Nos últimos anos, o adoecimento mental da classe trabalhadora se tornou um problema de ordem mundial. No Brasil não é diferente. Levantamento do Ministério da Previdência Social, com base nos dados de 2024, aponta 472.328 licenças médicas por saúde mental. O número representa um aumento de 68% em comparação ao ano anterior, que registrou 283.471 licenças. Ansiedade e depressão lideram os afastamentos, respectivamente com 141.411 e 113.604 casos. Quando se faz um recorte comparativo com 2014, os dados são ainda mais preocupantes. Há 10 anos, os casos de ansiedade estavam na casa de 32 mil e os de depressão 59 mil. 

Ronan Teixeira, dirigente do Sindicato

Levantamentos anteriores, também com base em dados do INSS, apontaram que os bancários estão entre as categorias com os mais altos índices de adoecimento mental. Não podia ser diferente, a saúde mental passou a ser um tema central para o movimento sindical bancário. O debate esteve presente nas mesas de negociações com a Fenaban nas últimas campanhas salariais. A mobilização da categoria para debater tem motivado a produção de pesquisas e campanhas sobre o tema. A mais recente “Menos Metas, Mais Saúde” envolveu nacionalmente a categoria. Com base nos dados do INSS de 2022, a campanha advertia que a categoria bancária respondia por 25% dos afastamentos por saúde mental. “Ou seja, se considerarmos esse mesmo percentual para aplicarmos nos dados de 2024, podemos supor que cerca de 125 mil desses 472 mil afastamentos por saúde mental são de bancários e bancárias”, estima Ronan Teixeira, que coordena a Secretaria de Saúde do Sindicato dos Bancários/ES. 

O alto índice de casos de adoecimento mental na categoria bancária está no radar dos Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), pasta encarregada de fazer a fiscalização nas empresas das condições de trabalho. Segundo Viviane Forte, coordenadora geral de fiscalização em segurança e saúde no trabalho do MTE, em entrevista ao site G1, os bancos, teleatendimento e estabelecimentos de saúde são prioridades para a fiscalização devido ao alto índice de adoecimento mental.

“Caso os riscos sejam identificados, será necessário elaborar e implementar planos de ação, incluindo medidas preventivas e corretivas, como reorganização do trabalho ou melhorias nos relacionamentos interpessoais”, explicou a coordenadora ao G1.

As inspeções, que são feitas por auditores-fiscais, verificam o local de trabalho e dados de afastamentos por conta doenças ou acidentes, rotatividade de funcionários, conversam com trabalhadores e analisam documentos para identificar possíveis situações de risco.

Perfil
O levantamento do Ministério da Previdência também construiu um perfil dos trabalhadores atendidos: a maioria é mulher (64%), com idade média de 41 anos, e com quadros de ansiedade e depressão. Elas passam até três meses afastadas do trabalho. Os recortes por raça, faixa salarial ou escolaridade ainda não foram abertos pelo INSS.

Norma NR-1
Recentemente, o governo federal anunciou a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que apresenta as diretrizes de saúde no ambiente do trabalho. Com as atualizações, o MTE passa a fiscalizar os riscos psicossociais no processo de gestão de Segurança e Saúde no Trabalho (SST), o que pode, inclusive, acarretar em multa para as empresas. Entre os casos que podem ser enquadrados representar risco psicossocial estão as metas excessivas, jornadas extensas, ausência de suporte, assédio moral, conflitos interpessoais, falta de autonomia no trabalho e condições precárias de trabalho. 

Ronan Teixeira lembra que nas negociações da campanha salarial do ano passado o movimento sindical, a partir de pesquisas e estudos, mostrou que o modelo de gestão dos bancos está diretamente relacionado ao aumento dos casos de doenças mentais na categoria. “Como já era esperado, os bancos foram categóricos em negar a relação entre o modelo de gestão adotado pela maioria das instituições financeiras e o adoecimento mental. Esse negacionismo oportunista, no entanto, não tem sustentação quando confrontado com as pesquisas acadêmicas e com o próprio entendimento do MTE, que aponta as metas como fator de risco psicossocial para o trabalhador”. 

O dirigente do Sindicato afirma que o Comando Nacional dos Bancários, à ocasião das negociações do ano passado, apresentou aos bancos dados da pesquisa feita pelo UNB, que trouxe dados alarmantes sobre o adoecimento da categoria. Segundo o estudo, 76,5% dos entrevistados relataram ter tido pelo menos um problema de saúde relacionado ao trabalho; 40,2% estavam em acompanhamento psiquiátrico e, deles, 91,5% estavam tomando remédios controlados; 80% dos trabalhadores disseram ter tido problemas de saúde relacionados ao trabalho no último ano. 

