Votação dos eixos

Os eixos de luta específicos para 2025 no Banco do Brasil foram definidos durante o Congresso Estadual dos Funcionários do BB realizado no dia 27 de junho, como parte da programação do VIII Congresso Estadual dos Bancários e das Bancárias, que aconteceu em Nova Almeida, na Serra, entre os dias 27 e 29.

Entre as prioridades estão ações pelo resgate e manutenção do Banco do Brasil como banco público e sua relevância para o desenvolvimento do país, organizando debates com a categoria, com parlamentares e sociedade civil; pela exigência da revisão da missão e estratégias do BB, bem como do aumento da sua participação junto à agricultura familiar e microempresários; e pela redução do percentual de distribuição do lucro a acionistas, permitindo maior oferta de crédito com taxas menores para a população.

Outras prioridades, no campo das condições de trabalho, são combater as práticas do banco que estimulam a competição e o individualismo, incentivando os funcionários a se organizarem de forma solidária e coletiva nos locais de trabalho; exigir o fim da divulgação de ranking, do PDG e programas de renda variáveis; a reversão do Performa; a troca de metas individuais por coletivas acordadas de forma democrática; exigir o aumento do número de delegados sindicais; e lutar pelo resgate da vice-presidência de Pessoas com autonomia, independência e capilaridade.

Em relação à situação dos caixas foram aprovadas resoluções a fim de garantir uma mesa específica de negociação, nomeação de todos em alguma função comissionada e manifestação nas agências abertas com escassez de caixa para atender à população.

A defesa da Cassi foi outro eixo de luta definido como prioritário. Como resoluções, foram aprovados os seguintes itens: promover a campanha de divulgação dos números da atuação da Cassi na promoção da saúde primária; elaborar e distribuir cartilhas sobre história, importância e atuação da Cassi; exigir o cumprimento da CGR-PAR 52, garantindo a proporção 70-30 no custeio do plano, sendo 70% de contribuição sob responsabilidade do BB e 30% dos funcionários; exigir um cronograma de reuniões da mesa de negociação sobre custeio, reforma estatutária da Cassi, envolvendo a comissão de empresa e as bases sindicais; requerer junto à Cassi o fornecimento de dados estatísticos sobre adoecimento, especialmente adoecimento mental dos bancários.

BB público

Eduardo: BB está na lógica mercadológica

Na primeira mesa do congresso específico, que tratou do BB como banco público e Programa Inova, o  presidente do Sindicato dos Bancários do Distrito Federal, Eduardo Araújo, trouxe uma reflexão sobre a trajetória do Banco do Brasil nos últimos anos, ressaltando as mudanças na missão e nas estratégias da direção da instituição, operando numa lógica corporativa de valorização da instituição enquanto um ativo financeiro e abandonando seu compromisso primeiro de banco público, que é a promoção do desenvolvimento do país.

“A gente precisa entender que o BB está atuando na lógica de remunerar os seus acionistas, quanto mais, melhor. Hoje a estratégia prioritária é garantir rentabilidade e não mais colocar esse dinheiro à disposição de políticas públicas para o desenvolvimento do país e esse é um dado que nos faz inferir qual é o caminho que o banco está percorrendo. Agora, o alvo do BB é ser o Itaú, por isso tem privilegiado a racionalidade empresarial análoga a dos bancos privados”, afirmou Eduardo.

Esse processo foi iniciado em 2016, segundo o sindicalista. “É sintomático observar que até 2016 a missão do BB falava em ‘promover o desenvolvimento sustentável do Brasil e cumprir sua função pública com eficiência’; e que, logo após o impeachment [da ex-presidenta Dilma Rousseff], a missão do BB foi alterada para ‘Banco de Mercado com Espírito Público’, seus objetivos estratégicos passaram a priorizar a rentabilidade, a experiência do cliente e a transformação digital; e por fim, seguindo nessa direção privatizante, a partir de 2019 a Missão deu lugar ao Propósito, e hoje é: “Ser próximo e relevante na vida das pessoas em todos os momentos”. ; e por fim, seguindo nessa direção privatizante, a partir de 2019 a Missão deu lugar ao Propósito, e hoje é: “Ser próximo e relevante na vida das pessoas em todos os momentos”. E é daí que derivam os compromissos institucionais do BB, anunciados para o mercado e buscados a “ferro e fogo” via acordo de trabalho, definindo efetivamente onde, com quem, como e a qual custo – para a sociedade e para seus trabalhadores – o BB vai produzir seus resultados”, explicou.

