Sob os elogios do mercado, o Itaú festejou nesta terça-feira (07) mais um resultado recorde. Nos nove primeiros meses do ano, o banco registrou lucro de R$ 26,1 bilhões – marca histórica em valores nominais para bancos de capital aberto. No 3º trimestre deste ano (3T23) o lucro chegou a R$ 9 bilhões, 11,9% superior ao resultado apurado no mesmo período do ano passado (3T22). A rentabilidade sobre o patrimônio líquido (ROE) do Itaú atingiu 21,1% no 3º trimestre, resultado também enaltecido pelos analistas financeiros.
O banco também comemorou a estabilidade do índice de inadimplência acima de 90 dias, que fechou setembro em 3%, mesmo patamar do trimestre anterior. Os analistas creditam os resultados ao crescimento das margens financeiras com os clientes, aumento das receitas de serviços e de seguros e da ROE acima de 21%. O presidente do Itaú, Milton Maluhy Filho, acrescentou mais um fator ao excelente resultado do banco. “Nossos números refletem a transformação da nossa cultura e o jeito de trabalhar. Nosso e-NPS [employee Net Promoter Score], que avalia a satisfação dos nossos colaboradores, está na máxima histórica”.
“A afirmação do presidente do Itaú é completamente apartada da realidade dos trabalhadores e das trabalhadoras do Itaú. Dizer que a satisfação dos trabalhadores chegou ao nível máximo é de uma desfaçatez sem paralelo. A realidade mostra um conjunta de metas cada vez mais abusivas e o adoecimento em massa dos trabalhadores, muitos acometidos por doenças mentais em função do nível de estresse que domina os ambientes de trabalho no Itaú, tanto em agências (físicas e digitais) como nos departamentos”, aponta Carlos Pereira de Araújo (Carlão), diretor do Sindicato dos Bancários/ES e integrante do Comando Nacional dos Bancários.
O dirigente afirma que os lucros recordes que o banco vem acumulando nos últimos anos são resultado da exploração do trabalhador. “O Itaú é uma máquina de moer trabalhadores, e tem feito isso com requintes de crueldade. A cada ano, o banco impõe versões mais draconianas do programa de metas, gerando um ambiente de terror e adoecimento entre os funcionários. O lucro do Itaú está sendo construído por meio de ameaças e demissões”, critica Carlão.
Demissões
Até o primeiro semestre deste ano, o Itaú havia demitido 1.419 bancários. Somente no Espírito Santo, nos primeiros dias de agosto, foram 15 empregados demitidos. Os números atualizados até setembro apontam que o fechamento de postos de trabalho e agências seguem em ritmo acelerado no banco a despeito da série recorde de lucro. Até o 3T22, o Itaú empregava 73,5 mil bancários (não inclui pessoal de tecnologia e funcionários que atuam fora do Brasil), hoje são 71.700, ou seja, 1.800 trabalhadores a menos. Em relação ao fechamento de agências, o banco mantinha 2.788 unidades há um ano e atualmente tem 2.608.
Em agosto deste ano ocorreram diversas manifestações no país em protesto às demissões e ao fechamento de agências. No Espírito Santo, o Sindibancários aderiu aos protestos, retardando a abertura de agências. “Apesar dos resultados que vem acumulando, o Itaú mantém uma gestão perversa, com demissões e prática de assédio moral contra seus empregados, que são pressionados diariamente a bater metas inatingíveis”. O Sinbancários e o movimento sindical Brasil afora têm feito protestos sistemáticos contra a política de opressão do Itaú.
Ainda sobre as demissões, o dirigente destaca que há uma faceta mais cruel: a eliminação dos funcionários mais velhos. “É notório que o etarismo orienta as demissões no Itaú. Há diversos casos pelo Brasil de bancários com 20 anos de Itaú e com mais de 40 anos de idade que estão sendo demitidos. Depois de anos trabalhando sob essa política que combina metas abusivas e sobrecarga de trabalho, o funcionário adoece e é descartado como um estorvo pelo banco”, denuncia Carlão.
O integrante do Comando Nacional do Bancários lembra que o Itaú usou o programa de desligamento voluntário (PDV) para se livrar de funcionários mais velhos e adoecidos pela própria empresa. Ele se refere a um estudo realizado ao longo de 18 meses por auditores fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE). De acordo com os auditores fiscais, os requisitos do PDV criado pelo Itaú no início de 2022 teriam sido desenhados para estimular a saída de funcionários de idade avançada e, principalmente, de empregados com problemas de saúde — em alguns casos, relacionados a doenças ocupacionais.
O site Repórter Brasil repercutiu o estudo à época da divulgação dos dados pelo MTE. Dos 1.501 funcionários que aderiram ao PDV em 2022, aponta o MTE, 85% estavam afastados há pelo menos 30 dias por motivo de doença ou acidente, ou se encontravam em estabilidade provisória após tratamento médico. Somados aos mais velhos, eles totalizavam 93,9% do público inscrito no programa.


