Consenso: Caixa precarizou as condições de trabalho nos últimos anos

02/08/2021 16:32

Durante a mesa, foram apontadas as diferenças entre home office e teletrabalho. Metas abusivas, assédio, acesso do Sindicato aos trabalhadores em home office, controle de jornada e horas extras foram outras questões debatidas

Houve consenso entre os participantes do congresso específico da Caixa, no último sábado, 31, dentro da Conferência Estadual: as condições de trabalho foram precarizadas nos últimos anos, sobretudo de 2016 para cá.

Esse processo de precarização tem se intensificado ainda mais durante a pandemia. Um dos pontos bastante debatidos foram as diferenças entre home office e teletrabalho. Metas abusivas, assédio moral, a dificuldade de acesso dos Sindicato aos trabalhadores em home office e o controle de jornada e horas extras foram outras temáticas que estiveram no centro dos debates.

Dirigente do Sindicato do ABC, Apcef-SP e integrante da Comissão Executiva dos Empregados da Caixa (CEE/Caixa), Jorge Luiz Furlan, um dos convidados da mesa, afirmou que a pandemia trouxe à tona as péssimas condições de trabalho. Ele lembrou com pesar dos mais de 100 bancários e bancárias da Caixa que perderam suas vidas para a covid em todo o país. “A pandemia foi anunciada e acordamos em home office. Estamos discutindo com a Caixa neste momento as condições para a implantação do teletrabalho no pós-pandemia”.

Home office X teletrabalho

Muitos trabalhadores acham que a diferença entre home office e teletrabalho se restringe a à questão semântica. Furlan explicou que o home office foi adotado durante a pandemia com o propósito de proteger as vidas dos trabalhadores. Já o teletrabalho é uma outra discussão, consequência da consolidação dessa modalidade de trabalho depois da pandemia.

Para a coordenadora-geral do Sindicato dos Bancários/ES, Rita Lima, é preciso fazer um amplo debate para diferenciar o home office como medida de emergência da pandemia e  o teletrabalho como está previsto na reforma trabalhista. “Nos dois casos precisamos exigir o controle da jornada de trabalho. É importante enfatizar que o home office não foi escolha, mas uma imposição da pandemia. Já no pós-pandemia, o teletrabalho tem de ser uma escolha do empregado e da empregada. São situações completamente distintas”, assinalou a dirigente.

Controle de jornada

Furlan compartilhou do mesmo entendimento sobre a necessidade de se assegurar o controle de jornada. O dirigente ressaltou que a tecnologia oferece ferramentas que facilitam esse controle de jornada. Ele citou o recurso usado pelo Itaú, que derruba o acesso do trabalhador ao sistema ao término da jornada. “Se o bancário estiver no meio de uma venda, vai precisar formalizar um pedido prévio para manter o acesso ao sistema, que pode ser estendido por no máximo mais 30 minutos. Neste mundo tecnológico tudo pode se resolver, para o bem e para mal. Mas não dá para trabalhar sem controle de jornada”.

Furlan ainda alertou para as ciladas que estão sendo armadas no campo do teletrabalho. “A Caixa insiste que o controle de jornada deve ser negociado trabalhador a trabalhador”. Segundo o dirigente, individualmente, o banco vai tentar “convencer” o empregado se ele prefere o controle de jornada ou a jornada livre. “Precisamos tomar cuidado com essas armadilhas. Temos que construir esse acordo do teletrabalho com muita cautela”, recomendou.

Ele acrescentou ainda que no home office o trabalhador dorme e acorda dentro da “empresa”. “Precisamos ter isso tudo muito bem escrito e mesmo assim vai ser difícil essa negociação. Vivemos hoje no Brasil um capitalismo selvagem”.

Metas abusivas

As metas abusivas e consequentemente o assédio e o adoecimento têm se agravado durante a pandemia e por isso foi um dos temas em discussão na mesa. Furlan relembrou da imposição de metas abusivas durante a venda das ações da Caixa Seguridade. “Pressionaram o empregado para vender e para comprar as ações. Até adiantamento de salário ofereceram”. Furlan disse que a cobrança por metas abusivas voltou com toda a força agora com o Pronampe (Programa Nacional de Apoio às Microempresas e Empresas de Pequeno Porte).

O diretor do Sindicato Igor Bongiovani lembrou que a Caixa continua impondo metas abusivas em meio à pandemia. Ele contou que o ano passado foi traumático para muitos colegas que sofreram pressão do vírus e da Caixa. Igor relatou que ficou na triagem e sofreu ameaças constantes de clientes. “Registrei oito boletins de ocorrência. Todos de agressão que sofri na triagem”. O dirigente também concorda que o Pronampe tem aumentado bastante a pressão por resultados.

Espaços educativos

Para Rita Lima, é preciso nivelar o conhecimento sobre home office e teletrabalho. Ela sugeriu a criação de espaços educativos que expliquem para o trabalhador o que está de fato acontecendo. A dirigente destacou que o empregado e a empregada da Caixa precisam entender a RH 226, vigente até 31 de dezembro, que criou, na esteira da reforma trabalhista, os novos modelos chamados Trabalho Remoto e Mobilidade Caixa. “A Caixa se aproveitou da pandemia para juntar a fome com a vontade de comer. Para Caixa, não há diferença entre home office e teletrabalho, mas sabemos muito bem que são questões muito diferentes”.

Dentro da proposta de se criar espaços educativos para debater o tema, Furlan sugeriu que a organização de seminários poderia ser uma proposta interessante para levar à CEE/Caixa.

Encaminhamentos

Ao final da mesa, Rita Lima fez os encaminhamentos. A dirigente, a partir das discussões, destacou que os participantes foram unânimes sobre a piora das condições de trabalho na Caixa nos últimos anos. Além do home office e teletrabalho, metas abusivas, assédio moral, a dificuldade de acesso dos Sindicato aos trabalhadores em home office e o controle de jornada e horas extras foram os pontos levantados como encaminhamentos e apresentados à mesa geral no fechamento da Conferência Estadual.

Foram definidos também os sete delegados e delegadas que representarão o Sindicato na 37a Conecef, que acontece nos dias 6 e 7 de agosto. Além de uma representante dos aposentados, foram escolhidos três homens e três mulheres. Fechando a delegação em sete membros e mais dois suplentes.