Governo confirma IPOs e anuncia fechamento de agências da Caixa

27/01/2021 20:55

O presidente da Caixa afirmou que vai vender o banco em fatias. As áreas de seguridade, cartões, gestão de recursos (asset), loterias e banco digital estão no alvo do Governo. Pedro Guimarães disse ainda que pretende fechar agências em cidades com menos de 40 mil habitantes

Desde o início do Governo Bolsonaro, o ministro Paulo Guedes não esconde que o principal (e aparentemente único) projeto da equipe econômica é privatizar as empresas públicas. Os alvos preferenciais do ministro são cinco gigantes: Caixa, Banco do Brasil, Petrobras, Correios e Eletrobras. Esse, aliás, é o compromisso de Guedes com as elites empresariais, que evitam criticá-lo de olho nos ativos das empresas públicas.

A pandemia, entretanto, frustrou os planos de Guedes de acelerar o processo de privatizações em 2020. Pesou também a guinada política do Planalto. Ao perder o controle do Congresso, Bolsonaro decidiu se aliar ao fisiológico centrão, que passou a incluir as empresas públicas na política do “toma lá, dá cá”, obrigando o presidente a frear as privatizações.

Mas com a vacinação da covid iniciada em diversos países e com a perspectiva de definição dos processos sucessórios na Câmara e no Senado, Guedes, pressionado pelo mercado, voltou a empurrar o processo de privatizações esta semana. Nessa terça-feira, 26, a grande imprensa repercutiu as declarações do presidente da Caixa, Pedro Guimarães, que confirmou a retomada da oferta inicial de ações do banco na Bolsa (IPO, na sigla em inglês). Ele afirmou que banco pretende vender em fatias, ou seja, em percentuais, cinco subsidiárias da Caixa: seguridade, cartões, gestão de recursos (asset), loterias e banco digital.

Para a diretora do Sindicato dos Bancários/ES Rita Lima, o anúncio não surpreende porque o processo de desmonte da Caixa é uma meta deste Governo. “A Caixa está sob ataque desde o primeiro dia do Governo Bolsonaro. Guedes e companhia querem se apropriar de uma das empresas públicas mais estratégicas e lucrativas do país. As entidades sindicais, as associações de empregados e os bancários e as bancárias têm se mantido mobilizados e em vigília para evitar o desmonte da Caixa. Precisamos, mais do que nunca, contar com apoio da população para evitar que esse patrimônio quase bicentenário seja tomado do povo e entregue ao setor privado”, adverte a sindicalista.

Segundo Rita Lima, fatiar as subsidiárias e vendê-las em pedaços foi o atalho encontrado pela equipe econômica para burlar a Constituição e privatizar os principais ativos do banco em fatias, sem o aval do Congresso. “A sociedade precisa entender o que está em jogo. O Governo Bolsonaro quer rifar uma empresa 100% público que possui mais de 146 milhões de clientes, ou seja, quase 70% dos brasileiros têm conta na Caixa; é o único banco presente em 97% dos 5.570 municípios dó país; além de ser o maior banco em originação de crédito, com carteira de R$ 780 bilhões”.

Fechamento de agência

Além de anunciar as IPOs para este ano, Pedro Guimarães também afirmou que pretende fechar agências da Caixa em cidades pequenas. Ele disse que o plano é fechar agências em municípios com menos de 40 mil habitantes para reduzir os gastos do banco e torná-lo mais competitivo.

A dirigente avalia a medida, caso se confirme, como uma verdadeira tragédia para as economias dos municípios menores, justamente os que têm economias mais frágeis. “Prefeitos, vereadores, deputados, senadores, associações comerciais, de agricultores e os cidadãos de maneira geral precisam dizer ao Governo Bolsonaro que não aceitam o encolhimento do banco. Esse desmonte vai acabar de vez com as economias já combalidas desses municípios”.

Rita Lima diz ainda que a Caixa é o único banco que está presente hoje em cerca de 5.400 dos 5.570 municípios brasileiros. “Se esse plano irresponsável se consumar, será um verdadeiro caos para estados e municípios. Basta olhar para o caso do Espírito Santo. Dos 78 municípios capixabas, apenas 14 têm população superior a 40 mil habitantes. O Governo Bolsonaro não quer acabar só com a Caixa, mas com o país”, alerta a dirigente.

A dirigente acrescenta que ao esfacelar a Caixa, liquidando seus principais ativos, a veia social do banco, que financia políticas públicas vitais como habitação saneamento e infraestrutura, fica inviabilizada. “O encolhimento da Caixa não permitirá mais que o banco público cumpra seu papel social. É isso que está em jogo. Este Governo ultraliberal que comando hoje o país é adepto do estado mínimo. A estratégia é sucatear as empresas públicas e tratá-las como elefantes brancos, verdadeiros estorvos fiscais que minam os cofres públicos e que, portanto, precisam ser urgentemente vendidas. Essa é a falácia barata que Guedes tem usado para justificar a venda de empresas públicas”, critica.

Contradição

“A Caixa nunca ganhou tanto dinheiro com imobiliário. Nesse ano, vai ter menor taxa de inadimplência em 160 anos”. A afirmação é do presidente da Caixa ao jornal Valor Investe. Ele acrescentou que a carteira de crédito imobiliário atingiu R$ 500 bilhões, sendo R$ 116 bi neste ano. Guimarães também projeta lucro recorde da Caixa em 2020.

“Contra fatos não há argumentos. O próprio presidente da Caixa admite em números a robustez do banco, que deve registrar lucro recorde em plena pandemia. Essa é mais uma prova irrefutável de que a venda da empresa pública não se justifica. Esses resultados, têm de ser creditados aos bancários e às bancárias da Caixa, que não se furtaram em enfrentar o vírus para fazer o auxílio emergencial e outros benefícios sociais chegarem a milhões de brasileiros, sobretudo os mais vulneráveis. Graças a esse trabalho monumental dos empregados, os efeitos socioeconômicos da pandemia foram mitigados. Além disso, o corpo de empregados ainda manteve todas as operações do banco, sobretudo as de crédito, funcionando plenamente. Isso é competência, profissionalismo e compromisso com o propósito social da Caixa. Bolsonaro, Guedes e Guimarães querem acabar com todo esse importante trabalho que faz a diferença na vida de milhões de brasileiros há 160 anos”, assinala Rita Lima.

Ela acrescenta que as entidades sindicais, as associações de empregados, a classe política e a sociedade civil organizada precisam se unir para evitar que o Governo Bolsonaro siga em frente com o processo de desmonte da Caixa. “É hora de se engajar na luta e de sair em defesa do patrimônio público que pertence a todos os brasileiros”, conclama Rita Lima.