Entregar banco digital ao mercado é privatizar os principais ativos da Caixa

27/11/2020 17:31

Presidente da Caixa anunciou que pretende fazer IPO do banco digital em seis meses. Para o Sindicato dos Bancários/ES, abrir as ações consolidaria o processo de desmonte da Caixa, que teria suas principais operações transferidas para a nova subsidiária

Desde outubro, circulam no mercado informações de que a equipe econômica do Governo Bolsonaro, chefiada por Paulo Guedes, pretende criar o banco digital da Caixa, transformá-lo em subsidiária e imediatamente abrir suas ações na bolsa. O plano repercutiu mais fortemente esta semana na imprensa com as declarações do presidente da Caixa. Pedro Guimarães afirmou que pretende fazer a oferta pública inicial (IPO) das ações do banco digital em seis meses na Nasdaq – bolsa de tecnologia nos Estados Unidos.

O anúncio tem gerado críticas nos meios sindicais, nas associações de empregados e entre bancários e bancárias do banco público que veem com apreensão o plano do Governo que ameaça a Caixa. Na avaliação da diretora do Sindicato dos Bancários/ES Lizandre Borges, transformar o banco digital (que ainda não foi formalmente criado) em subsidiária e negociar suas ações no mercado consolidaria o processo de desmonte do banco público. “Os principais ativos da Caixa migrariam para a nova subsidiária. Sem suas principais operações, a integridade e sustentabilidade do banco estariam comprometidas. Seria o sepultamento da instituição Caixa como a conhecemos hoje”, critica a dirigente.

Grave ameaça

Para Rita Serrano, representante dos empregados no Conselho de Administração da Caixa, o plano do governo representa uma grave ameaça porque significa o completo desmantelamento do banco público. “Estamos falando de uma nova subsidiária. Lembrando que a Caixa criou no último período várias subsidiárias. Na área de seguros, cartões, loterias e DTVM – subsidiária no segmento de fundos de investimentos”. Ela diz que o Governo optou por um arranjo que, ao invés de privatizar a instituição Caixa, pretende privatizá-la a partir de suas operações.

O vice-presidente do Conselho Deliberativo da Agecef/ES, Helder Luiz Valim de Paula, concorda com as avaliações de Lizandre e Rita Serrano. “Se forem transferidas para a nova subsidiária 105 milhões de poupanças digitais, as operações de microcrédito, crédito imobiliário destinado à baixa renda, além de FGTS e todos os outros benefícios sociais, a Caixa desmontaria porque perderia os seus principais pilares de sustentação”, adverte Helder.

O diretor-presidente da Apcef/ES, Edmar Martins André, comunga da mesma crítica. “Destituído de suas principais operações, o banco não fica em pé. A estratégia do Governo Bolsonaro tem sido fatiar a Caixa em subsidiárias para entregá-la, em partes, ao mercado. Sem seus principais ativos a instituição Caixa como banco público com propósito social a serviço dos brasileiros deixaria de existir”, sublinhou Edmar.

À revelia do Conselho

Embora Pedro Guimarães esteja tratando o projeto de criação e venda do banco digital como favas contadas, Rita Serrano pondera que o discurso que o presidente da Caixa tem feito à imprensa é apartado da realidade. “É importante esclarecer que esse projeto ainda não chegou ao Conselho de Administração da Caixa. É reprovável que Guimarães trate esse assunto como fato consumado sabendo que a governança interna do banco não foi sequer consultada. O projeto não existe no Conselho”, assinala.

De mão beijada

“Há uma urgência deste Governo em atender às demandas das elites empresariais deste país, especialmente as que partem do setor financeiro. Se hoje existem as condições para a criação de um banco digital, essa construção foi feita graças ao esforço dos empregados da Caixa. Expostos a uma pandemia que já matou mais de 170 mil brasileiros, esses funcionários se desdobraram para atender em oito meses mais de 120 milhões de pessoas que procuraram a Caixa para receber o auxílio emergencial e outros benefícios sociais. Agora o Governo quer se apropriar desse extraordinário ativo da Caixa e entregá-lo de mão beijada ao mercado. Essa tem sido a lógica do Governo ultraliberal de Bolsonaro, massacrar a classe trabalhadora e beneficiar as elites empresariais”, afirma Lizandre.

Helder, da Agecef, acrescenta que esse ativo construído pelos empregados da Caixa passou a ser um patrimônio do banco. Ele adverte que as informações dos clientes que estão por trás desses 105 milhões de contas poupanças são altamente estratégicas. Com a abertura das ações no mercado estrangeiro [IPO deve ser feito na Nasdaq, EUA] essas informações ficariam nas mãos dos investidores. “Arrisco dizer que temos aí uma questão de segurança nacional com relação aos dados de milhões de brasileiros”, aponta Helder.

Salto tecnológico

Rita Serrano reconhece que o pagamento do auxílio emergencial e outros benefícios para praticamente metade da população brasileira fez com que o banco desce um salto tecnológico e de qualidade, inserindo a Caixa de vez neste mundo digital. A conselheira diz que outros grandes bancos também criaram plataformas digitais com o intuito de atrair outros públicos para os seus negócios.

“O projeto da Caixa, porém, é bem diferente dos de outros bancos ou fintechs. A proposta da direção da Caixa é criar um banco digital e transferir para essa nova subsidiária as poupanças digitais criadas, as operações de microcrédito, de FGTS e por aí vai. Nós não estamos falando de concorrer para ter um segmento novo no banco. Eles estão propondo uma segregação, uma cisão, ou seja, passar parte das operações da Caixa para uma subsidiária executar essa tarefa”, enfatiza Rita Serrano, que completa: “Se a Caixa conseguiu criar aplicativos [Caixa Tem], se conseguiu se inserir de vez no mundo tecnológico, com capacidade própria, por que transferir esse ativo para outro CNPJ [subsidiária] para depois privatizar?”, questiona a conselheira.