Professor da Ufes e especialista em doenças infecciosas e parasitárias, o médico Crispim Cerutti Júnior conversou com a equipe de imprensa do Sindibancários/ES para avaliar os riscos de contágio nas agências. Em entrevista, ele fala sobre a prevenção no local de trabalho e a necessidade de gerir as filas para se evitar aglomerações. Confira:
As agências bancárias são locais hermeticamente fechados. Essa condição oferece maior risco de contágio pelo coronavírus? A limpeza adequada dos aparelhos de ar condicionado é suficiente para prevenir ou limitar a propagação do vírus em ambiente interno?
O espaço confinado facilita a transmissão, assim como o ambiente refrigerado com ar condicionado. A higienização do aparelho em si não elimina 100% o risco de transmissão, mas existem atenuantes. O primeiro é que a maior frequência de infecção não é pela inalação direta do vírus pelo ar, mas pelo contato físico, ou seja, carregando o vírus pelas regiões de mucosa, por meio do contato com as mãos, que acessaram superfícies ou pessoas infectadas, criando uma cadeia de transmissão.
Do ponto de vista respiratório, o maior risco é a emissão do vírus diretamente de uma pessoa para a outra. Isso é feito por meio de gotículas respiratórias, que não costumam viajar por uma distância maior que um metro — excepcionalmente pode chegar a 2 metros de distância. Mesmo nos modelos em que as pessoas mostram emissão de gotículas a longa distância, tem uma relação muito íntima com o inóculo, ou seja, com a quantidade de vírus que é levada por essa forma de transmissão. O que a gente sabe, com mais solidez, é que a transmissão é principalmente arriscada com a proximidade das pessoas, com o contato da gotícula respiratória uma das outras, já que é preciso boa quantidade de vírus para concretizar a transmissão.
Um dos equipamentos de proteção recomendados à população e aos bancários são as máscaras. Qual a eficiência delas? Devem ser usadas por todos? Elas ajudam a proteger quem as usa, diretamente, e os demais?
Do ponto de vista respiratório, a máscara está sendo bem enfatizada pelas campanhas e as pessoas devem usar quando em circulação. A máscara é uma proteção adicional, mas o maior risco está ainda relacionado ao contato. Não adianta o uso da máscara se a pessoa fica o tempo todo a manipulando, por exemplo. Às vezes, as pessoas se incomodam porque tem alguma coisa sobre o nariz e a boca, pode dar uma sensação de sufocação, e elas ficam mexendo para ajustar. Isso é ruim porque você está levando as mãos à cabeça e ao pescoço, tendo possibilidade de levar o vírus para próximo da área de mucosa. A gente deve botar a máscara e não mexer nela.
Outra coisa é que a máscara não pode ficar muito tempo na face. A cada duas horas deve ser trocada. E se ela ficar úmida por saliva, deve ser trocada imediatamente. Com esses cuidados, o uso da máscara e a higiene exaustiva das mãos, mesmo estando num ambiente confinado com ar refrigerado, a probabilidade de contato é muito reduzida.
O uso da máscara deve ser criterioso. Seu uso incorreto adiciona risco ao invés de proteção. Mas num ambiente fechado, com circulação de ar por equipamentos de refrigeração, a máscara é indicada independente do estado clínico das pessoas.
Na atividade de trabalho, bancários manuseiam muitos documentos e dinheiro. Esses objetos podem ser vetores de contaminação? Se sim, quais cuidados tomar ao manuseá-los? Luvas são recomendadas?
Os objetos são fonte de contágio. Dinheiro ou outros objetos podem levar à contaminação. O vírus permanece tempo prolongado na superfície. O cuidado em relação a isso é o que se recomenda cotidianamente, ou seja, manter uma higiene constante das mãos. Os bancários que estão nas suas estações de trabalho devem ter o álcool gel à disposição para higienizar a mão a cada contato com dinheiro ou outros objetos. Se estão atendendo pessoas, usar entre um atendimento e outro, e lembrar de não tocar as áreas de cabeça e pescoço, para não levar o vírus para as portas de entrada do corpo.
