A reunião entre o presidente da República e equipe ministerial ocorrida no último dia 22 de abril deve trazer muito mais revelações à tona do que somente a parte que trata do embate entre Bolsonaro e o ex-ministro da Justiça Sergio Moro. A jornalista Bela Megale revelou na sua coluna em O Globo, desta sexta-feira, 15, que o ministro da Economia, Paulo Guedes, defendeu a privatização do Banco do Brasil na polêmica reunião. Em tom de desabafo, Guedes afirmou: “É preciso vender logo a porra do Banco do Brasil”.
Para o diretor do Sindicato dos Bancários/ES, Thiago Duda, o desejo de Guedes em vender o BB não é novidade, mas a declaração pinçada de uma reunião ministerial revela sua visão sobre o banco. “A novidade é que a declaração é colocada de forma direta, sem meios-termos, nua e crua. O palavrão para qualificar o banco é bastante simbólico. Ele é usado como sinônimo de estorvo, um grande empecilho que está atrapalhando os planos do ministro. O que ele quer é rifar o banco ao mercado a todo custo”, afirma o dirigente sindical.
De fato, como disse Duda, o desejo de vender o BB é muito anterior à entrada de Guedes no governo Bolsonaro. O presidente da instituição, Rubem Novaes, amigo de longa data do ministro da Economia e outro entusiasta da privatização do BB, também presente na reunião, disse em uma entrevista no ano passado que ele e Guedes sempre defenderam a privatização do Banco do Brasil.
No final de 2019, Guedes voltou a fazer declarações a favor da venda do banco. Em entrevista ao Valor, em dezembro passado, ele admitiu que a privatização do banco estava sendo estudada pela sua equipe, mas faltava convencer o presidente Bolsonaro. Guedes chegou a dizer indiretamente que uma privatização particularmente poderia render R$ 250 bilhões. Só duas estatais chegariam a este valor: o BB e a Petrobras. No contexto, ele se referia ao Banco do Brasil.
“Esse é o pensamento da equipe econômica deste governo ultraliberal. O que interessa é entregar o BB ao mercado a preço de banana. Ele fala em R$ 250 bilhões como se fizesse algum sentido. O BB é uma instituição estruturante e estratégica do ponto de vista da economia e do mercado. Isso tem um valor incalculável. Na verdade ele quer se livrar de um quadro de empregados que ele considera ‘pesado’. É inconcebível na sua lógica ultraliberal que um banco público controle esse grande quantidade de recursos e feche com resultados positivos ano após ano. Seu propósito é entregar o banco para o mercado financeiro para que os rentistas de ocasião possam participar da festa”, critica Duda.
Na reunião ministerial que pode ser liberada na íntegra a qualquer momento pelo Supremo Tribunal Federal (STF), Guedes ainda se queixou que o BB estava tecnologicamente atrasado em relação aos bancos privados.
Segundo o dirigente sindical, a prática de soltar declarações sem qualquer base de realidade tem sido recorrente neste governo. “Não precisa ter nenhum traço de verdade. Eles simplesmente jogam as palavras ao vento sem nenhuma responsabilidade. É uma falácia essa fala de Guedes sobre o atraso tecnológico do banco. O BB está no mesmo patamar dos bancos privados em termos de tecnologia, se não estiver à frente. Aliás, a área de tecnologia do BB é referência para outros bancos no quesito segurança. O próprio Guedes sabe de tudo disso, mas se vale de inverdades para tentar desqualificar o banco e justificar a sua venda”, afirma.
Duda destaca que na reunião Guedes também criticou o Banco do Brasil por não estar “puxando a fila” para liberar créditos, acusando o banco de não cumprir seu papel social. “Ora, sabemos que isso é mais uma inverdade, mais um discurso oportunista para desqualificar o banco. Por que Guedes não cobrou com o mesmo vigor os bancos privados que estão sentados em cima de R$ 1,2 trilhão, que foram liberados pelo Banco Central em março e até agora esses recursos não se transformaram em crédito na praça? Estamos falando de mais de 16% do PIB. Esses recursos foram liberados pelo BC para amenizar os impactos da pandemia do novo coronavírus. Mas, neste caso, Guedes prefere ficar calado. Vai fazer o que, mandar estatizar os bancos privadas porque não querem emprestar dinheiro? “, questiona Duda em tom irônico sobre a cobrança seletiva de Guedes ao BB.
(Foto capa: Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil)

