Do ponto de vista da pandemia, 2021 foi uma tragédia para a população brasileira. Das 618.655 pessoas (até 27/12/21) que perderam suas vidas para a covid, 423.706 morreram em 2021, ou seja, mais de 68% das mortes ocorreram este ano. Não bastasse a gestão genocida de Bolsonaro à frente da pandemia, a política neoliberal conduzida por Paulo Guedes fez estragos na economia, que não dá nenhum sinal de recuperação.
O boletim de conjuntura do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) faz exatamente esse recorte, classificando como dramática a situação do país no final de 2021. Diz um trecho do documento: “(… um país devastado não apenas pela pandemia e omissão do governo federal no combate à covid-19, mas pela política econômica que aprofundou a desigualdade social e aumentou a pobreza. A inflação crescente tem impacto maior para as pessoas de menor renda e, no mercado de trabalho, o desemprego é alto e as ocupações criadas são informais, de modo que o mercado consumidor interno não tem força para promover um crescimento sustentado da economia”.
Para Carlos Pereira de Araújo (Carlão), do Comando Nacional dos Bancários, os números apresentados pelo Dieese confirmam o que se vê a olho nu nas ruas das maioria das cidades brasileiras todos os dias. “Talvez uma das cenas mais tristes de 2021, tenha sido aquelas pessoas famintas se aglomerando num caminhão para disputar ossos e sebos recolhidos dos supermercados. A cena causa revolta e indignação porque acontece no país que é um dos maiores produtores de grãos e gado de corte do mundo. É inadmissível que tenhamos quase 20 milhões de famintos no Brasil”, desabafa Carlão.
PIB em queda
Segundo o Dieese, a performance recente do Produto Interno Bruto (PIB) é desanimadora, acumulando dois trimestres de queda: o terceiro trimestre de 2021 variou -0,1% em relação ao segundo, que já havia caído -0,4% em relação aos três primeiros meses do ano. A formação bruta de capital fixo, isto é, o investimento em máquinas e equipamentos, caiu 3,0% no segundo trimestre e ficou praticamente estagnada no terceiro (-0,1 %)”.
O dirigente diz que a situação é dramática em 2021 e as perspectivas para 2022 são desalentadoras. O levantamento do Dieese, destaca Carlão, prevê mais um ano de dificuldades na economia brasileira e no mercado de trabalho, com desemprego e perda do poder de compra dos salários, causada pela inflação.
A inflação, como aponta o boletim, mostra a queda do poder de compra do trabalhador. Em algumas capitais brasileiras, segundo o Dieese, o trabalhador precisa de quase 70% do salário mínimo (cerca de R$ 710,00) para comprar a cesta básica
Desemprego e precarização
O boletim de conjuntura do Dieese também mostra a profundidade do fosso do desemprego em 2021. Dados atualizados até o terceiro trimestre deste ano indicam que são 13,5 milhões de desempregados no mercado formal.
De acordo com o boletim, ainda que tenha havido aumento no número de ocupados em relação ao mesmo período de 2020, a quantidade de pessoas fora da força de trabalho continua maior do que no momento anterior à pandemia. No terceiro trimestre de 2019, havia 61 milhões de pessoas de 14 anos ou mais de idade fora da força de trabalho e, no terceiro trimestre de 2021, cerca de 4,5 milhões a mais, ou 65,5 milhões.
O dirigente do Comando Nacional e do Sindibancários destaca que uma parte expressiva dos postos de trabalho abertos é informal. Segundo o IBGE, 40,6% dos ocupados encontram-se na informalidade, o equivalente a 38 milhões de trabalhadores. “Esse dado confirma a precarização do trabalho. A cada dia temos mais trabalhadores na informalidade, mal remunerados e sem garantias e direitos trabalhistas”, alerta Carlão.
Negociações mais difíceis
O aumento da inflação dificulta a correção salarial nas negociações coletivas, aponta o boletim. Em outubro de 2021, era necessário um reajuste de 11,08% para repor as perdas, enquanto em outubro de 2020, o percentual necessário era de 3,89%.
Essa situação tem dificultado as tratativas nas mesas de negociações das categorias de maneira geral, ressalta o dirigente. Ele adverte que a classe trabalhadora e o movimento sindical vêm sofrendo pressão de todos os lados.
“Temos uma política econômica perversa cujo alvo é o trabalhador. Desde o primeiro dia deste governo, Bolsonaro e Paulo Guedes vêm armando armadilhas para retirar direitos da classe trabalhadora. São medidas provisórias, projetos de lei, decretos e até propostas de emenda à Constituição. O governo nos ataca por todos os lados. Temos o fantasma da PEC 32 [reforma administrativa] nos assombrando no Congresso. Agora o governo prepara uma versão ainda mais cruel da reforma trabalhista para concluir o projeto iniciado por Temer em 2017. Bolsonaro trabalha para as elites e contra o trabalhador”.
Mercado de trabalho desigual
O Brasil segue marcado por profunda desigualdade regional, segundo dados da Síntese de Indicadores Sociais, do IBGE, realizada em 2020, mesmo quando ainda se tinha, na maior parte do período, o auxílio emergencial. Mesmo assim, o rendimento domiciliar médio per capita no Nordeste (R$ 891) equivalia a 55% do rendimento domiciliar médio per capita no Sudeste (R$ 1.623).
Quando se faz o recorte por cor da pele, o rendimento domiciliar médio per capita dos negros (pretos e pardos) no Brasil, equivalente a R$ 963, em 2020, correspondia a praticamente metade (52%) do rendimento domiciliar médio per capita dos brancos (R$ 1.842). Mas, na análise por região do país, o rendimento médio per capita dos negros no Nordeste (R$ 773) equivalia a apenas 37% do rendimento médio per capta dos/das brancos no Sudeste (R$ 2.089).
A maior diferença no rendimento de negros e brancos foi registrada no Sudeste: os negros receberam, em média, 53% do rendimento médio per capita dos brancos. Ainda segundo o IBGE, “as taxas de extrema pobreza e pobreza entre pretos e pardos eram de 7,4% e 31,0%, mais do que o dobro das taxas observadas entre os brancos: 3,5% e 15,1%”. O Dieese destaca que, se não fosse o auxílio emergencial e outros programas sociais, em 2020, os indicadores seriam ainda mais dramáticos.
Na avaliação do dirigente, “para qualquer direção que olhamos, vemos as digitais do governo Bolsonaro, sempre deixando um rastro de destruição por onde passa. Se não ocorrer nenhum fato novo, temos pela frente mais um ano de Bolsonaro. Isso significa mais fome, mais desemprego, mais miséria, mais devastação do meio ambiente, mais precarização das relações de trabalho, mais ataques à classe trabalhadora, ao povo negro, aos LGBTQI+, às mulheres, aos índios…Este o governo da destruição, do retrocesso, do atraso. Essa conjuntura adversa, ao mesmo tempo, nos motiva a resistir e lutar para mantermos todos esses direitos que estão ameaçados. É com união e luta que a classe trabalhadora irá reconstruir o Brasil destruído por Bolsonaro”, finaliza Carlão.








