
Fotos: Sérgio Cardoso
O Sindicato dos Bancários/ES recebeu na noite desta terça-feira, 26, a professora Elda Alvarenga para o lançamento do livro “Professoras Primárias: profissionalização e feminização do magistério capixaba (1845-1920)”, obra que adapta a pesquisa de doutorado defendida por ela em 2018, na Ufes.
O livro investiga o ingresso das mulheres no magistério, tendo como referência o início do trabalho das professoras nas escolas oficiais do ensino público no Espírito Santo, a partir de 1845. A pesquisa segue até 1920, quando os dados do recenseamento já apontam para uma presença majoritária das mulheres no magistério primário, processo que ela chama de feminização do magistério capixaba.

Segundo a autora, inicialmente exercido exclusivamente por homens, o magistério abre as portas para as mulheres de forma a atender a um padrão moral da época, que não permitia aos professores do sexo masculino dar aulas para meninas. O aspecto moral era tão significativo, que a primeira classe pública feminina foi criada em 1835, mas só entrou em funcionamento 10 anos depois, dada a ausência de professoras para assumir a posição.
“A estreita relação entre o Estado e a igreja católica gerou um impasse. A educação foi finalmente permitida para as meninas, desde que as aulas fossem ministradas por professoras. Mas como seriam formadas as professoras, se até então mulheres não podiam estudar? Esse dilema permaneceu por 10 anos no ES e, só em 1845 é anunciada a contratação da primeira mulher de uma escola pública provincial: Maria Carolina Ibrense, que era mineira”.
Para Elda, a contratação de Maria Carolina ajuda a desmontar um argumento recorrente na educação, de que as mulheres foram as responsáveis por desvalorizar o salário do magistério. Com base em documentos históricos, ela mostra que Carolina foi contratada com salário 1/3 maior que os professores da época, justamente como incentivo ao seu trabalho, dada a carência de mulheres já formadas para atuar como professoras.
A autora destaca que as mulheres souberam aproveitar a brecha gerada pela tensão entre o Estado e a igreja, tornando-se as primeiras mulheres e ingressar na carreira pública, o que abriu caminho para que elas almejassem também outras posições. “Foi muito simbólico as mulheres aceitarem o magistério. Numa época em que a atuação pública das mulheres era bastante restrita, isso mostrou que, se elas podiam ser professoras, por que não médicas, advogadas, assistentes sociais?”, diz.
Nesse sentido, o ingresso das mulheres no magistério contribuiu também para o questionamento de padrões. “Se esperava que as mulheres fossem para a escola para aprender a ler, mas para ler a bíblia. Para reforçar uma educação que atendesse aos padrões da época. Mas o tiro saiu pela culatra, porque a escolarização das mulheres, sobretudo como política pública, conseguiu ampliar esse papel”.
Apesar dos avanços da atuação feminina no mercado de trabalho e na vida pública, Elda explica que o debate moral ainda guarda lugar na sociedade e na categoria. “O processo de feminização do magistério veio acompanhado do discurso de que as mulheres eram mais aptas e adequadas à educação infantil porque já eram mães. Como reflexo disso, as mulheres são maioria nas séries iniciais, mas quanto maior o nível educacional, a participação feminina é reduzida”.
E completa: “Se por um lado reconhecemos o papel social do magistério, sabemos que ainda está presente o que se espera socialmente dele, como uma atividade de extensão do lar, do cuidado. Quando o assunto é moral, existe uma série de expectativas, de valores que permeiam a atuação das professoras, e isso vem desde o início da história da participação feminina do magistério. Ainda hoje a questão moral constitui um critério de avaliação, especialmente o magistério feminino”.

Para Elda, a cobrança sobre as mulheres tem aumentado com a ascensão do discurso conservador sobre educação e gênero, especialmente com o crescimento de movimentos como o Escola Sem Partido – uma conjuntura que requer uma rearticulação política do magistério para enfrentar o Estado machista e os seus reflexos na educação.
“Estamos num momento de muita disputa. Do mesmo jeito que pegamos essa profissão, mesmo com contradições, e a transformamos em outra, também podemos lutar contra os retrocessos desse governo. E precisamos fazer isso para resistir a discursos que já tínhamos superado há tempo”.
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