Durante as conferências estaduais e no congresso nacional, os bancários e bancárias construíram consenso de que o adoecimento da categoria deveria ser um dos eixos centrais da Campanha Nacional deste ano. Alinhado à demanda da categoria, o Comando Nacional dos Bancários levou o tema para discussão nessa terça-feira (21), em São Paulo, durante a 4ª rodada de negociações com a Federação Nacional dos Bancos (Fenaban). Os representantes dos bancários afirmaram que o modelo de negócio dos bancos, baseado em metas cada vez mais agressivas, é a causa principal do adoecimento da categoria.
A Fenaban não aceitou a relação de causa e efeito, entre metas abusivas e adoecimento, e ameaçou pôr fim à mesa única, separando bancos públicos e privados. O Comando foi incisivo ao afirmar que não abrirá mão da mesa única. Essa posição de ameaçar separar a mesa única foi proposta pelo negociador de proa da Fenaban, Adauto Duarte, que foi questionado, inclusive, pelos representantes dos bancos públicos que estavam na mesa.
“Foi uma rodada muito tensa. A Fenaban foi intransigente e ameaçou abandonar a mesa de negociações. Apresentamos os pontos que confirmam a relação entre o modelo de negócio dos bancos e o adoecimento da categoria. Mostramos que a categoria bancária responde por 25% do total de afastamentos acidentários por doença mental pelo INSS. Um dado inconteste que confirma o adoecimento coletivo dos bancários”, afirmou Carlos Pereira de Araújo (Carlão), coordenador-geral do Sindicato dos Bancários/ES e membro do Comando Nacional.
Carlão relatou que o Comando debateu outros pontos relacionados à saúde do trabalhador. “Ressaltamos que o movimento sindical quer participar da regulamentação da NR-1 [a Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) estabelece as diretrizes gerais e os requisitos para o gerenciamento de riscos ocupacionais (GRO) e medidas de prevenção em Segurança e Saúde no Trabalho (SST). Ela serve como base estrutural para todas as demais NRs, definindo direitos e deveres para empregadores e trabalhadores urbanos e rurais]”.
O dirigente destacou que a representação dos trabalhadores também apontou a urgência de os bancos criarem uma política preventiva para o adoecimento. “É fundamental também que os bancos façam um mapeamento do adoecimento na categoria. Destacamos que os bancários adoecidos precisam de uma rede de acolhimento e de uma política de inclusão”.
O coordenador do Sindicato afirmou que a reação histriônica da Fenaban de não reconhecer o processo de trabalho imposto pelos bancos como causa do adoecimento, é na verdade uma estratégia para não tratar do tema. “Os bancos sabem que o debate do adoecimento irá confirmar que o modelo de negócio é adoecedor. Eles são refratários em enfrentar um problema que pode impactar na lucratividade crescente dos bancos. Na lógica dos bancos, o lucro vale mais que a vida dos trabalhadores e trabalhadoras. Não podemos aceitar essa lógica necrocapitalista dos bancos que nos mata um pouco a cada dia como um novo normal”, enfatizou Carlão.
Saúde é sem dúvidas um dos eixos prioritários para a categoria. O tema entrou em pauta nesta terça-feira (21), em São Paulo, na quarta rodada de negociações entre a Federação Nacional dos Bancos (Fenaban) e o Comando Nacional dos Bancários. Saúde física e mental, metas abusivas, riscos psicossociais e melhoria das condições de trabalho foram os temas debatidos em mesa.
Saúde e condições de trabalho
Sobre a pauta da saúde, o Comando apontou que os transtornos mentais são responsáveis por mais da metade dos afastamentos na categoria, conforme o quadro abaixo:
A Consulta Nacional dos Bancários 2026, com quase 55 mil trabalhadores, é outra fonte que corrobora os dados de adoecimento do INSS ao lado de pesquisas científicas realizadas por universidades públicas. A Consulta apontou que 40% dos bancários admitiram fazer uso de medicamentos controlados (antidepressivos, ansiolíticos ou estimulantes) no último ano.
Na pergunta “quais impactos a cobrança excessiva pelo cumprimento de metas causam à sua saúde?”, com possibilidade de múltipla escolha, as principais respostas foram:
– 67% afirmaram preocupação constante com o trabalho;
– 59%, que os impactos são cansaço e fadiga constante;
– 47% apontaram desmotivação, vontade de não ir trabalhar;
– 42% sofrem com crises de ansiedade/pânico;
– 39%, que estão com dificuldades em dormir, mesmo aos finais de semana; e
– 24%, com medo de “estourar” e perder a cabeça.
Entre as cláusulas da minuta relacionadas à saúde, os destaques são:
– Fim das metas abusivas;
– Combate ao assédio moral, organizacional e algorítmico;
– limites à vigilância digital e ao controle por algoritmos;
– Serviços médicos que acolham os trabalhadores adoecidos;
– Nenhuma perda de remuneração durante o adoecimento;
– Prevenção de riscos psicossociais — implementação da NR-1 e da NR-17.
Endividamento da categoria
Na rodada dessa terça-feira a Fenaban apresentou a devolutiva sobre um programa de juros baixos para os bancários saírem das dívidas, proposto na mesa anterior pelo Comando Nacional.
“Mais uma vez, a Fenaban foi insensível com a demanda da categoria e apresentou justificativas infundadas para negar o pedido de oferecer taxas menores para os bancários”. A Consulta Nacional registrou que 71% dos bancários afirmaram ter dívidas. Entre os endividados, 53% disseram possuir dívidas com cartão de crédito, 42% com crédito pessoal e 30% com cheque especial. O dado alarmante aponta que 30% disseram estar com as dívidas em atraso.
A única proposta apresentada pela Fenaban para a redução do endividamento foi terminar logo a campanha nacional para adiantar o pagamento da PLR.
Carlão não se disse surpreso que a mesa sobre saúde, que tem como ponto central o adoecimento, tenha causado irritação entre os interlocutores dos bancos. “Esse é um tema sensível à categoria. O adoecimento é coletivo e isso não é segredo para ninguém. Não podemos aceitar que a Fenaban recorra a ameaças para tentar tirar o assunto da mesa de negociações na marra. A cada rodada, percebemos o quanto a mobilização da categoria é decisiva para avançarmos nas pautas que garantem direitos à categoria. Se a intransigência por parte dos bancos for mantida, a categoria precisa estar pronta para recorrermos ao direito de greve como recurso legítimo dos trabalhadores”, finalizou Carlão.