De acordo com Eduardo, essa lógica corporativa tem sido sentida na pele por bancários e clientes no dia a dia das agências e se apresenta de forma transparente no Programa Inova Varejo. “O resultado dessa mudança de direção do BB é a elitização da clientela, a redução da rede de atendimento e do quadro de funcionários, com extinção sobretudo de funções ligadas ao suporte operacional e ao atendimento presencial, como os caixas, por exemplo. Isso porque essa lógica também redefine o modelo de trabalho e de atendimento bancário buscando consolidar a proposta do BB como um modelo de negócios baseado numa plataforma digital de comercialização de produtos e serviços financeiros”.

Eduardo ressalta a grande armadilha que está colocada para os bancários a partir da consolidação de relações de trabalho baseadas no individualismo e competitividade. “Nesse modelo, os funcionários passam a competir entre si e não se enxergam mais como colegas de trabalho e sim como concorrentes, já que a carreira passa a ser vinculada ao cumprimento de metas e a boa relação com o gestor. O discurso de engajamento cria a ilusão de que o bancário é dono da própria carreira, só depende do seu comportamento, daí tem bancário avaliando mal os próprios colegas, não denunciando assédio, não querendo atuar no movimento, porque não quer prejudicar a carreira. Isso tem tornado essas pessoas escravas da autoexploração. Todas essas práticas organizacionais são, justamente, as características do projeto piloto que está sendo desenvolvido aqui no ES, o Inova Varejo”, criticou Eduardo.

Diante desse cenário preocupante, o sindicalista destacou a centralidade de uma instituição centenária como o Banco do Brasil na reconstrução do país e o papel do funcionalismo nessa luta. “Muito teremos que mobilizar para assegurar que o BB seja um local seguro e respeitoso para o exercício digno e valorizado do trabalho bancário e recupere o papel de centralidade no projeto de desenvolvimento do país”, concluiu.

A dirigente sindical, aposentada do Banco do Brasil, Goretti Barone, reafirmou a urgência de se resgatar o papel do Banco do Brasil enquanto um banco público. “Nós temos que ter clareza do que queremos desse banco, qual é o BB da ótica dos trabalhadores e da sociedade civil? Precisamos promover esse debate com a população, parlamentares e os nossos colegas. Qual é o sentido do meu trabalho enquanto bancária para a sociedade? Vamos debater as metas, o adoecimento, o assédio, mas compreendendo que tudo isso vem no bojo desse processo de privatização do banco, que está deixando os princípios de banco público de lado para atender ao mercado”, enfatizou Goretti.

Condições de trabalho

Raphael: aumento do adoecimento psíquico no BB

Na mesa sobre condições de trabalho no BB, o convidado Rafael Silveira, professor da Ufes e mestre em Saúde do Trabalhador, iniciou sua fala destacando que o aumento do adoecimento psíquico entre os trabalhadores é resultado de uma mudança significativa no modo como se dá a gestão do trabalho bancário. “Existe uma lógica gerencial no trabalho bancário que tem contribuído fortemente para a produção do sofrimento mental e adoecimento psíquico. É a lógica da produtividade a qualquer custo. O imperativo ‘bata a meta’ independente das condições, pois o que vale é apenas o resultado. Se não entregou, é porque não trabalhou! Mas isso é uma falácia, porque há muito trabalho pra além do que entregamos no final do dia, pra além do que é possível quantificar”, afirmou Rafael.

