Definitivamente, a maior crise sanitária dos últimos 100 anos não chegou ao Itaú. Aliás, nem passou perto. O maior banco privado do país registrou no primeiro semestre de 2021 lucro líquido de R$ 12,9 bilhões – resultado muito próximo do apurado no mesmo período de 2019, quando obteve lucro de R$ 13,9. Naquele ano, o Itaú bateria recorde histórico de lucro (R$ 26,5 bilhões), superando todos os concorrentes.
Os analistas do mercado e o próprio Itaú fazem projeções ainda mais otimistas para o segundo semestre de 2021. Se repetir o resultado semelhante ao do primeiro semestre, o Itaú fecha este ano com lucro de R$ 25,8 bilhões, praticamente igualando o recorde histórico de 2019, quando o banco atingiu a marca de R$ 26,5 bilhões.
Para Carlos Pereira de Araújo (Carlão) do Comando Nacional dos Bancários, esses números comprovam que a pandemia passou ao largo do Itaú. “Como temos visto nesses 16 meses de pandemia, o vírus é seletivo. A covid mata preferencialmente os mais pobres, que estão no subsolo da pirâmide social”.
Segundo Carlão, a mesma lógica se aplica no universo empresarial. “As grandes empresas, que ocupam o topo da pirâmide, estão imunes ao vírus, casos dos bancos; já as médias e sobretudo as micro e pequenas empresas estão mais vulneráveis. Muitas foram dizimadas pela pandemia e, com elas, milhares de empregos. Os bancos se mantêm ilesos à pandemia, mas nem por isso pararam de demitir. Ao contrário, demitiram ainda mais durante a pandemia. Chega a ser perverso demitir num país que tem mais de 14 milhões desempregados”, critica.
Curva do lucro acompanhou a de mortes
“O resultado do primeiro semestre confirma o que sempre soubemos: o Itaú, a exemplo de outros bancos, usou a covid para tentar se colocar como vítima dos efeitos deletérios da pandemia. Mas a covid sequer espreitou a porta dos bancos. A farsa de que os bancos também sofreram com a pandemia não para em pé ante os resultados que já eram bons em 2020 e são excepcionais em 2021”.
O dirigente afirma que o Itaú, o último dos três gigantes privados a apresentar os resultados, repete a margem extraordinária de lucro dos concorrentes. Itaú, Bradesco e Santander registraram crescimento do lucro no primeiro semestre de 2021, em relação ao mesmo período do ano passado, entre 59% a 68%.
Carlão chama atenção para o fato de a curva do lucro acompanhar a de mortes. “Podemos dizer, criando um neologismo, que esse é o necrolucro, o lucro com cheiro de morte. Não podemos esquecer que em 2021 já morreram mais brasileiros de covid do que em todo o ano passado”.
Essas mortes, continua Carlão, se concentram nos quatro primeiros meses deste ano. Ele lembra que foram, ao todo, 193.875 mortes em 2020 contra 265.170 em 2021 (dados atualizados até 05/08/202). “Isso significa que neste primeiro semestre, o mais letal da covid, o lucro do Itaú disparou. Repito, a narrativa de que o banco sofreu os efeitos da pandemia é uma farsa. Sofreram de fato os bancários e as bancárias do Itaú, que perderam suas vidas para covid, que contraíram o vírus no ambiente de trabalho e que continuam expostos à covid e pressionados por metas desumanas em meio à pandemia”.
Números do Itaú
No 1º semestre de 2021, o Itaú Unibanco obteve Lucro Líquido Recorrente Gerencial de R$ 12,9 bilhões, alta de 59,4% em relação ao mesmo período do ano passado. No 2º trimestre de 2021, o banco obteve lucro de R$ 6,5 bilhões, com alta de 55,6% em relação ao mesmo período de 2020 e de 2,3% no trimestre. Já o retorno recorrente consolidado sobre o Patrimônio Líquido médio anualizado do banco (ROE) foi de 18,8% no semestre, com alta de 5,7 p.p. em doze meses.
A Carteira de Crédito do banco cresceu 12% em 12 meses, atingindo R$ 909,1 bilhões. As operações com pessoas físicas (PF) cresceram 22,2% em relação a junho de 2020, totalizando R$ 279,7 bilhões, com destaque para crédito imobiliário (+44,4%), veículos (+32,3%) e cartão de crédito (+21,2%).
O Índice de Inadimplência superior a 90 dias, no país, caiu 0,5 p.p., ficando em 2,7% no semestre. As despesas com provisão para devedores duvidosos (PDD) foram reduzidas em 64,5% em relação ao mesmo período de 2020, totalizando R$ 6,3 bilhões em junho de 2021.
A receita com prestação de serviços e tarifas bancárias cresceu 7,2% em 12 meses, totalizando cerca de R$ 20,6 bilhões.
Contratações são decorrentes de incorporação
Com base em levantamento do Dieese (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos) sobre os resultados do Itaú, Carlão pondera que as contratações do Itaú são decorrentes das contratações de trabalhadores de Tecnologia da Informação (TI) e de uma incorporação ocorrida em 2020. “A incorporação mascara os dados”. Ele diz que, a partir do segundo trimestre de 2020, o Itaú incorporou os empregados da ZUP (empresa de tecnologia adquirida em outubro de 2019 pelo conglomerado). “Os bancários mesmo estão sendo demitidos. Foram 1.900 postos fechados nos últmos 12 meses. O que causa ainda mais indignação ante a montanha de dinheiro que o banco acumulou em plena pandemia”, protesta.
O Itaú fechou ainda, em 12 meses, 114 agências físicas no Brasil.
(Arte capa: Almenara)

