Como tem sido comum nos últimos quatro anos, no mês de abril os empregados e as empregadas do Banestes são instados a responder uma pesquisa que mede o clima organizacional da empresa. A pesquisa GPTW (Great Place To Work, na tradução do inglês, melhor lugar para trabalhar) garante ao Banestes um selo que é usado para promover o marketing institucional para dentro e para fora do banco. Para obter o maior número de respondentes, no entanto, o Banestes tem exercido uma pressão velada sobre os funcionários. “A participação maciça dos empregados na pesquisa é estratégica para o banco. Nos últimos dias, temos recebido queixas de alguns empregados relatando esses casos sutis os induzindo a responder ao questionário da GPTW”, afirma o dirigente do Sindicato dos Bancários/ES Marcelo Giacomin. 

O propósito do Banestes, continua Marcelo, é ser reconhecido como uma empresa que zela pelo bem-estar dos seus empregados. Ele diz que desde 2022 o banco vem usando intensamente o selo em suas peças publicitárias e exaltando o Banestes como um oásis entre as empresas capixabas. “É preciso alertar que o selo GPTW é questionável quando observamos as empresas mais bem ranqueadas”. 

No ranking mais atual, de 2024, o Itaú e o Santander, por exemplo, aparecem ranqueados, respectivamente, na quinta e oitava posições. Aliás, essa é a 18ª vez que o Itaú aparece entre as 20 melhores empresas para trabalhar com mais de 10 mil empregados. “Quando nos deparamos com o Itaú e o Santander na lista das melhores empresas para trabalhar ficamos com os dois pés atrás. O Santander, só para citar um fato bem atual, está respondendo ações na Justiça do Trabalho por fraude em contratações. O Santander demite o bancário e em seguida o recontrata, não mais como bancário, a partir de uma subsidiária do grupo. Na Justiça a prática está sendo enquadrada como contratação fraudulenta. “Esse seria o perfil de uma empresa preocupada com os seus trabalhadores?”, questiona Marcelo, que acrescenta: “Nós, do Sindicato, que estamos em contato permanente com os empregados do Banestes, sabemos que o banco tem muito a melhorar. A exemplo de outros bancos, o modelo de gestão do Banestes, pautado em metas cada vez mais abusivas, tem sido um gatilho para o adoecimento mental. A pesquisa Nossa Saúde Importa mapeou o adoecimento mental no Banestes”, destaca o dirigente. “Se o banestiano entende que o questionário da GPTW não representa a realidade da empresa, melhor não responder à sondagem. Não responder também é uma forma de protesto”, afirma Marcelo.

Banestes usou selo na campanha salarial
Em uma das rodadas de negociação com o Banestes, no âmbito da campanha salarial 2024 para renovação do Acordo Coletivo de Trabalho (ACT), a comissão de negociações do Sindicato apresentou à direção do banco dados da pesquisa sobre a saúde mental dos bancários e das bancárias capixabas, com um recorte especial dos empregados do Banestes. O estudo, uma iniciativa do Departamento de Psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), que contou com o apoio do Sindicato na divulgação do questionário junto à categoria, foi questionado na mesa pelos interlocutores do banco, que passaram a contrapor os dados da pesquisa e a exaltar a pesquisa de clima GPTW. A reação do banco foi alegar que os dados da pesquisa da Ufes causavam “surpresa”, uma vez que a certificação GPTW apresenta um ambiente positivo de trabalho, certificando o Banestes como uma das melhores empresas para trabalhar.

O Sindicato se propôs a apresentar a pesquisa, com o recorte dos empregados do Banestes, com o intuito de constituir um grupo de trabalho para analisar os dados e buscar soluções para os indicadores do estudo, que apontam, por exemplo, que 61,4% dos afastamentos estão relacionados ao trabalho. Transtornos como estresse, ansiedade e depressão afetam mais da metade dos empregados do Banestes. 

Após essa mesa sobre saúde e condições de trabalho, sucederam-se mais cinco rodadas e a direção do banco, em nenhum momento, sinalizou em retomar a discussão sobre a pesquisa da Ufes e tampouco pediu os dados detalhados sobre o estudo. Ao contrário, após o Sindicato veicular um vídeo dramatizando um caso real de adoecimento mental e apresentar alguns dados da pesquisa, a direção do banco, sob o comando de Amarildo Casagrande, se enfureceu e recorreu à Justiça para censurar o vídeo.

