Em plena pandemia, presidente do BB critica auxílio aos mais pobres

02/04/2020 18:49

Rubem Novaes disse que “governadores e prefeitos impedem a atividade econômica e oferecem esmolas aos pobres com o dinheiro alheio”

O presidente do Banco do Brasil, Rubem Novaes, está se consolidando como um dos principais porta-vozes do presidente Bolsonaro no combate radical à orientação da Organização Mundial de Saúde (OMS) – seguida pela grande maioria dos países, estados e municípios brasileiros -, que recomenda o isolamento social como a medida mais efetiva para reduzir a propagação do coronavírus. Faz uma semana que Novaes vem fazendo ataques cada vez mais ácidos em defesa do fim da quarentena e pedindo a retomada imediata da atividade econômica.

Nesta quinta-feira, 2, Novaes voltou à ofensiva. Ele repercutiu o vídeo da apoiadora, replicado pelo próprio Bolsonaro em suas redes sociais, em que uma mulher faz um desabafo do “cercadinho” em frente ao Palácio Alvorada, reservado aos apoiadores do presidente. Ela diz que quer voltar a trabalhar e pede a reabertura do comércio. Além da retomada do trabalho, ela também pediu a presença do Exército nas ruas. Novaes também replicou o vídeo no WhatsApp com o comentário: “Caiam na real”.

Ao ser questionado pela imprensa sobre o conteúdo do vídeo, o presidente do BB disse que “governadores e prefeitos impedem a atividade econômica e oferecem esmolas, com o dinheiro alheio. Esmolas atenuam o problema, mas não o resolvem. As pessoas querem viver de seus próprios esforços”, afirmou. Ele criticou ainda que se for montado um “grande Estado assistencialista fica difícil de desmontá-lo. Crises instigam os piores instintos intervencionistas e estatizantes. Não podemos deixar que esta crise médica, por mais séria que seja, destrua as bases de nossa sociedade”, disse Novaes.

Para o diretor do Sindicato dos Bancários/ES, Thiago Duda, Rubem Novaes, nessas últimas declarações, faz uma confissão do que ele entende por dinheiro público. “Quando ele diz que ‘governadores e prefeitos oferecem esmolas com o dinheiro alheio’, está querendo dizer que o dinheiro do governo federal não pertence e tampouco deve ser destinado ao próprio povo, mas sim aos banqueiros e às elites empresariais”, critica o dirigente sindical.

Duda afirma que, para Novaes, a única forma de as pessoas comerem é por meio do trabalho. “Sustentar essa tese para ele é mais importante do que correr o risco de deixar desmoronar o que ele chama de ‘bases deste governo’. Essas bases estão edificadas nessa lógica ultraliberal desumana, que sempre prioriza o lucro em detrimento das pessoas. No caso da pandemia do coronovírus, priorizar lucro significa sacrificar vidas. É isso que Novaes defende abertamente”, assevera Duda.

O dirigente sindical acrescenta que este governo impõe que a sociedade se submeta à economia. “Para eles, as pessoas precisam se mover em função da economia e não o contrário. Novaes não esconde nas suas declarações que o dinheiro público seja usado para salvar a economia e não as pessoas. Ele nunca vai admitir que o lucro não pode estar acima das vidas”, afirma Duda.

Tropa de choque

Na última semana, Rubem Novaes tem subido o tom contra o isolamento social. Nessa terça-feira, 31, em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, o presidente do BB criticou o isolamento horizontal. Segundo Novaes, “a ciência médica é tão ou mais imprecisa que a ciência econômica” e no momento a ciência econômica indica que permanecer em isolamento pode provocar efeitos piores que o da própria pandemia.

Segundo Thiago Duda, Novaes, como o ministro da Economia Paulo Guedes, é um “chicago boy” por formação. A Escola de Chicago preconiza que a economia é praticamente um ramo da matemática. “Para ele, o quanto antes a atividade econômica for retomada, mais rápido o capital volta a girar, arrefecendo as perdas de lucro. Se o custo disso são vidas, ele não se importa. Na lógica de Novaes, a matemática do lucro é sinônimo de vida. Logo, se a economia é matemática, pessoas são meros números”, analisa Duda.

Na segunda-feira, 30, Rubem Novaes afirmou que torce para que a Covid-19 contamine “o quanto antes” os 70% da população que serão atingidos pelo coronavírus para que a economia possa ser retomada mais rapidamente. Por esse pensamento, a contaminação em massa da população com menos de 60 anos garantiria a imunização precoce. Somente idosos e pessoas com quadros de doenças pré-existentes, o chamado grupo de risco, ficariam socialmente isolados. A “tese”, porém, é refutada pela OMS e pela maioria esmagadora da comunidade científica, que indica isolamento social como a medida mais efetiva para reduzir a propagação da Covid-19.

Segundo o colunista Lauro Jardim, do jornal carioca O Globo, que repercutiu as declarações do presidente do BB, Novaes ainda faz um apelo: “Deixe essa gente trabalhar!”.

Na última quinta-feira, 26, Rubem Novaes já havia feito outra declaração pra lá de polêmica. Mais uma vez, para demonstrar fidelidade a Bolsonaro. A mensagem do presidente do BB, que circulou em um grupo de WhatsApp, dizia que “a vida não tem valor infinito”. “Muita bobagem é feita e dita, inclusive por economistas, por julgarem que a vida tem valor infinito. O vírus tem que ser balanceado com a atividade econômica”, afirmou Novaes.