Pesquisa no Espírito Santo
O recrudescimento dos casos de saúde mental nos últimos anos mobilizou o Sindicato dos Bancários/ES a promover ações de combate ao adoecimento da categoria. “Quando olhamos para os números do INSS e constatamos que os afastamentos por depressão, ansiedade, reações a estresse grave e outros transtornos relacionados à saúde mental dobraram nos últimos dez anos, soou um sinal de alerta e o tema imediatamente se tornou prioridade para o movimento sindical”. 

Entre as ações dessa mobilização em torno do tema, Ronan cita a pesquisa sobre saúde mental feita pelo Departamento de Psicologia Social e do Desenvolvimento da Universidade Federal do Espírito Santo em parceria com o Sindicato. “Apoiamos e ajudamos a organizar a base para participar da pesquisa porque sabíamos o quanto era importante ter uma radiografia da saúde mental dos bancários e as bancárias capixabas”. 

De acordo com a pesquisa “Nossa Saúde Importa”, coordenada pelos professores do Departamento de Psicologia da Ufes – Thiago Drumond, Roberta Belizário e Aline Alves -, os resultados da avaliação de sinais e sintomas de ansiedade, estresse e depressão sinalizam alta prevalência de sofrimento mental entre os respondentes. A maioria dos respondentes apresenta sinais que sugerem algum tipo de problema relacionado à saúde mental. Pode-se verificar, por exemplo, que 63% dos respondentes indicam sinais e sintomas de algum grau de ansiedade, sendo que quase 38% indicam tais sinais em frequência sugestiva de grande severidade. 

De modo semelhante, os dados apontam a alta prevalência de sinais sugestivos de estresse (mais de 40% dos respondentes relatam sinais e sintomas sugestivos de estresse grave e extremamente grave) e de depressão (dados indicam que mais de 43% dos respondentes afirmam perceber sinais sugestivos de depressão grave e extremamente, entre os respondentes.

Segundo os pesquisadores, considerando o quadro geral de sofrimento mental, computado a partir da classificação da soma de todas as respostas, “verifica-se que o sofrimento mental é uma possibilidade experenciada por quase 67% dos respondentes, em níveis que vão de leve a extremamente grave, sendo o nível mais frequente o extremamente grave”.

Ronan afirma que apenas a partir desse recorte da pesquisa da Ufes já dá para perceber a gravidade da saúde mental dos bancários capixabas, “que é um espelho da situação dos bancários de todo o país. Há uma escalada epidêmica dos casos de adoecimento mental na categoria. Os estudos e levantamentos que foram feitos nos últimos anos ratificam a gravidade da situação e põem a categoria e o movimento sindical em alerta. O modelo de gestão dos bancos, baseado na cobrança de metas, se intensificou nos últimos anos. O aumento dos casos de adoecimento do INSS nos últimos anos não é mera coincidência. A curva de dados aponta que os casos cresceram significativamente da pandemia para cá”. 

Nos bancos, continua Ronan, a pandemia da covid-19 funcionou como um acelerador para pôr em prática a reestruturação que estava sendo planejada pelos bancos. Ele cita os investimentos em tecnologia que quintuplicaram de 2019 para cá. Em 2019, os bancos investiram pouco mais de R$ 8,5 bilhões em tecnologia. Com a pandemia, esse investimento explodiu, rompendo a casa dos R$ 47 bilhões em 2024. “Muitos desses bilhões foram usados no desenvolvimento de novas tecnologias para os clientes, mas uma parte bem significativa foi aplicada no desenvolvimento de plataformas cada vez mais eficazes para controlar os bancários, que sofrem a opressão do implacável do sistema de metas. Estresse, depressão e ansiedade compõem o combo de doenças mentais do bancário, que trabalha pressionado pela gestão de metas e resultados. O adoecimento mental, fatalmente, é o fim da linha desse processo insano e opressor”, critica Ronan. 

O levantamento do Ministério das Previdência Social registrou 8.119 casos de adoecimento mental entre os trabalhadores formais. A exemplo do resultado da maioria dos estados, ansiedade e depressão também lideram os casos de afastamentos, respectivamente com 2.450 e 2.338 casos.