Nas alegações para pedir a censura do vídeo, a direção do Banestes desqualificou a pesquisa da Ufes com argumentos inverídicos. Alegou, por exemplo, que a pesquisa é parcial porque o Sindicato teve participação. Na verdade, o Sindicato apenas apoiou a pesquisa, divulgando-a entre os bancários e reforçando a importância do estudo para a categoria. O Sindicato não participou da elaboração do questionário ou tampouco teve qualquer influência na tabulação e resultado da pesquisa, que é de inteira iniciativa e responsabilidade da Ufes. 

Nas alegações, a direção do Banestes contestou a pesquisa da Ufes com a certificação GPTW, que também concedeu ao banco um selo extra, uma espécie de plus: Great People Mental Health. Traduzindo a sopa de termos em inglês, a consultoria atesta que o Banestes, além de ser uma das melhores empresas para trabalhar, também zela pela saúde mental dos seus empregados. 

Selos custaram mais de R$ 600 mil
A direção do Banestes, a partir desse arsenal de selos, tenta igualar as certificações da consultoria a um estudo científico feito por uma universidade federal que segue princípios acadêmicos e não mercadológicos, caso da GPTW, que cobra, e cobra caro, para emitir a tão desejada certificação. Aliás, quando firmou o primeiro contrato com a GPTW, em junho de 2022, o Banestes pagou R$ 142.809,88 para ter a certificação por 12 meses. Em junho de 2023, o banco fez um aditivo estendendo o contrato até 2026.

Para assegurar a certificação por mais três anos, o Banestes pagou R$ 464.742,88 à SAD Consultoria, que é a empresa com sede em São Paulo que tem os direitos da certificação no Brasil. Desde 2022, o Banestes já pagou à SAD Consultoria o total de R$ 607.552,85 para divulgar as certificações em peças publicitárias. Detalhe, os contratos foram fechados com base na Lei 13.303/2016, que dispensa a necessidade de licitação. Para declarar a inexigibilidade de licitação, o Banestes considerou que a GPTW tem alto conceito na sua especialidade, de notória especialização.

GPTW em xeque
Em outros países, há questionamentos sobre a certificação GPTW. Nos Estados Unidos, o professor Jeffrey Pfeffer da Stanford Business School e o cofundador do Medici Institute, M Muneer, questionam a validade do ranking GPTW. Em um artigo intitulado “Ótimos lugares para trabalhar? O que você obtém pode não ser o que você vê em muitas dessas pesquisas”, os dois pesquisadores apresentam questionamentos às certificações concedidas às empresas americanas que aparecem entre as melhores no ranking. 

“Foi surpreendente ver algumas empresas específicas no top 10. Isso porque quando entrevistamos alguns trabalhadores dessas organizações sobre práticas de gestão tóxica, o que eles descreveram estava longe de ser um ambiente de trabalho saudável. Fizemos entrevistas semelhantes com funcionários aleatórios da lista dos “Melhores Lugares para Trabalhar” da Índia em 2017, e os resultados foram semelhantes”. Segundo os pesquisadores, muitos trabalhadores descreveram histórias de horror enfrentando pressões para entregar além dos limites razoáveis. Alguns reclamaram de trabalho adicional sendo jogado sobre eles; ainda mais narraram sobre longas horas de trabalho e reuniões após o expediente. Uma mulher foi solicitada a retornar da licença maternidade duas semanas após o parto para fazer uma apresentação importante. Outra, grávida de vários meses na época, se viu em um avião para a Europa na noite de sábado para poder participar de uma reunião na segunda-feira – tendo recebido pouco aviso sobre a viagem inesperada e pouca escolha para optar por não ir.

Os pesquisadores concluíram: “Estamos cada vez mais convencidos de que muitos dos dados das pesquisas usadas na construção de avaliações são pouco confiáveis. O Journal of Consumer Research publicou um artigo que mostra que este é o caso das avaliações de produtos e serviços por consumidores. Como as evidências mostram que as pessoas dependem dessas avaliações para tomar decisões – as avaliações têm consequências econômicas – as empresas têm incentivos para postar avaliações falsas. E elas fazem isso”.

Ranking GPTW Brasil
A GPTW faz um ranking das 150 melhores empresas para trabalhar no Brasil com mais de 10 mil empregados; com 1.000 a 9.999; com 100 a 999 nacionais e multinacionais. O Banestes não está ranqueado entre essas empresas, o banco capixaba apenas tem a certificação desde 2022.

Líderes em ações na Justiça do Trabalho
Há um outro ranking que os grandes bancos lideram que comprovam que o “melhor lugar para trabalhar” não respeita direitos trabalhistas. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ), no relatório Justiça em Números, lista os maiores litigantes do país na Justiça do Trabalho. Do ranking das 15 empresas recordistas em processos na Justiça do Trabalho, sete são bancos, todos eles têm ou um dia tiveram o selo GPTW.