Bethania, diretora do Sindicato, no Levante Mulheres Vivas

“As mulheres de todo o Brasil estão gritando juntas um basta! Precisamos lutar. No Brasil, quatro mulheres morrem por dia. No Espírito Santo, uma mulher morre a cada nove dias. E não são apenas números, são vidas com histórias, desejos e amores. É o futuro que foi arrancado de cada uma dessas mulheres vítimas de feminicídio resultante do machismo”. A afirmação é da bancária Bethania Emerick, diretora da Secretaria de Mulheres do Sindibancários/ES e da Intersindical/ES. Bethania e a também diretora do Sindicato Nathalia Galini, junto com funcionárias da entidade, marcaram presença na manifestação “Levante Mulheres Vivas”, que encheu as ruas de vinte estados, incluindo o Espírito Santo, e o Distrito Federal neste domingo, 7.

Em Vitória, o ato aconteceu próximo ao Memorial Araceli, localizado no viaduto de mesmo nome que fica no final da Praia de Camburi. Araceli Cabrera Sánchez Crespo foi abusada sexualmente e assassinada no dia 18 de maio de 1973, quando tinha oito anos. Herdeiros de famílias poderosas do Estado, Dante de Barros Michelini e Paulo Constanteen Helal, foram acusados de drogar, estuprar e matar a menina. O caso acabou em impunidade. Em 2000, o Congresso Nacional instituiu o 18 de maio como o Dia Nacional de Combate ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, em homenagem a Araceli.

Ato e marcha

Cerca de 500 pessoas participaram do ato seguido de caminhada pela Praia de Camburi na capital capixaba. Nos outros pontos do país, milhares de mulheres e homens que apoiam a luta contra o feminicídio marcaram presença. Os atos foram chamados por organizações de mulheres em reação aos dados de feminicídio, com destaque para as ocorrências das últimas semanas.

No dia 28 de novembro, um ataque a tiros no Centro Federal de Educação Tecnológica (Cefet) do Maracanã, no Rio de Janeiro, matou Allane de Souza Pedrotti Matos e Layse Costa Pinheiro. O professor colega das vítimas atirou e praticou suicídio em seguida. O motivo seria não aceitar ser chefiado por mulheres. No dia 29 de novembro, Taynara Souza Santos, de 31 anos, foi brutalmente atropelada e arrastada pelo ex-companheiro em São Paulo.

No dia 1º de dezembro, aconteceram os enterros de Isabela Gomes de Macedo e de seus quatro filhos (de um, três, quatro e sete anos), vítimas de um incêndio criminoso em Pernambuco, tendo como principal suspeito o marido e pai das crianças, que nega o crime. O caso mais recente foi a morte da cabo Maria de Lourdes Freire Matos, assassinada no dia 5 de dezembro por um soldado dentro do 1º Regimento de Cavalaria de Guardas, no Distrito Federal.

Medidas protetivas

Bethania Emerick destaca que “precisamos de medidas protetivas efetivas, monitoramento eletrônico e canais de acolhimento que estejam disponíveis a qualquer momento, não apenas das 8 às 18 horas como se a violência acontecesse em horário comercial. A urgência de salvar vidas é que tem que pautar as políticas públicas”.

A dirigente destacou, ainda, que a violência contra a mulher não surge do nada: “É cultivada no dia a dia, com uma piadinha contra a qual a gente não se posiciona, com conversas que não agregam nada à luta contra o machismo.  Quando as mulheres denunciam, falam, escrevem e protestam, muitos homens se comportam como se não estivessem percebendo, reforçando o machismo que leva ao feminicídio. Por isso é muito importante que vocês homens estejam aqui conosco se posicionando e lutando junto com a gente, ensinando a seus filhos a lutar e se posicionar também. A educação precisa partir de nós, homens e mulheres”, discursou ela na manifestação.

Momentos de emoção

Além das manifestações de organizações de mulheres, das parlamentares Camila Valadão e Ana Paula Rocha (PSOL), Iriny Lopes, Jack Rocha, Karla Coser e Açucena (PT), depoimentos de vítimas de violência doméstica e de tentativa de feminicídio e de familiares e amigos de mulheres que morreram por serem mulheres marcaram o ato em Vitória.

Uma amiga de Catarina Kasten, de 31 anos, estuprada e assassinada em uma trilha em Santa Catarina, no dia 21 de novembro, afirmou: “Em memória da Catarina e de todas as outras mulheres que tiveram as suas vida brutalmente findadas nas mãos desse mundo misógino, nas mãos do patriarcado, eu não poderia deixar de falar. A gente vê todos os dias no noticiário isso acontecer, mas a gente fica, intimamente, torcendo que isso não aconteça próximo da gente. E acontece. A Catarina era uma colega cheia de vida, a companheira do Roger, era filha, irmã, cunhada, nora e professora universitária e ela não foi morta porque andou por lugares perigosos ou saiu à noite sozinha. Ela foi morta porque era uma mulher, pela manhã, indo para uma aula de natação. Neste país, para ser morta basta ser mulher”.

Outra mulher relatou que foi vítima do companheiro com o uso de uma faca, pediu socorro gritando, “mas nenhuma vizinha ou vizinho meteu a colher” no que acontecia no apartamento do casal. Ela é uma sobrevivente.

A mãe de um jovem que compareceu à manifestação não teve a mesma sorte. “Eu perdi minha mãe, deram seis tiros nela”, afirmou ele entre lágrimas.

Fotos: Sérgio Cardoso