Itaú fecha 2020 com lucro de R$ 18,9 bi e “colchão” de R$ 30 bi

02/02/2021 18:24

Banco usou o calote previsto para 2020 para justificar o aumento da provisão em 52% em relação a 2019. O calote não se confirmou até agora. Ao contrário, caiu, mas o banco fez um “colchão” de R$ 29,9 bi

O Itaú informou nessa segunda-feira, 01, que registrou lucro de R$ 7,5 bilhões no quarto trimestre do ano passado, superior aos R$ 7,4 bilhões apurados no mesmo período de 2019. O maior banco privado do país foi o primeiro a apresentar o resultado de 2020: lucro de R$ 18,9 bilhões. Embora extraordinário, o resultado de 2020 é 28,9% inferior ao de 2019, ano em que o banco registrou lucro de R$ 26,5 bilhões.

O coordenador-geral do Sindicato dos Bancários/ES, Jonas Freire, destaca alguns motivos que explicam a redução dos lucros em relação a 2019. “Primeiramente, é importante pôr os pingos nos is e esclarecer que quase R$ 19 bilhões de lucro em meio à mais grave crise sanitária mundial dos últimos 100 anos é um resultado de dar inveja à maioria das empresas brasileiras e estrangeiras”.

Ele diz ainda que não apenas o Itaú, mas quase todos os bancos aumentaram significativamente as despesas com provisão prevendo que a pandemia faria explodir o calote, o que acabou não acontecendo. “O cenário de tragédia antecipado pelos bancos, até agora pelo menos, não se confirmou”, analisa o dirigente.

O “colchão financeiro” preparado pelo Itaú para absorver as chamadas despesas de provisão para créditos de liquidação duvidosa somaram R$ 29,9 bilhões em 2020, alta de 52,1% na comparação com os R$ 19,6 bilhões provisionados em 2019. “Se somarmos esses R$ 10 bilhões a mais que foram provisionados em 2020 ao lucro anunciado, o resultado saltaria para R$ 28,9 bilhões, ou seja, o Itaú registraria um lucro superior aos R$ 26,5 bilhões apurados em 2019 – ano em que o banco bateu recorde”. (veja abaixo gráfico dos últimos resultados do Itaú).

A análise do sindicalista sobre a não confirmação do calote previsto pelo banco em 2020 pode ser comprovada em números. O índice de inadimplência acima de 90 dias encerrou o ano em 2,3%, uma queda de 0,7 ponto percentual na comparação com 2019. “A inadimplência na verdade, como apontam os números, caiu, mesmo em um ano de pandemia, com forte recessão e desemprego. A escrita se confirmou mais uma vez durante a pandemia: não há crises para os bancos”, assinala Jonas.

O Itaú informou ainda que a receita com prestação de serviços somou R$ 37,2 bilhões em 2020 e ficou praticamente estável ao apurado em 2019, quando foi de R$ 37,3 bilhões. A carteira de crédito do Itaú cresceu 20,3% em 2020 e somou R$ 869,5 bilhões.

No acumulado de 2020, o banco viu crescer o crédito para a pessoa física (avanço de 6,6%) e para o segmento de micro, pequenas e médias empresas (alta de 33,9%).

Demissões

Apesar dos resultados positivos que vem se acumulando ano a ano, os três maiores bancos privados do país – Itaú, Bradesco e Santander – fecharam em 2020 cerca de mil agências e demitiram mais de 11 mil empregados.

Jonas Freire afirma que historicamente os lucros astronômicos dos bancos não impedem o fechamento de agências e as demissões em massa. “A ordem é lucrar cada vez mais. Essa lógica que revela a faceta mais cruel do capitalismo vem a cada dia precarizando as condições de trabalho impostas pelos bancos”.

O dirigente cita como exemplo as negociações travadas com os bancos em 2020 em função da adoção do teletrabalho em decorrência da pandemia. Jonas diz que a modalidade foi implantada porque os bancos perceberam que havia uma oportunidade de reduzir custos. “No geral, os acordos que regulamentaram o teletrabalho foram bastante vantajosos para os bancos, mas estão trazendo prejuízos aos trabalhadores, que foram obrigados a aderir ao home office como única alternativa para evitar a propagação do vírus”.

Jonas acrescenta que o acordo de teletrabalho proposto pelo Itaú está entre os piores. “Na plenária realizada em dezembro com os bancários do Itaú no Espírito Santo, mais de 92% rejeitaram a proposta de teletrabalho do banco. Uma proposta que não agrada quase a totalidade dos funcionários parece bastante ruim”, finaliza Jonas.

Novo presidente

O banco Itaú também confirmou nesta terça-feira, 02, que Milton Maluhy Filho assume a presidência do banco no lugar de Candido Bracher. Em uma teleconferência dirigida ao mercado, Maluhy destacou várias vezes que a transformação tecnológica será prioridade na sua gestão. Ele também admitiu que há um crescente número de clientes migrando para as plataformas digitais e que mais agências serão fechadas no futuro.