O ministro da Economia, Paulo Guedes, em entrevista ao canal de notícias CNN, nesse domingo, 05, retomou a pauta das privatizações. Guedes disse que quatro empresas estatais podem ser vendidas num prazo de 90 dias. O processo de privatizações, que estava programado para ser disparado no início deste ano, acabou recrudescendo devido à pandemia do novo coronavírus, que paralisou as economias em todo o mundo. Mas agora volta a ganhar força, com Guedes disposto a acelerar a venda das estatais.
O condutor da política ultraliberal do governo Bolsonaro listou entre as empresas que podem ser parcial ou integralmente negociadas os Correios, a Eletrobras, o Banco do Brasil e a Caixa. Guedes justificou que algumas áreas hoje sob a gestão do BB poderiam ser absorvidas pela Caixa e pelo BNDES. No pacote de privatizações, Guedes sinalizou a liquidação de subsidiárias e deu como exemplo as da Caixa. Ele afirmou, se referindo ao banco público, que “este é um ano excelente para fazer um IPO (abertura de capital) grande: de 20, 30, 40, 50 bilhões de reais. Bem maior até que uma Eletrobras, por exemplo”.
As declarações de Guedes foram repercutidas com o presidente da Caixa. Pedro Guimarães admitiu à revista VEJA, nessa segunda-feira, 06, que o IPO da Caixa Seguridade, empresa de venda de seguros e planos de previdência privada, é “uma possibilidade real e que o banco enxerga potencial para que 200 mil pessoas comprem ações da subsidiária”.
A diretora do Sindicato dos Bancários/ES, Rita Lima, condenou a retomada da pauta das privatizações em plena pandemia. Ela afirmou que a Caixa e o BB mostraram a importância social dos bancos públicos para mitigar os efeitos da mais grave crise sanitária mundial dos últimos 100 anos. “Em tempos de pandemia, os bancos públicos estão sendo a salvaguarda da população brasileira, sobretudo dos segmentos mais vulneráveis. A estratégia do governo tem sido negociar áreas lucrativas dos bancos, em um processo nefasto de enfraquecimento das instituições públicas”, criticou a dirigente.
Rita disse que é muito importante que a categoria bancária e a população, de maneira geral, entendam as intenções do governo de entregar integralmente ou parte das empresas públicas ao capital especulativo. A dirigente citou um levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE) que aponta o valor repassado pelas empresas ao Tesouro entre 2000 e 2019. No período, segundo o estudo, o valor repassado à União foi de R$ 376.260 bilhões. A Caixa entregou R$ 66.564 bilhões e o BB R$ 56.793 bilhões. Juntos, os dois bancos repassaram cerca de um terço do total pago ao Tesouro no período (veja tabela ao lado).
“Os números deixam claro que a Caixa e o BB são duas empresas públicas lucrativas. O governo jamais tira dinheiro do orçamento para cobrir rombos nessas empresas. Ao contrário, são os bancos públicos que reforçam o caixa da União. Há ainda o papel social que os bancos cumprem. Em momentos de crise como a que estamos enfrentando, os bancos públicos mostram o quanto são imprescindíveis”.
Rita afirmou ainda que a Caixa bateu o recorde de abrir 30 milhões de contas em uma semana e pagar o auxílio emergencial para mais de 100 milhões de brasileiros e brasileiras que se cadastraram no programa. “Quem fez isso não foi Bolsonaro, Guedes ou Pedro Guimarães. O mérito é todo dos empregados da Caixa”, assinalou Rita.
A também diretora do Sindicato, Goretti Barone, destacou a pujança financeira de grandes empresas públicas como BB, Caixa, BNDES, Petrobras e Eletrobrás. “Com indicadores econômicos anêmicos, mesmo antes da pandemia, o governo tem recorrido aos dividendos das empresas estatais para cobrir rombos no caixa. Só BB repassou à União R$ 3,7 bilhões em 2019. Juntas, as estatais repassaram mais de R$ 20 bilhões (veja na tabela ao lado).
Goretti afirmou que apesar dos resultados positivos das empresas estatais, a política neoliberal do governo Bolsonaro promove uma narrativa agressiva de ataques às empresas e aos servidores públicos. “A privatização de empresas lucrativas atende aos interesses do capital. O governo não pode vender as estatais sem o aval do Congresso, mas recorre à estratégia de fatiar importantes ativos dessas empresas por meio da venda de suas subsidiárias. Esse processo de fatiamento vem ocorrendo mais intensamente no BB, na Petrobras e mais recentemente na Caixa”, sublinhou Goretti.
Rita completou: “Depois de entregar a Lotex, em outubro do ano passado, o governo parte para cima da Caixa Seguridade. É hora da categoria e da sociedade lutarem pela defesa das empresas públicas”. Ela ressaltou que a defesa da Caixa e do BB é tema central da Campanha Salarial da categoria. “Por isso, a Campanha deste ano exige mais do que nunca a mobilização dos bancários e das bancárias. Precisamos lutar, juntos, em defesa do patrimônio de todos os brasileiros, dos nossos direitos, da mesa única de negociação e da Caixa 100% pública”, finalizou Rita.

