Para os entregadores de aplicativos nunca existiu isolamento social. Muito ao contrário, o ganha-pão desses trabalhadores se dá justamente no vai e vem das ruas. De moto ou bike eles e elas estão no olho do furacão da pandemia do coronavírus. O serviço acompanhou a curva da doença e passou a ser cada vez mais demandando por parte da sociedade com dinheiro no bolso e que pode cumprir a quarentena na segurança dos seus lares.
No final de maio e início de junho, as manifestações antifascistas e em defesa da democracia foram às ruas puxadas pelas torcidas organizadas de times de futebol. Nesses atos surgiu um grupo pequeno, de cerca de 20 entregadores de aplicativo, que tinha tudo para passar despercebido. Mas um vídeo, que rapidamente viralizou na internet, deu destaque os grupo. Paulo Lima, o Galo, meteu o dedo na ferida e expôs a face perversa da lógica capitalista que está por trás dos aplicativos aparentemente inofensivos de entrega de comida. O motoboy criticou as empresas que exploram o serviço, que não pagam qualquer benefício aos seus entregadores e tampouco reconhecem vínculo empregatício. “Não dá pra entregar comida de barriga vazia”, bradava, num trecho do vídeo, à frente dos colegas em um dos atos de rua convocando outros trabalhadores para se engajarem ao chamado “Grupo de Entregadores Antifascistas”.
Galo sabia que o grupo era pequeno e que iniciava um trabalho de formiguinha na organização da luta por direitos, mas não imaginava que a pauta, que inicialmente pedia apenas alimentação e álcool em gel, cresceria na velocidade das entregas. Ele aproveitou o embalo do vídeo para lançar um abaixo-assinado em defesa dos direitos trabalhistas dos entregadores, que já reúne mais de 350 mil signatários. O movimento mexeu com os entregadores que decidiram recorrer a um dos mais importantes instrumentos da luta de classe da classe trabalhadora: o direito de greve.
A primeira já tem data: dia 1º de julho, uma quarta-feira. Os entregadores prometem parar por 24 horas em diversas cidades do país. Eles esperam poder contar com o apoio da população para que não façam pedidos aos aplicativos Ifood, Rappi, Loggi e Uber Eats durante a paralisação. Aliás… “É greve, não é paralisação. O pessoal usava a palavra paralisação para não falar greve. Mas agora entenderam, e eu fiquei contente, que é greve mesmo”, disse Galo em um bate-papo com o secretário-geral da Intersindical, Edson Carneiro Índio. Na live, o sindicalista elogiou a consciência de classe de Galo e ressaltou o quanto essa luta por direitos é justa e necessária, especialmente para os trabalhadores informais.
A diretora do Sindicato dos Bancários/ES, Rita Lima, também destacou a importância dos entregadores de aplicativo iniciarem uma mobilização para lutar por direitos. A dirigente lembrou que a o processo de precarização das relações de trabalho ganhou força com a reforma trabalhista aprovada no governo Temer e vem se agravando no governo Bolsonaro, que tenta retirar os direitos que restaram ao trabalhador na base da canetada, por meio de medidas provisórias.
“Como disse o Índio, essa é uma luta justa e muitíssimo necessária. Por isso é importante que trabalhadores e trabalhadoras de outras categorias apoiem os entregadores. Assim como a população não solicitando o serviço no dia da greve”, recomendou Rita.
A dirigente afirmou que os ataques aos direitos trabalhistas têm sido recorrentes, mas destacou que os trabalhadores informais, como os entregadores e motoristas de aplicativo, são ainda mais vulneráveis à exploração por parte dos empresários. “Por isso Galo destaca na conversa com Índio que muitos entregadores já entenderam que eles não são empreendedores de nada. Esse governo ultraliberal tentou construir uma mentira para que esses trabalhadores acreditem que são donos dos seu próprio negócio e não pleiteiem direitos e tampouco vínculo empregatício com essas empresas. Elas precisam se responsabilizar por esses trabalhadores”, advertiu Rita.
Na pauta de reivindicações da greve do próximo dia 1º, os entregadores pedem que as empresas assumam os custos dos equipamentos de proteção individual (EPIs) necessários para trabalhar durante a pandemia, além de licença remunerada para os trabalhadores que foram contaminados pela covid-19. Reivindicam também aumento no valor mínimo por entrega e no pagamento das corridas, além de exigirem o fim dos bloqueios indevidos e do sistema de pontuação, que funcionam como punição, os excluindo das entregas. A pauta ainda pleiteia seguro de vida, de acidente e contra roubo.








