Logo no início da pandemia, o Itaú identificou a crise sanitária como uma oportunidade para retocar o verniz de responsabilidade social da empresa, que andava meio esmaecido. A campanha Todos pela Saúde contratou como garoto-propaganda uma das mais respeitadas autoridades em saúde do país, o médico Dráuzio Varella, e apostou suas fichas em peças publicitárias bem produzidas para mostrar o lado, digamos, mais “humano” do banco. Mas o banco foi além das peças publicitárias e quis convencer a sociedade que a solidariedade também acontecia para dentro da empresa. Ainda em março, o banco divulgou nota garantindo que “as demissões estavam suspensas durante a pandemia”.
Tudo encenação. Após sete meses de pandemia os empregados comprovaram que a narrativa solidária das campanhas não passava de peças de ficção. “A realidade do dia a dia tem sido inóspita com os bancários e bancárias do Itaú. Longe da solidariedade dos filmes publicitários”, diz Carlos Pereira de Araújo (Carlão), membro do Comando Nacional dos Bancários.
O dirigente critica o programa AGIR, que impõe metas inatingíveis para os empregados. “Perversidade é a palavra que melhor traduz essa política do Itaú que estabelece metas abusivas em plena pandemia, com a economia em colapso e com as taxas de desemprego batendo recorde mensalmente”.
Na avaliação de Carlão, o Itaú, como conhecedor dos meandros do mercado, sabe melhor do que ninguém que a economia brasileira, que já vinha mal antes da crise sanitária, entrou numa espiral recessiva aguda. “Impor metas abusivas cria o argumento para o banco justificar as demissões que já estão em curso. O plano do banco, com requintes de crueldade, é transferir a responsabilidade das demissões para os próprios bancários. Na linha: ‘vocês não conseguiram cumprir as metas estabelecidas pelo banco, que não poderá mantê-los’. Essa é a maneira que o Itaú encontrou para justificar as demissões, que também se repetem no Bradesco, Mercantil e Santander”, enumera.
O dirigente sindical afirma que a estratégia do Itaú de tentar colar o selo de “incompetência” nos empregados é covarde e não se sustenta. “Ora, os lucros recordes do banco ano após ano estão aí para comprovar que os bancários e as bancárias do Itaú sempre tiveram um retrospecto positivo em relação às metas. O normal é o bancário bater a meta. Agora, ignorar esse contexto de crise que afeta praticamente todos os segmentos da economia e querer jogar a conta nas costas do trabalhador só pode ser interpretado como má-fé”, protesta Carlão.
Revisão das metas
A Comissão de Organização dos Empregados (COE-Itaú) cobra revisão das metas do AGIR, que estão ultrapassando os 1.200 pontos. Segundo a COE, não bastassem as demissões que estão ocorrendo, o Itaú está dobrando as metas exigidas dos trabalhadores pelo programa AGIR, ligado à remuneração variável dos funcionários, com uma série de itens de vendas e atendimento a serem cumpridos.
O crédito consignado é um exemplo da cobrança por meta abusiva. Em outubro, a meta do produto pelo AGIR aumentou em 30% em relação a setembro, após o governo divulgar o aumento na margem de consignado INSS de 30% para 35%. De acordo com a COE, as exigências do AGIR incluem também itens como tempo de atendimento ao cliente, contratação de crédito, abertura de contas, venda de plano de capitalização, entre outros.
“Repito, são imposições completamente apartadas da caótica conjuntura que a grande maioria da população brasileira está enfrentando. Os números da última pesquisa Pnad/IBGE mostram que os milhões de brasileiros que hoje dependem do auxílio emergencial voltaram a buscar emprego no mercado de trabalho porque não conseguem sobreviver com 300 reais, mas encontram a porta fechada. Temos quase 55 milhões de brasileiros vivendo abaixo da linha da pobreza. Isso significa que um quarto da população está tentando se equilibrar com cerca de 400 reais mensais. Essa é a realidade do país que o Itaú e os demais bancos fingem não ver. Eles preferem continuar fazendo grandes produções publicitárias para maquiar a realidade”, critica Carlão.









