Fim do auxílio emergencial deve empurrar 17 milhões para a miséria

29/12/2020 18:11

Depois de 9 meses, a Caixa paga nesta terça, 29, a última parcela do benefício. Segundo estudo do Ibre/FGV, 17 milhões de brasileiros devem virar 2021 abaixo da linha da pobreza, ou seja, tentando sobreviver com menos de um dólar por dia

Nesta terça-feira, 29, a Caixa Econômica Federal pagou a última parcela do auxílio emergencial. O benefício, inicialmente de R$ 600, que começou a ser pago em abril, se transformou na única fonte de renda de milhares de brasileiros, além de garantir um respiro para a economia. A partir de setembro, no entanto, o Governo Bolsonaro reduziu o valor pela metade, o que gerou grande impacto socioeconômico para a parcela da população que dependia exclusivamente do auxílio para sobreviver.

Agora, com o fim do auxílio, 48 milhões de pessoas, sobretudo os trabalhadores informais, vão ficar sem renda alguma a partir de 2021. Segundo estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (Ibre/FGV), o fim do benefício deve empurrar 17 milhões de brasileiros para a miséria. De acordo com o pesquisador da Ibre/FGV Vinícius Botelho, essas pessoas terão que sobreviver com R$ 5,50 por dia (cerca de um dólar). Botelho aponta que em outubro, após a redução do auxílio, havia 18,3% vivendo abaixo da linha da pobreza. Com o fim do auxílio, esse percentual deve subir para 26,2% da população brasileira.

Para a diretora do Sindicato dos Bancários/ES Lizandre Borges, as perspectivas não são nada otimistas para 2021. “Temos mais de 14 milhões de desempregados e outros 17 milhões, como aponta o estudo, em queda livre para o fosso da extrema pobreza; a economia vem dando sinais de que a tal recuperação em ‘V’ projetada pelo ministro Paulo Guedes está longe de incluir essa parcela mais vulnerável da população, pequenos empresários e a classe trabalhadora de maneira geral. A recuperação em ‘V’ deve ser para as elites empresariais, como os banqueiros que, aliás, ficaram alheios à crise”.

Fora a conjuntura econômica adversa, a dirigente acrescenta que a crise sanitária continua a todo o vapor em 2021. “Ainda não temos um plano de vacinação e as aglomerações das festas de fim de ano devem cobrar a conta em janeiro, com o iminente colapso no sistema público de saúde, que está prestes a explodir em diversos estados do país devido ao aumento das internações por covid”, adverte a dirigente.

9 meses na linha de frente

Bancários e bancárias da Caixa exerceram durante esses nove meses um papel social crucial para assegurar que mais de 67 milhões de brasileiros recebessem o auxílio emergencial. Protagonistas dessa verdadeira maratona sem precedentes na história da Caixa, os empregados do banco pagaram milhões de pessoas em tempo recorde, o que já seria um feito extraordinário, mas ainda fizeram tudo isso em meio à mais grave pandemia dos últimos 100 anos.

“Este foi um ano atípico, completamente fora da curva, mas mesmo nessa adversidade os empregados da Caixa foram fiéis ao compromisso social que edificou as bases desta instituição com mais de um século e meio de serviços prestados à população brasileira. Desde abril, eles e elas estiveram frente a frente com o vírus, de segunda a sábado, para garantir o pagamento do auxílio e outros benefícios sociais aos segmentos mais vulneráveis da população. A esperada contrapartida da direção da Caixa, no entanto, não veio. Não houve reconhecimento de todo esse esforço. Ao contrário, aumentaram as cobranças por metas. Prevaleceu a lógica neoliberal que tenta distanciar a Caixa de seu propósito público e social e aproximá-la de uma empresa com perfil de mercado, construindo as bases para um iminente processo de privatização”, alerta Lizandre.

Protocolos sanitários

Ela destaca ainda que além da pressão por metas, a Caixa, embora soubesse que seus empregados estavam extremamente expostos ao vírus, negligenciou os protocolos sanitários estabelecidos pelo próprio banco, aumentando o risco de contágio entre bancários e clientes.

“Esses nove meses de maratona devem deixar muitas sequelas. Muitos bancários contraíram covid nesses meses, alguns morreram. Dos que adoeceram, sabemos que parte deles deve apresentar outras doenças decorrentes da covid. Sem contar as doenças mentais, que também podem surgir nos próximos meses. É muito difícil atravessar uma pandemia dessa magnitude, encarando todos os dias um vírus mortal, e sair ileso do outro lado. Ainda não sabemos exatamente como se manifestarão, mas as sequelas, infelizmente, virão”, lamenta Lizandre.