Nas áreas de autoatendimento dos bancos, centenas de pessoas utilizam os caixas eletrônicos diariamente, tendo contato também com divisórias de vidro, acrílico ou corrimão de metal, por exemplo. Essas superfícies de contato oferecem risco? Qual o tempo de sobrevida no vírus nesses locais?
O vírus também pode ser encontrado nessas superfícies, mas resultados sobre o tempo de sobrevida são variados, podendo chegar a alguns dias.
Com a liberação de recursos para a população afetada pela pandemia, a demanda por atendimento nos bancos aumentou, gerando filas extensas e aglomeração em frente às agências. Qual é a distância segura que as pessoas devem manter entre si nessas situações?
É importante fazer uma gestão da retenção e orientar sobre a necessidade do distanciamento. As pessoas estão ansiosas para obter atendimento, mas se alguém esclarece que é preciso ter cautela, que todos serão atendidos, provavelmente elas vão responder. É importante lembrá-las da importância de se manter a distância. A margem de segurança é de dois metros, porque as gotículas viajam nessa extensão. Mais frequente um metro até ela cair ao solo, mas pode chegar a dois.
Como o senhor opina sobre a polêmica colocada entre o isolamento vertical (apenas para idosos e pessoas que integram o grupo de risco) e o horizontal (para todos), e a flexibilização do isolamento social? Qual seria o protocolo mais adequado para preservar vidas?
Esse é um vírus altamente transmissível, com transmissão direta, de uma pessoa para outra. Mesmo que haja a mediação de superfície, tem uma pessoa doente que veicula para uma pessoa saudável. E ele se espalha rápido, a gente pode ver isso pela forma como ele se disseminou rapidamente pelo mundo.
O ambiente domiciliar é um ambiente de convívio prolongado de pessoas. Se tiver um infectado dentro de uma casa, é provável que rapidamente todos sejam infectados. Se você pretende proteger o idoso, que é o raciocínio do isolamento vertical, ou seja, colocá-lo em ambiente protegido, distante dos demais, se esse ambiente for o lar, essa proteção não funcionará. Por conta da facilidade de transmissão do vírus, havendo uma pessoa infectada na casa, o idoso fatalmente será infectado. Se você protege o idoso, mas as outras pessoas da família ficam circulando, elas inevitavelmente levarão o vírus até esse idoso. Então não funciona.
Além disso, apesar de existirem os grupos vulneráveis, como idosos e pessoas com doenças crônicas, todos nós estamos sujeitos a ter uma evolução adversa da infecção. Não é certo que uma pessoa jovem e previamente saudável, ao se expor ao vírus, terá um quadro autolimitado e brando. Na verdade, de cada 200 pessoas jovens infectadas e sem comorbidade, uma tem probabilidade de morrer. Ao circularem livremente as pessoas estão se expondo a risco.
O isolamento vertical banaliza o risco de quem está circulando e supervaloriza a nossa capacidade de proteger o vulnerável.
Alguma outra orientação para ajudar a enfrentar esse momento?
A gente está vivendo um processo de curva ainda em ascensão. Há modelos matemáticos que preveem momentos de incidência máxima, mas modelos são só estimativas. A gente tem que acompanhar a curva e ir ponderando quando o risco vai diminuir ou não.
Nesse processo, as pessoas têm que ter duas coisas: paciência e resiliência. A gente tem que usar a nossa capacidade de adaptação – e o ser humano é muito rico nisso –, e entender que temos uma situação nova, e que teremos que aprender a nos adaptar a ela.
As pessoas que estão preocupadas com a atividade profissional, de geração de renda, é verdade. Mas temos que lembrar que, se houver uma infecção maciça das pessoas, um adoecimento de grande magnitude, isso vai colocar em xeque toda nossa estrutura institucional e social, e vai acabar levando à derrocada da economia do mesmo jeito ou de forma ainda pior. Então é preciso paciência e adesão às medidas que as autoridades de saúde responsáveis estão instruindo.









