Bancárias e Bancários que responderam à Consulta Nacional 2023, que avalia anualmente as condições de trabalho, apontaram as metas como a principal causa do adoecimento da categoria. Segundo o levantamento, preocupação constante com o trabalho (68%); cansaço e fadiga constantes (61%); desmotivação, vontade de não ir trabalhar (52%); e crises de ansiedade/pânico (46%) foram algumas das respostas com maior incidência (quadro abaixo). A pesquisa é organizada pela Contraf com o apoio das federações, sindicatos e do Comando Nacional dos Bancários. 

“Se observarmos os indicadores, vamos perceber que quase todos se encaixam na síndrome de burnout, que nada mais é que o esgotamento profissional. A categoria está adoecida em função desse ambiente de trabalho tóxico que caracteriza os bancos. As metas impõem um clima de disputa permanente. Essa pressão por ranqueamento e resultados fere os princípios da solidariedade e dignidade que deveriam orientar as relações humanas no ambiente de trabalho”, adverte o dirigente Ronan Teixeira, que está à frente da Secretaria de Saúde e Condições de Trabalho do Sindicato dos Bancários/ES.

A síndrome de burnout, ou síndrome do esgotamento profissional, citada por Ronan, é um distúrbio psíquico descrito em 1974 pelo médico norte-americano Freudenberger. O transtorno está registrado no grupo 24 do CID-11 (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde) como um dos fatores que influenciam a saúde ou o contato com serviços de saúde, entre os problemas relacionados ao emprego e desemprego.

Dirigentes do Sindibancários/ES durante ação da campanha Menos Metas, Mais Saúde (Foto: Sérgio Cardoso)

O dirigente lembra que a campanha nacional “Menos Metas, Mais Saúde” foi proposta justamente para chamar a atenção para o adoecimento em massa da categoria. A categoria bancária, como temos alertado na campanha junto à base capixaba, representa cerca de 1% do emprego formal no Brasil, mas é responsável por 25% dos afastamentos acidentários pelo INSS por doenças mentais e comportamentais. Ronan destaca que em São Paulo, estado que emprega a maior fatia de bancários do país, 82% dos afastamentos acidentários (B91) de bancários são por doenças mentais. Além disso, 100% dos bancários que procuram diariamente a Secretaria de Saúde apresentam quadros de depressão, ansiedade ou burnout. “Esses dados de São Paulo são muito parecidos com os do Espírito Santo e, creio, com os de outros estados brasileiros. É muito raro hoje em dia encontrar um bancário com quadro de adoecimento que não apresente alguma doença mental, como burnout, ansiedade ou depressão”, assinala Ronan. 

Os participantes da Consulta Nacional apontaram ainda as medidas prioritárias para criar um ambiente de trabalho mais saudável, ético, cooperativo e respeitoso. As três mais citadas foram a definição das metas, levando em consideração o porte da unidade, a região, o número de empregados, a carteira de clientes, o perfil econômico, etc; em períodos de redução do quadro de trabalhadores na unidade (férias, afastamentos, licenças), as metas devem ser proporcionalmente readequadas; e maior participação dos bancários na definição das metas e mecanismos de aferição (quadro abaixo). 

Para Ronan, esse ambiente hostil de trabalho precisa ser alterado urgentemente para cessar os danos à saúde física e mental do trabalhador. Ele recorda que durante a Conferência Estadual dos Bancários e das Bancárias 2023, a professora do Departamento de Psicologia da Ufes Roberta Belizário Alves alertou que não basta o trabalhador recorrer a subterfúgios para tentar amenizar os gatilhos do adoecimento se não houver transformações profundas nas condições de trabalho. 

Para a psicóloga, cuidar do estresse, com ações individuais, é bom, mas não resolve o problema. “Tem que tocar no ponto central, que são as condições de trabalho que produzem aquele adoecimento. Porque se você faz ioga, relaxamento, mas a meta continua lá, você vai melhorar?”, questiona.