Muito conhecedor do cotidiano bancário, Rafael exemplifica, “se eu for contar o número de clientes atendidos, esse número isolado não me diz nada. Há dias que você fica horas tentando falar com uma pessoa e não consegue, há casos que você gasta 40 minutos para resolver. Mas essas tentativas e suas imprevisibilidades também é trabalho, é a parte invisível do trabalho, que nessa lógica empresarial não é reconhecida como tal, mas também nos afeta porque nos dá a sensação de fracasso”, analisa.

Assim como a cobrança de metas abusivas e o adoecimento mental, o assédio também precisa ser entendido como resultado desse meio que vem ficando cada vez mais hostil. “Essa epidemia de assédio está vinculada ao modo de organização do trabalho, porque essa estrutura produz relações assediadoras, assimétricas, individualizadas, competitivas. Não podemos achar que o assédio se concentra apenas em uma determinada figura, que é apenas falta de caráter do assediador. Como se só trocar o gerente fosse o suficiente, porque não é. Precisamos questionar toda essa estrutura”, explicou Rafael.

O professor foi categórico em afirmar que em meio a esse contexto complexo, não há outra saída além da aposta nos coletivos e nesse sentido o sindicato é fundamental, bem como a organização e colaboração nos próprios locais de trabalho. “É um risco a gente tentar buscar apenas saídas individuais, porque elas são importantes, mas são sempre limitadas. Esse adoecimento não é individual, ainda que cada um sinta individualmente na pele. Se o adoecimento é fruto do modo como se organiza o trabalho bancário hoje, então precisamos transformar essas condições de trabalho para que novos sujeitos não padeçam também”, concluiu.

Em diálogo com o tema da mesa, o dirigente sindical, Fernando Antônio Toniello, destacou que, ao longo dos últimos anos, é possível observar as mudanças estratégicas do BB na forma de cobrança de metas. “Antigamente, o assédio forte vinha direto do gestor, normalmente do seu superior imediato. Mas isso tem migrado pra um assédio mais institucional. Principalmente de 2019 pra cá, o assédio vem em forma de aumento abusivo de metas. É uma forma mascarada de aumentar o resultado do banco sacrificando os funcionários”, criticou.

O dirigente do Sindicato dos Bancários/ES Igor Chagas Silva, lembrou da nova NR-1 que entrou em vigor esse ano com a inclusão dos riscos psicossociais, ressaltando que o grande desafio será justamente debater as condições de trabalho a fim de buscar soluções estruturais e não apenas individuais. “A gente precisa superar essa ideia caricata do gerente bravo, que grita e é agressivo, porque o assédio hoje é muito mais institucional. É feito através das metas abusivas, das reuniões frequentes, do controle excessivo, a perseguição de funcionários com a cultura do medo, aumento dos processos administrativos com punições mais severas. Debater os riscos psicossociais ignorando a questão das condições de trabalho e das metas é preocupante, assim como tentar resolver o assédio, apenas eliminando o gestor é insuficiente”, pontuou Igor.

Cassi

Amaral: Cassi em atenção à saúde primária

 

A última mesa do evento contou com a participação do diretor de Risco Populacional, Saúde e Rede Atendimento da Cassi, Fernando Amaral, que falou sobre o cenário atual da Caixa de Assistência dos Funcionários do BB, destacando a atuação da Cassi na promoção da saúde primária, com resultados positivos como redução das internações e economia de recursos. Além disso, Amaral também apontou os desafios atuais como a necessidade de renegociar o modelo de custeio e contribuição do banco.

“Temos que exigir o cumprimento da CGR-PAR 52, garantindo assim a proporção 70-30 no custeio do plano, sendo 70% de contribuição sob responsabilidade do BB e 30% dos funcionários, considerando que a contribuição atual dos funcionários já compõe os seus 30%, cabendo aumento apenas da parte patronal para atingir os 70%”, defendeu Amaral.