Nenhum dos grandes bancos brasileiros viu seus resultados crescerem tanto em 2021 como a Caixa. O banco público anunciou nessa quinta-feira, 19, lucro líquido de R$ 10,8 bilhões no 1º semestre de 2021 – crescimento de 93,4% em relação ao mesmo período de 2020. No 2º trimestre o salto foi ainda maior: lucro de R$ 6,3 bilhões, o que representa um crescimento de 144,7% em relação ao mesmo trimestre do ano passado. O resultado do 2º trimestre é recorde histórico da Caixa.
De acordo com a Caixa, o resultado foi impactado, principalmente, por ganhos decorrentes da alteração na participação relativa apurada sobre investimentos da Caixa Seguridade (R$ 1,5 bilhão), com a venda das ações da Caixa Seguridade (R$ 3,3 bilhões) e com a venda das ações do Banco Pan (R$ 1,9 bilhão).
Para o diretor do Sindicato dos Bancários/ES Igor Bongiovani, o lucro atípico em 2021 é resultado do processo de desmonte da Caixa, que vem na esteira da política ultraliberal imposta por Bolsonaro e Paulo Guedes (ministro da Economia) . “A venda da Caixa Seguridade representa a perda de um dos principais ativos da empresa. Cada ativo vendido compromete os investimentos do banco em habitação, saneamento, educação e outras áreas sociais que deveriam ser foco prioritário do banco”.
Segundo o dirigente, o presidente da Caixa, Pedro Guimarães, a cada dia, afasta mais a Caixa do seu propósito social e a aproxima do mercado, como um banco que só visa o lucro. Bongiovani alerta que no balanço de 2022 não haverá mais a Caixa Seguridade, que fez disparar o lucro nesse primeiro semestre. “Esse é um patrimônio que vai e não volta mais. São com esses ativos que a Caixa compõe o seu lucro e garante os investimentos nas áreas sociais”.
Assim como a Caixa Seguridade, alerta o dirigente, outros ativos valiosos estão na mira de Guimarães. Ele cita Caixa Asset, gestora de fundos de terceiros que já tem Oferta Pública Inicial de Ações (IPO) prevista para setembro. Também estão nos planos de Guimarães a IPO da bandeira de cartões Elo, na qual a Caixa tem uma fatia de 41,4% e divide o controle com Bradesco e Banco do Brasil. Outro ativo que deve ser negociado no nascedouro é o banco digital da Caixa, que vai ficar com os 107 milhões de clientes do aplicativo Caixa Tem. Para concretizar o anúncio da IPO do banco digital a Caixa só aguarda um sinal verde do Banco Central.
“Só o esqueleto”
“Nesse ritmo de desmonte, em pouco tempo, vai sobrar somente o esqueleto da Caixa. O que Guimarães classifica como ‘ativos não estratégicos’ são, na verdade, ativos vitais para a Caixa cumprir seu papel social”, afirma Bongiovani.
A Caixa encerrou o 1º semestre de 2021 com 84.262 empregados, com fechamento de 58 postos de trabalho em 12 meses. Após pressão das entidades, em julho de 2021, a Caixa anunciou a ampliação do número de empregados e terceirizados. Segundo o banco, serão 10 mil novos colaboradores, sendo 4 mil empregados Caixa, 5,2 mil estagiários e adolescentes aprendizes, e cerca de 800 recepcionistas e vigilantes. Por outro lado, a Caixa registrou incremento de aproximadamente 17,7 milhões de novos clientes.
Cálculos apresentados no Congresso Nacional dos Empregados da Caixa Econômica Federal (Conecef) apontaram que a empresa estatal deveria ter hoje cerca de 130 mil empregados para manter a qualidade do atendimento à população e evitar a sobrecarga de trabalho. “Essa defasagem do quadro de pessoal explica por que há um número cada vez maior de empregados e empregadas adoecendo. Este ano, a Caixa aumentou a pressão por metas, apesar deste primeiro semestre ter sido o pior da pandemia em termos de óbitos por covid. A categoria nunca adoeceu tanto como em 2021. Houve aumento até nos casos de adoecimento de gerentes, o que não era muito comum”, aponta.
Ele acrescenta que o processo de privatização da Caixa está cada vez mais acelerado. “Ao se desfazer desses ativos, a Caixa perde toda sua capacidade de investimentos”. Esse processo de desmonte, continua o dirigente, também passa pelo ataque aos direitos dos empregados, como Saúde Caixa e Funcef. “Fica evidente que Guimarães está preparando a Caixa, por dentro e por fora, para vendê-la”.








