certeza que não é se calando, eu tenho certeza que não é negociando, abrindo mão de pautas e de bandeiras, porque a gente só contribui para o avanço político do debate disputando as nossas posições e dialogando, dialogando em um momento onde o diálogo parece não mais existir”.
Fotos: Sérgio Cardoso

